A sala de cirurgia está preenchida com tensão. Rodeado de assistentes e enfermeiros, o cirurgião segura o bisturi e abre o paciente, sob a luz da lâmpada cirúrgica acima.

Médicos lutam para salvar vidas, mas cirurgiões são chamados de “médicos dos médicos”, já que ficam na linha de frente contra a morte. Muitas vezes, são “objeto” de admiração.

Mas a realidade do trabalho – com suas condições de trabalho pobres e futuro incerto – tornou o departamento de cirurgia um dos menos populares na Coreia.

Quando entramos na faculdade de medicina, eu vi muitos dizendo que gostariam de ser cirurgiões. Mas, agora que estamos nos formando, eu sou um dos poucos que ainda quer isso“, diz Kim Hyunjoon, estudante da Inje University College of Medicine.

A universidade fez uma pesquisa para saber qual ramo os alunos gostariam de seguir. Poucos escolheram cirurgia, diz Kim. Segundo ele, a situação parece ser parecida em outras universidades.

Todos os anos, os departamentos de cirurgia não preenchem as vagas dos programas de residencia. Em 2018, o departamento de neurocirurgia de hospitais em toda Coreia preencheu 93,4% das vagas ofertadas. Em outros departamentos os números são menores: 77% no departamento de obstetrícia; 69% no de cirurgia geral; e 52% no de cirurgia cardio-torácica, de acordo com a associação de cirurgiões.

Diferentemente, os departamento de dermatologia e cirurgia plástica preencheram todas as vagas.

Considerando a taxa de queda de interesse, a Coreia pode ter que “importar” cirurgiões no futuro, estima um oficial da Sociedade Coreana de Cirurgia Torácica e Cardiovascular.

De acordo com a associação, em 2022 faltarão cerca de 400 cirurgiões na Coreia.

SACRIFICANDO A VIDA PELA VIDA

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Foto: ID Hospital

Algumas das razões para essa queda são as condições difíceis de trabalho e a baixa compensação.

Somos colocados sob stress extremo e a carga de trabalho é pesada. Como todos nossos pacientes precisam de cuidado intensivo após a operação, nós sempre trabalhamos a noite“, diz Oh Taeyoon, presidente da Sociedade Coreana de Cirurgia Torácica e Cardiovascular.

Os preços das operações são baixos, então os departamentos sofrem com déficit financeiro. E também faltam cirurgiões. Então, um único cirurgião tem que fazer várias cirurgias em apenas um dia. Cada uma durando horas“, ele continua.

Passar algum tempo com a família ou tirar folgas são coisas inimagináveis. Como cirurgiões estão envolvidos em procedimentos de alto risco, eles também enfrentam disputas legais,  explica Oh.

 A quantidade de horas trabalhadas por um cirurgião normalmente ultrapassa o limite legal de 80h por semana estabelecida para a categoria. De acordo com a Sociedade Coreana de Neurocirurgia, mais de 98% dos residentes de cirurgia dizem ter trabalhado mais do que 80h por semana em 2017. A média foi de 104h.

Um cirurgião torácico abriu uma petição no site presidencial, em abril de 2018. Ele reclama da falta de “tempo para si mesmo”. “Eu amo meu trabalho. Mas, seria impossível que os cirurgiões pudessem ter sua vida e família enquanto, com felicidade, fazem seu trabalho?” diz ele na petição.

FUTURO INCERTO

Mesmo operações curtas demandam vários cirurgiões bem preparados, equipamentos médicos caros e uma boa equipe de apoio. Apesar dos grandes custos para se preparar para uma cirurgia, os cirurgiões não ganham o suficiente, diz a organização.

Por exemplo, o hospital recebe cerca de 1 milhão de won por uma apendicectomia. 280 mil won vão para a equipe (enfermeiros, anestesistas, cirurgião…) e o resto cobre injeções e a hospitalização, diz Jeong Youngjin, presidente da Associação Coreana de Cirurgiões.

No fim, um radiologista ganha o dobro de um cirurgião“, diz Jeong. “Apenas para drenar pus, nós precisamos de equipamentos esterilizados e de anestesia local. Disso, o hospital recebe 12 mil won. Tratar um paciente com gripe traz, praticamente, o mesmo valor.

Apesar da significância do trabalho, e do sentimento de dever cumprido dos médicos, a percepção social de que eles devem fazer sacrifícios sem compensação alguma afasta novos médicos. E mesmo que passem anos se preparando, os cirurgiões não têm carreira garantida, porque os hospitais não têm fundos para os contratar efetivamente.

Contratados como temporários, os cirurgiões tem salário, relativamente baixo e poucos benefícios, apesar de trabalharem longas horas. Por isso, poucos se mantém na carreira.

Como resultado, existem muitas vagas – no ramo da cirurgia cardíaca, existem 210 vagas disponíveis, de acordo com a estimativa de 2018 feita pela Sociedade Coreana de Cirurgia Torácica e Cardiovascular.

Nem todos podem ser contratados como professores em hospitais-escolas. E o resto dos cirurgiões que completam a residencia não tem para onde ir“, diz Kim. “Se você for passar por uma grande cirurgia, gostaria de ser operado em um grande hospital ou em um hospital-escola?

Diferentemente de outras especialidades médicas, é difícil para os cirurgiões abrirem um consultório, por exemplo, diz Kim. Também é difícil arcar com o gasto de abrir um hospital com equipamentos caros e um time de cirurgiões.

Bons cirurgiões, que desejam continuar na posição, têm que ir para outro departamento ou abrir uma clínica de protologia.” Isso acontece porque, em partes, é mais fácil ter uma pequena clínica de protologia, ou outra especialidade, do que de cirurgia. Quando isso acontece, cirurgiões ficam presos no sistema.

Kim, que saiu do curso de farmácia para o de medicina, no terceiro ano, visando se tornar um cirurgião, disse que também se preocupa com sua escolha.

NÃO CIRURGIÕES OCUPANDO OS ESPAÇOS

Em novembro, o Ministério do Bem-estar apresentou o Ato de Melhora das Condições de Treinamento e Status dos Médicos Residentes, num esforço de prevenir que residentes trabalhem além do limite de 88h por semana – é permitido um adicional de 8h de treinamento, além as 80h de serviço.

Apesar dos esforços, os médicos temem que, graças às restrições financeiras, isso não leve a uma contratação de mais cirurgiões qualificados. Alguns acreditam que os hospitais possam contratar assistentes no lugar.

Os assistentes são enfermeiros e outros tipos de pessoas envolvidas na área médica e que não podem, perante a lei, realizar procedimentos cirúrgicos. Mas, é um “segredo não tão secreto” que hospitais acabam contratando os assistentes por conta do financeiro.

Eu não acho que exista um hospital que não contrate os assistentes. É impossível ter um departamento cirúrgico sem eles“, diz Jeong.

Oh, membro da Sociedade Coreana de Cirurgia Torácica e Cardiovascular, por outro lado, expressa esperança. “A situação está melhorando um pouco. No departamento torácico, nós vemos uma melhora nas taxas de inscrição para residência. Porque muitos dos professores devem se aposentar logo.”


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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