Aos pés do Monte Nam, ao norte do local da onde ficavam as antigas tropas norte-americana de Yongsan, fica Haebangchon, um dos bairros mais antigos no centro de Seul.

Há um século atrás, o local abrigava o Santuário Gyeongseong Gokoku, o “ramo local” do Santuário Yasukuni do Japão, um memorial aos mortos de guerra, incluindo criminosos condenados.

A cerca de 1,5 km a oeste do santuário, localiza-se a Escola Secundária de Meninas Shinkwang, onde anteriormente costumava ser um campo de prisioneiros, no qual o exército imperial japonês mantinha prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Perto dali, encontrava-se o principal campo de treinamento militar, um dos primeiros estabelecidos pelo Japão no curto período do Império Coreano, antes de tornar o pais sua colônia em 1910.

A base militar americana, agora transferida para Pyeongtaek, abriga uma grande diversidade étnica, o que ajudou a construir a Yongsan moderna. Porém poucos conhecem a cidade como herança da ocupação de 35 anos do Japão na península.

Após 73 anos da ocupação, o distrito pretende incorporar mais um local a seus pontos de visitação sobre sua história, pois está programado para esta quarta feira a abertura de um museu independente sobre a história colonial da Coreia.

O Museu de história Colonial Japonesa na Coreia exibirá cerca de 70.000 antiguidades e materiais bibliográficos do período colonial.

Ao contrário dos museus públicos já existentes que focam nos movimentos anti-japoneses do período, este museu pretende focar nos meios de subsistência das pessoas comuns durante o momento da ocupação estrangeira; Kim Seung-eun do Centro para a Verdade e Justiça Histórica (CHTJ), que coordena o museu, declarou:

Não tínhamos um museu de história colonial que abrangesse todos os aspectos da colonização, especialmente da perspectiva de pessoas comuns que viveram destes anos de agonia“, disse Kim, chefe da divisão de documentação do CHTJ, em entrevista na segunda-feira.

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O museu está localizado no segundo andar do novo prédio do CHTJ, a poucos quarteirões da escola secundária Shinkwang.

A data de inauguração também marca o 108º aniversário de Gyeongsulgukchi, a “Humilhação Nacional no Ano de Gyeongsul”,  ano em que o Tratado de Anexação Japão-Coreia, foi firmado à força pelo Imperador Sunjong da Coreia.

A peça mais representativa da coleção é a “Declaração de Independência”, um documento formulado por 33 ativistas coreanos em 1 de março de 1919. Esta foi a primeira forma de resistência pública, que se tornou um gatilho para outros movimentos anti-japoneses, que foram violentamente reprimidos. O museu exibirá um cópia para preservação do original.

Mas uma grande parte da coleção consiste em itens que antes pertenciam a coreanos comuns, como cartas, propagandas, cartazes de guerra de recrutamento, fotos de famílias, diários e documentos mantidos pela polícia militar japonesa a fim de suprimir sua colônia.

Os principais itens exibidos no museu são objetos pessoais, diz Kim, pois acredita que estes têm muito mais valor do que qualquer outro artefato em circulação.

Ele citou como exemplo duas fotos doadas ao museu pela família de uma vítima coreana de trabalhos forçados em tempo de guerra. Eles mostram um jovem posando em frente à fábrica para onde foi levado logo depois que chegou ao Japão. Ele escreveu uma mensagem para sua família dizendo que voltaria para casa com muito dinheiro. Esta foi a ultima noticia que tiveram do pai.

Em 2005, a família finalmente conseguiu encerrar o caso que permaneceu sem resposta por décadas. Um ativista japonês descobriu trechos de papel deste pai em antigos registros de pensão estaduais. O registro mostrou que ele morreu no campo de trabalho.

Será que este pai imaginou que essas fotos seriam o último presente para sua família? Seus filhos nunca souberam que só se lembrariam de seu pai pelas fotos enrugadas“, disse Kim. “Queremos mostrar algo grande e maravilhoso não um artefato de museu. Qualquer registro de alguém e sua experiência, boa ou ruim, é história.”

O CHTJ, é um instituto de pesquisas ativistas fundado em 1991, sendo o mais conhecido por seu trabalho no Dicionário Biográfico de Colaboradores Pró-Japoneses. A nação recebeu com surpresa em 2009, a publicação de uma série de enciclopédias de três volumes, contendo informações sobre 4.389 indivíduos que ficaram do lado do Japão durante o seu reinado colonial.

A definição de colaboradores, conhecida como Chinilpa, continua sendo uma questão complexa, que muitas vezes desencadeia uma divisão ideológica acalorada. Depois da guerra, o governo do Sul apoiado pelos EUA ignorou a limpeza dos remanescentes pró-Japão. Muitos dos poderosos e privilegiados atualmente são descendentes de Chinilpas.

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E muitos, se não todos eles, tendem a defender o ponto de vista que, simplesmente, o domínio colonial do Japão ajudou a modernizar a Coreia e que o apoio a eles era inevitável para a sobrevivência.

A posição do CHTJ contra esta teoria da reivindicação colocou-se em desacordo com governos sob presidentes conservadores. A divulgação do dicionário biográfico foi possível após centenas de cidadãos, indignados com a negação do financiamento pelo projeto, doaram 700 milhões de won (US$ 624.000) para financiar o projeto.

Quanto ao museu, levou 11 anos para o CHTJ concluir o projeto de 5,5 bilhões de won. O renomado sacerdote católico Song Gi-in alimentou o movimento com sua doação de 200 milhões de won, seguida por mais de 4.800 cidadãos que pagaram um total de 1,5 bilhão de won. Dos recursos arrecadados, 103 milhões de won vieram de 800 japoneses.

O CHTJ conseguiu levantar 3,3 bilhões de won no total, o que chamou de “poder das pessoas”. “Nós devemos o resto ao banco“, Kim riu.

Com os recursos financeiros limitados continuam a ser um problema para o museu, ainda não foi possível atualizar e armazenamento de todos os arquivos. A equipe e um punhado de voluntários estão praticamente digitalizando a enorme coleção manualmente. Eles completaram cerca de 60% até agora.

Estamos tentando encontrar as melhores formas de conservação a longo prazo, como promoções para garantir patrocínios mais regulares“, disse Kim. “Nós achamos que é melhor se fizermos nosso trabalho (sem o apoio do Estado). O estado tem seu próprio papel a desempenhar, e nós temos o nosso.”

O museu está planejando vários eventos como parte dos esforços para estender seu alcance ao público em geral. No mês que vem, será realizada uma série de viagens de campo dentro de Yongsan. A equipe do museu irá caminhar com os participantes para explorar locais históricos desconhecidos.

As visitas projetadas especificamente para visitantes japoneses serão realizadas de outubro a dezembro.

Queremos que seja um museu ativo, não apenas exibindo itens, mas agindo para aumentar a conscientização“, disse Kim. “Continuaremos fazendo perguntas, como podemos interpretar e superar o passado vergonhoso, através dos traços que juntamos.”


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