A cultura da maratona corporativa de dias de trabalho intermináveis está prejudicando a sociedade coreana.

Chung, de 38 anos, que escolheu ser identificada apenas pelo seu sobrenome, deixou seu emprego como enfermeira sênior em um hospital de Seul, onde trabalhou por oito anos, no ano passado. Ela agora trabalha em um hospital militar nos EUA em Pyeongtaek, cerca de 70 km ao sul da capital, Washington. Embora seu salário seja cerca de dois terços do que era na Coreia, Chung diz não ter remorsos.

“Quando eu trabalhava no hospital em Seul, recebia tarefas extras após concluir o meu turno de oito horas. Eu costumava fazer 12 horas por dia e tinha que ir ao escritório nos fins de semana para terminar meu trabalho”.

A multidão que se forma perto da saída de uma estação de metro de Seoul na hora de pico, em Novembro
A multidão que se forma perto da saída de uma estação de metro de Seoul na hora de pico, em Novembro

Chung disse que havia se tornado estressada e irritadiça. Quando a tensão finalmente se tornou demais, ela saiu. Em seu novo emprego, ela disse, todo mundo deixa o trabalho assim que seu turno acaba. “Estou feliz por não ter que trazer meu trabalho para casa comigo.”

Sua história é muito comum na Coreia do Sul. Pegue o diretor do Woori Bank como exemplo, que está em sua mesa às 6 da manhã e não sai até às 10 da noite, ou o executivo da Samsung que leva seu celular para o chuveiro para não perder uma eventual chamada de seu chefe.

De acordo com dados da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), os sul-coreanos trabalharam em média 2.124 horas em 2014, o terceiro maior período de trabalho entre os 39 países membros, atrás apenas da Costa Rica e do México. No Japão, por comparação, a média foi muito menor: 1.729 horas, enquanto a média da OECD foi de 1.766 horas.

Por que os coreanos estão trabalhando mais que quase todos os outros?

A movimentada área de negócios de Gwanghwamun em Seul: longas horas de trabalho são simplesmente um modo de vida para muitos sul-coreanos.
A movimentada área de negócios de Gwanghwamun em Seul: longas horas de trabalho são simplesmente um modo de vida para muitos sul-coreanos.

Dainn Wie, professora associada do Instituto Nacional de Pós-Graduação em Estudos Políticos de Tóquio, ofereceu três razões.

A primeira, disse ela, é que os trabalhadores não têm voz. “As empresas geralmente têm muito poder”, disse Wie. “Os trabalhadores contratados não podem exigir nada de seus empregadores. Outra razão é a estrutura salarial que torna os trabalhadores vulneráveis a longas horas. O salário é tão baixo, que a única maneira de ganhar mais é fazendo horas extras. Muitos deles são trabalhadores atados a contratos”, completou ela.

De acordo com o Ministério do Emprego e do Trabalho, a média de empregados sob contratos trabalhava 9,6 horas por mês em 2015, contra 7,6 horas dos trabalhadores assalariados.

A terceira razão, de acordo com Wie, é uma cultura corporativa onde os funcionários seniores veem maratonas de dias de trabalho como algo natural. Em tal ambiente, os colegas juniores sentem a pressão para permanecer no escritório por muito mais tempo.

Chung, a enfermeira, está vivenciando as diferenças culturais na prática. “No hospital coreano, eu trabalhava como uma máquina”, disse ela. “Mas, no hospital americano, posso mudar minhas horas ou turnos falando com meus colegas, e acho que é por causa de uma diferença nas culturas, não algo específico do local de trabalho”.

Lee Jung-min, professor de economia da Universidade Nacional de Seul, disse que essa abordagem de períodos longos de trabalho já não é sustentável. O governo e as empresas precisam promover ambientes de trabalho mais abertos e inovadores, disse Lee.

“Devemos mudar nosso velho hábito de horas extras”, disse o professor. “Temos de permitir que jovens funcionários expressem sua criatividade em locais de trabalho abertos e livres”.

Taxa de fertilidade de acordo com os dados da OECD
Taxa de fertilidade de acordo com os dados da OECD

Estudiosos dizem que longas horas de trabalho resultam em uma maior incidência de acidentes e lesões no local de trabalho. Isso também têm implicações negativas mais amplas para a sociedade em geral.

A taxa de fertilidade da Coreia do Sul foi de 1,2 nascimentos por mulher em 2014, a menor da OCDE, cujos membros ficaram ao redor de uma média de 1,7, e logo abaixo do Japão, com 1,4.

Longas horas no escritório significa que as pessoas têm menos tempo para ter filhos. “As mulheres fazem menos de horas que os homens no local de trabalho, mas se você adicionar trabalho doméstico elas trabalham muito mais horas do que os homens. Elas não têm tempo para ter filhos”, disse Wie.

A baixa taxa de fertilidade pode ser preocupante, mas há um problema muito mais sombrio: o suicídio. A Coreia do Sul teve a maior taxa de suicídio na OCDE, atrás apenas da Lituânia, em 2013, com 28,7 por 100.000 pessoas. O Japão foi o terceiro, com 18,7, enquanto os Estados Unidos foi o 12º, com 13,1.

Taxa de suicídios nos países de acordo com a OECD
Taxa de suicídios nos países de acordo com a OECD

Embora nenhuma correlação direta tenha sido provada entre horas de trabalho mais longas e as taxas de suicídio mais altas, as pesquisas mostram claramente que as horas extras afetam negativamente os níveis de satisfação de vida das pessoas.

Lee, o professor de economia, disse que a má comunicação dentro das empresas sul-coreanas é em parte responsável pelas longas horas. “Muitos funcionários gastam tempo apenas esperando que seus patrões assinem algo para eles”, disse Lee. “Se eles puderem cortar tais etapas, ou acelerar o processo, eu tenho certeza que eles poderiam voltar para casa mais cedo.”

Há sinais de mudança, no entanto.

Por exemplo, a Bori Publishing, editora de livros infantis em Paju, ao norte de Seul, adotou seis horas de trabalho diárias em 2012 para que os funcionários pudessem ter mais tempo livre.

“Os dias de seis horas são ótimos, tenho mais tempo para mim e é mais fácil utilizar os serviços do governo quando preciso”, disse Kim Nuri, um editor que está na Bori desde 2010. “Dá pra evitar o horário de pico e passar mais tempo com nossos filhos. Alguns funcionários estão aprendendo línguas estrangeiras depois do trabalho”.

A empresa liberou o tempo cortando a pausa do chá da tarde e reuniões desnecessárias. Os funcionários da Bori dizem que tanto a gestão quanto os funcionários estão felizes com o sistema.


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