Quando a atriz e cantora Sulli, de 25 anos, foi encontrada morta em sua casa, o caso foi descrito como “morte pela ponta dos dedos”.

Sulli, cujo nome real era Choi Jinri, era vítima, há tempos, de criticismo violento por desafiar as normas sociais do país – desde usar uma camiseta sem sutiã em público e ser sincera sobre seus romances a fazer uma live enquanto bebia com os amigos.

A ex-integrante do grupo f(x) também foi atacada online por trolls por ter falado sobre problemas de saúde metal, cyberbullying e por lutar pelo direito das mulheres ao aborto, que ainda é um assunto sensível para a sociedade coreana.

De acordo com a polícia, Sulli sofria de depressão profunda.

Além da grande pressão e gigante competição que os ídolos do k-pop enfrentam desde muitos novos, a morte de Sulli escancarou um lado negro da sociedade coreana: a tolerância com insultos feitos às celebridades mulheres, assim como as notícias impiedosas sobre a vida privada das celebridades, dizem os especialistas.

Seguindo a morte de Sulli, algumas leis que visam conter o cyberbullying estão sendo submetidas à Assembleia Nacional, apesar das preocupações com relação à liberdade de discurso. Também estão sendo levantadas questões sobre a ética jornalística e o decreto de leis anti-discriminação que possam coibir o discurso de ódio em público.

AS “LEIS SULLI”

Foto: Grazia Magazine

Após a morte de Sulli, o site presidencial foi inundado com petições exigindo que usuários registrassem seu nome real para que pudessem fazer comentários. As petições também pedem por punições mais duras para trolls e veículos midiáticos que espalhem mentiras.

De acordo com uma pesquisa conduzida após a morte de Sulli, cerca de 70% dos coreanos apoiavam a adoção do uso dos nomes reais para comentários, enquanto 24% se opunham.

Esse pedido popular levou ao Daum, o segundo maior portal de notícias sul-coreano, a fechar, temporariamente, sua seção de comentários para notícias da indústria do entretenimento, onde os insultos acontecem com frequência.

No dia 25 de outubro, duas propostas de lei que visam acabar com o abuso online foram apresentadas na Assembleia Nacional.

Park Daechul, representante do Partido Liberal Coreano, apresentou uma proposta de lei que exige que internautas revelem seus nomes de usuários e endereço de IP – uma designação numérica única, algo como o CPF, que serve para, dentre outras coisas, designar uma localização física – quando postarem em portais como Naver e Daum, portais que, hoje em dia, permitem comentários anônimos.

O representante Park Sunsook, do Partido Bareunmirae, de oposição, apresentou uma proposta de lei que mira nesses portais, exigindo que eles filtrem comentários maliciosos, discriminatórios e de ódio, e que bloqueiem as pessoas que façam esse tipo de comentário.

“AS PLATAFORMAS ONLINE SE TORNARAM UMA LIXEIRA PARA O ÓDIO E AS EMOÇÕES CRUAS DE MUITOS COREANOS. ELES NÃO CONSEGUEM VER O SOFRIMENTO QUE ESTÃO INFLIGINDO COM UM COMENTÁRIO SIMPLES E CURTO”

disse Kwak Geumjoo, professora de psicologia da Universidade Nacional de Seul.

Eles, até mesmo, tem um senso de unidade e de fazer parte de algo porque muitas pessoas fazem esse tipo de comentário“, ela continua. “Eles não se sentem culpados. Na verdade, eles pensam que estão sendo justos e corretos.

Medidas drásticas, com o sistema de nome real para comentários, são necessários para impedir que as pessoas continuem a machucar as outras usando pseudônimos como disfarce, enfatiza a professora.

Porém, o sistema de nome real para comentários foi considerado inconstitucional em 2012. A Corte Constitucional decretou, por unanimidade, que exigir nomes reais para que pessoas possam comentar restringe a liberdade de discurso.

Son Jiwon, advogada da Open Net Korea, questiona o quão efetivo esse sistema poderia ser para evitar o cyberbullying já bastante difundido.

As pessoas que fazem comentários maliciosos não estão preocupadas em revelar sua identidade, se você for prestar atenção nas mídias sociais“, diz. “A ‘trolagem’ online não acontece porque não temos um sistema que exige nomes reais, mas por causa da cultura do ódio da nossa cultura e da pouca consciência sobre os direitos humanos.

Ela ainda afirma que tal medida apenas desencorajaria as pessoas de criticarem os poderosos e sufocaria a opinião das minorais devido ao medo de retaliações.

Apesar dos efeitos colaterais, o anonimato é crucial para aqueles que querem desafiar os sistemas injustos, os poderes políticos e econômicos, e também para as mulheres e minorias sexuais que procuram seus direitos“, ela conclui.

CULTURA MISÓGINA: O PAPEL DA MÍDIA

O que matou Sulli não foi apenas o cyberbullying, mas também a cultura online na qual o discurso de ódio contra mulheres prevalece, assim como o fenômeno midiático conhecido como clickbaiting, dizem os especialistas.

De acordo com uma pesquisa feita com 1200 adultos, conduzida pela Comissão Nacional de Direitos Humanos da Coreia (CNDHC), em março, 64.2% dos respondentes disse que já foram alvo de discurso de ódio. O maior alvo desse discurso foram as pessoas de certa região (74.6%), seguido das mulheres (67.8%) e as minorias sexuais (67.7%).

Os comentários provocativos de Sulli, que não eram esperados de uma idol do k-pop, atraíram mais comentários misóginos e mais criticismo“, Yoon Kim Jiyeon, professora no Instituto de Corpo e Cultura da Universidade Konkuk, disse. “Tais comentários, tipicamente, acusam mulheres famosas de serem vadias e baratas, o que não se aplica aos homens famosos.

Sulli era uma raridade entre as estrelas de k-pop já que expressava vocalmente suas opiniões quanto aos direitos das mulheres, rompendo com a expectativa da indústria de que seus idols devem ficar em silêncio sobre suas vidas privadas  ou assuntos polêmicos, e ficar “puros”, obedientes e sexualmente desejáveis.

Quando Sulli se posicionou, publicamente, a favor do movimento pró-escolha e defendeu sua decisão de não usar sutiãs, ela automaticamente se tornou o alvo dos comentários misóginos anônimos.

Deveriam haver alguns padrões para o que constitui ódio e misoginia, para o que deve ser banido, e apresentar leis que possam regular isso“, diz Yoon.

Por enquanto, a Coreia não tem leis que banam comentários discriminatórios ou extremamente provocativos em público.

A CNDHC recebe reclamações e investiga quando atos discriminatórios acontecem, mas não tem nenhuma força legal.

Diversos projetos de lei anti-discriminação, visando erradicar a intolerância com relação a gênero, deficiência ou raça já fora apresentadas na Assembleia Nacional, desde 2007, mas eles nunca são aprovados pelo parlamento graças à uma forte resistência.

Yoon também aponta que a indústria do entretenimento, que comercializa a sexualidade das idols e o frenesi midiático que induz os comentários de ódio, devem ser tratados de forma conjunta.

OS RUMORES SEM FUNDAMENTO QUE  PERSEGUIAM SULLI, GERALMENTE ERAM ENCONTRADOS E ESPALHADOS PELA MÍDIA. QUANDO UMA CONTROVÉRSIA SURGIA, A MÍDIA CORRIA PARA NOTICIAR E ABRIA, ASSIM, ESPAÇO PARA MAIS COMENTÁRIOS DE ÓDIO – E GERAVA MAIS ENGAJAMENTO.

A mídia teve o papel de criar um ciclo de criação e amplificação de fofocas, preconceitos e comentários maliciosos“, diz Choi Jinbong, professor de meios de comunicação da Universidade Sungkonghoe.

Enquanto a liberdade de imprensa deve ser preservada, os meios de comunicação deveriam estabelecer um sistema próprio para monitorar e filtrar as fofocas e conteúdos provocativos“, conclui.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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