Cozinhar para a família é algo natural para muitas mulheres sul-coreanas, porém, poucas demonstram seu talento culinário em cozinhas profissionais. Entre os 24 restaurantes premiados com estrelas pela cozinha de alta qualidade do Guia Michelin 2018, apenas três eram liderados por mulheres.

O evolução acentua os desafios encarados por muitas chefs, assim como muitas desistem no meio de suas carreiras por causa do casamento, nascimento e criação dos filhos.

“Vi muitas companheiras chefs talentosas desistirem da profissão devido à dificuldade de equilibrar o trabalho com a criação dos filhos,” disse Ha Jin-ok, chef do Haevichi Hotel e Resort da ilha de Jeju, no sul do país.

“Esta é a parte em que não podemos resolver por conta própria,” disse a profissional de 48 anos, adicionando que seu marido é ativo na divisão do trabalho de casa.

Ela foi testada para liderar o fino restaurante coreano Hanoru, no hotel premium em 2017, depois de 25 anos de trabalho em hotéis de primeira linha na ilha turística mais popular do país.

Chefs de restaurantes com estrelas Michelin na edição do guia 2018, evento realizado em 8 de Nov, 2017 em Seul. (imagem: Yonhap)
Chefs de restaurantes com estrelas Michelin na edição do Guia 2018, evento realizado em 8/11/2017 em Seul. (Imagem: Yonhap)

Entre 78 chefs do hotel Haevichi, apenas 21 (ou 27%) são mulheres. Ha é uma das poucas chefs a conseguir quebrar o telhado de vidro da cena gastronômica do país.

Prometi a mim mesma que faria o meu melhor, pensando no quanto minha performance poderia gerar mais oportunidades para chefs mulheres,” disse Ha Jin-ok, ao se lembrar de quando lhe ofereceram a posição de líder no restaurante.

As mulheres sul-coreanas têm visto sua influência crescer dramaticamente ao longo das últimas décadas, visto que mais mulheres receberam uma educação universitária e fizeram sua subida na escada corporativa.

Porém, poucas chefs mulheres conseguiram reconhecimento nas cozinhas profissionais.

Especialistas falam do quão fisicamente desafiador é trabalhar em uma cozinha, pois os chefs lidam com fogo, facas, entregam ingredientes pesados enquanto trabalham em pé por horas a fio. Em sua análise, tais funções poderiam afastar potenciais colegas mulheres.

Ha Jin-ok (Imagem: Yonhap)
Ha Jin-ok (Imagem: Yonhap)

Quando as situações são ruins, trabalhamos mais de 15 horas por dia, seis dias por semana, com um ambiente de trabalho que poderia ser muito pesado para as mulheres,” disse Jeong Han-sol, cozinheiro de um bar-restaurante local.

O funcionário de 24 anos afirma que nunca esteve sob a liderança de uma chef mulher durante quase uma década de trabalho, em mais de uma dúzia de restaurantes.

Muitas chefs mulheres admitem a diferença de força física como um dos primeiros obstáculos a serem superados.

No entanto, também existem vozes enfatizando o quanto este fenômeno é apenas outro reflexo dos obstáculos persistentes que as mulheres sul-coreanas enfrentam em uma sociedade onde as posições de chefia são amplamente dominadas por homens.

“Limitações físicas existem, mas agora sei como mover ingredientes várias vezes caso não possa movê-los de uma só vez e uso uma cadeira caso alguma ferramenta está fora do meu alcance,” disse Ahn Soo-hyun, chef do Grand Intercontinental Parnas de Seul. “Não é nada de mais.”

Ahn Soo-hyun (Imagem: Yonhap)
Ahn Soo-hyun (Imagem: Yonhap)

Ahn, de 22 anos foi uma das quatro ganhadoras em um concurso de culinária realizado entre chefs menores de 30 anos no Grand Intercontinental Parnas de Seul e Intercontinental Coex de Seul recentemente.

O operador do hotel disse que três dos quatro vencedores eram mulheres. Apenas 72 dos 296 cozinheiros das duas redes são mulheres.

A jovem ganhadora do prêmio com o seu consomé de pasta de soja com ravioli e mariscos à bolsa-de-pastor, espera maior cobertura da mídia em relação às mulheres na indústria culinária.

“Há muitas mulheres carismáticas cozinhando tão bem quanto os homens,” Ahn disse, apontando os programas de televisão que acompanham apenas chefs masculinos.

Lee Song-hee (Imagem: Yonhap)
Lee Song-hee (Imagem: Yonhap)

A chef Lee Song-hee, de 39 anos demonstra grande liderança, comandando três restaurantes e uma start up culinária ao mesmo tempo.

“Quando abri meus restaurantes treze anos atrás, chefs homens recusaram a oferta de se juntar ao time sabendo que eu, uma mulher em seus 20 anos na época, era a chefe proprietária”, disse Lee.

Chefs juniores me dizem frequentemente como ainda existem restaurantes com a conhecida ‘cultura de macho’, e até com incidentes de assédio sexual.” “No nosso caso, não temos nada a esconder de nossa cozinha, do saneamento à nossa cultura e performance,” Lee Song-Hee adiciona, explicando a razão das cozinhas de seus restaurantes serem em conceito aberto.

A taxa de emprego das mulheres sul-coreanas estava em 50,2% em 2016, comparadas com 71,1% para os homens, de acordo com o Coreia Estatísticas (SK).

A Coreia do Sul segue tomando uma série de medidas visando proporcionar o retorno das mães donas de casa ao mercado de trabalho, para aumentar a participação feminina. Porém, os especialistas apontam o fato de empresas pequenas, como os restaurantes, serem muitas vezes um ponto cego.

“Não há muitos casos de trabalhadoras nas pequenas empresas entrarem em licença maternidade,” disse Bae Jin-kyung, um co-representante da Associação de Mulheres Trabalhadoras da Coreia (KWWA). “Eles são obrigadas a ir embora, sem pausa.”

“Considerando o ambiente de trabalho hostil, longas horas de trabalho e pagamento baixo, não é surpresa que muitas optam por não retornar após saírem dos restaurantes, em uma sociedade onde as tarefas domésticas são em grande parte voltadas para as mulheres,” disse Bae.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome.