Repleto de nomes, datas e regras não escritas, aspectos únicos da cultura coreana de namoro, como sogaeting (encontros às cegas) ou sseom (talking stage), são muito diferentes da cultura ocidental. O “talking stage” não tem uma tradução para o português, mas basicamente significa o período antes do início de um relacionamento, em que as pessoas passam tempo se conhecendo.

Ao ouvir as experiências de um amigo meu, pensei que namorar na Coreia não deve ser  muito divertido. Eu me perguntei por que todos os aspectos pareciam tão estruturados e padronizados: tudo é planejado, desde como as pessoas se conhecem até quando começam a namorar.

Eu abordei o assunto com minha professora, Irene Yung Park, do departamento de cultura e literatura comparada da Universidade Yonsei, e ela confirmou que não era tudo coisa da minha cabeça.

Park explicou que “namoro” é um conceito social relativamente novo na Coréia, que se expandiu na década de 1960 com a estrutura familiar afetiva. A família afetiva é o conceito moderno de família de hoje, onde o amor é uma condição prévia ao casamento. Antes de sua introdução, o modelo de família confucionista, onde o casamento era um meio de garantir a estabilidade social e econômica, era padrão.

“Se você quer se casar por amor, precisa conhecer alguém, conhecê-lo e se apaixonar. O namoro é resultado direto da introdução da família afetiva”, comentou Park. Devido à introdução relativamente recente dessa cultura, as práticas de namoro na sociedade coreana foram criadas, principalmente, por necessidade social, em vez de normas pré-existentes.

Além de ser um conceito relativamente novo, eu ainda não consegui entender por que conhecer alguém com quem você pode namorar é uma prática tão sistematizada. Ao contrário do Ocidente, marcar seu amigo com alguém que você ache compatível com ele e que ele pode vir a gostar é costume quando se encontra um parceiro em potencial na Coreia. E, enquanto alguns dos meus amigos coreanos preferem jamanchu (conhecer pessoas naturalmente), a maioria dos casais que conheço se conheceram através de sogaeting, o inmanchu (conhecer pessoas através de encontros às cegas).

As regras ocultas e a estrutura do namoro coreano
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Park não ficou surpresa: “A forma como a sociedade e a socialização funcionam torna desafiador encontrar um parceiro naturalmente, após a faculdade. Uma situação em que duas pessoas podem se conhecer lentamente raramente se desenrola, a menos que você a crie”, disse ela.

A sociedade coreana ainda está fortemente dividida por idade e gênero, apesar da mudança de dinâmica. Em comparação com outras nações, as mulheres tendem a socializar mais com as mulheres e os homens mais com os homens. A divisão de gênero cria poucas oportunidades para encontros espontâneos, cultivando uma cultura de namoro mais padronizada.

Outro aspecto intrigante do namoro coreano é o sseom. A primeira vez que alguém me perguntou se eu estava “em um sseom”, isso me surpreendeu, e tudo o que fiz foi rir nervosamente. Parece mais normal agora, pois entendo que seja semelhante ao “talking stage” do Ocidente, com algumas diferenças importantes.

Por um lado, sseom dura apenas cerca de um mês; se exceder isso, eles seriam considerados como arrastando a situação – uma gafe na sociedade mais conservadora da Coreia. Embora seja costume apenas “conversar” com a pessoa com quem você está em um encontro, depois do terceiro, é a etiqueta começar oficialmente a ser exclusiva(o) de alguém – o que eu entendi como a “regra dos três encontros”. Terminando o sseom, você pode se conhecer mais de perto enquanto estiver em um relacionamento.

“No [Ocidente], as pessoas geralmente se encontram com um parceiro em potencial casualmente, depois saem juntas e se conhecem sem nenhum compromisso. Você vai a encontros para discernir se gosta deles ou não”, explicou Park. “Na Coreia, o passo em que você se torna um casal é muito mais abrupto.”

O período relativamente curto do sseom pode estar relacionado à sua novidade dentro da estrutura social coreana. Como um estágio de transição em que dois indivíduos não são um casal, mas também não são apenas amigos, sseom é um status quase indefinido e é difícil de classificar socialmente. Sem essa classificação adequada, a sociedade tende a rejeitar sua posição como uma fase nas relações.

Perguntei a Park de onde vinham todas essas estruturas implícitas. Surpreendentemente, ela disse que dramas e filmes tiveram um papel influente na criação de hábitos de namoro. Aspectos imediatos da cultura do namoro, como looks de casal ou a famosa frase “hoje é o nosso primeiro dia”, são muitas vezes transmitidos às pessoas pela mídia.

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“Como a Coreia é uma sociedade coletivista, as tendências sociais se propagam muito rapidamente, o que pode não acontecer em sociedades mais individualistas”, explica Park.

Ela deu o exemplo de usar uniformes escolares. Em 2001, o filme coreano “My Sassy Girl” introduziu uma tendência, onde o casal principal vai a uma boate vestido com uniforme do ensino médio. A tendência pegou, e agora é comum ver jovens adultos vestidos com uniformes do ensino médio em parques temáticos ou outros locais e até lojas para alugar as roupas.

* Texto orginalmente escrito por Laura Senior Primo, studente-reporter do Korea Joong Ang Daily.

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