Uma cena exótica criada pela mistura da cultura coreana com a chinesa, se desenrola na saída 12 da estação Daerim, nas linhas de metrô nº 2 e 7 no Sudoeste de Seul.

Grandes restaurantes com letreiros coloridos escritos em chinês vendem hot pot [prato chinês que lembra fondue] e espetos de cordeiro – pratos que se tornaram cada vez mais populares entre os coreanos nos últimos anos. Pequenas lojas enchem suas prateleiras com condimentos chineses, itens básicos de despensa e lanches.

As pessoas na rua falam mandarim, coreano ou coreano com o dialeto de Yanbian, que tem a maior população étnica coreana na China.

Muitas vezes apelidado como uma pequena Chinatown em Seul, este bairro conta uma história sobre a complexa relação entre residentes coreanos e chineses de ascendência coreana.

Daerim, um centro da cultura coreana chinesa com esperanças de mudar a imagem negativa
Pessoas compram pão fresco e bolo de arroz no Daerim Central Market em Yeongdeungpo-gu, Seul. Foto: The Korea Herald

Caminhando pela rua repleta de lojas, surge a entrada do Mercado Central de Daerim. Uma grande variedade de comidas de rua, de massa frita a vários tipos de tofu, estão disponíveis por um preço entre 1.000 won (US$ 0,83) e 2.000 won. O durian [fruta exótica, parecida com a jaca], fruta do sudeste asiático, que não é comumente vendido em lojas coreanas, pode ser facilmente encontrado no mercado.

Zheng Yue, 35, uma intérprete que veio da província mais ao norte da China, Heilongjiang, diz que visitar Daerim é como voltar para casa.

Daerim-dong é muito semelhante a uma rua da China. Sinto-me entre amigos lá, porque é o único lugar em que posso falar livremente em mandarim”, disse ela. Lojas de macarrão artesanal, restaurantes de culinária de Sichuan e mercearias são curas para a saudade, disse ela.

Kim Gwang-yong, que se naturalizou como cidadão coreano em 2006, administra uma padaria no mercado, vendendo pães e donuts chineses cozidos no vapor. Ele nunca  aumentou o preço de um rolo mandarim de 500 won desde que abriu a loja em 2013.

Ainda há muita gente procurando emprego de diarista entre os clientes que vêm à loja. Eu quero que eles comam com vontade, mesmo que não consigam encontrar um lugar para trabalhar durante o dia”, disse ele. “Você não pode comprar bebida com 500 won, mas pode comprar um pãozinho.”

Antes de Daerim se tornar um importante enclave chinês, lar das maiores populações coreanas-chinesas e chinesas do país, a vizinha Garibong-dong era o lugar onde muitos imigrantes chineses se estabeleceram no início dos anos 90.

Na época, a Coreia importava trabalhadores estrangeiros, a maioria dos quais eram chineses coreanos. Esses trabalhadores eram principalmente da população desempregada que surgiu durante a transição pós-socialista da China, de acordo com Park Woo, professor assistente de artes liberais da Universidade de Hansung que conduziu estudos de observação participante sobre a comunidade chinesa na Coreia por mais de 10 anos.

Imigrantes que vieram para a Coreia em busca de trabalho se reuniram e viveram em Garibong, a 15 minutos de carro de Daerim, porque o distrito estava localizado ao lado do Complexo Industrial de Guro, que estava no centro do rápido crescimento econômico da Coreia. O bairro oferecia oportunidades de trabalho para estrangeiros e aluguéis baratos.

Quando Garibong foi designada para área de redesenvolvimento em 2003, as pessoas começaram a se mudar para Daerim.

Atualmente, um total de 10.324 chineses e coreanos chineses vivem em Daerim, aproximadamente um quarto da população total da área.

No entanto, entre a maior população de Seul, Daerim é visto como um lugar que a maioria das pessoas não deseja visitar.

Estou curiosa sobre a comida chinesa que eles servem. Mas estou preocupada com questões de segurança por lá – me parece um pouco assustador, honestamente”, disse uma dona de casa de 56 anos que não quis ser identificada.

As áreas que têm acesso conveniente ao transporte público com duas linhas de metrô normalmente têm preços de imóveis altos, mas o preço médio de um apartamento na área, no entanto, é muito menor em comparação com outros distritos de Seul devido à baixa demanda.

Daerim é conhecido em todo o país por seu papel no filme de comédia de ação coreano “Midnight Runners” (2017), estrelado por Park Seo-joon e Kang Ha-neul. No filme, o bairro foi usado para construção do personagem do vilão.

Daerim, um centro da cultura coreana chinesa com esperanças de mudar a imagem negativa
Foto: My Drama List

Outros filmes, como “The Yellow Sea” (2010) e “The Outlaws” (2017), também lançaram luz sobre o lado sombrio das gangues criminosas compostas por chineses coreanos.

Midnight Runners” retratava a violência na cidade com cenas gráficas e a frase: “Há muitos chineses aqui, então muitas vezes há ataques de faca à noite”.

A produtora do filme de sucesso, que vendeu cerca de 5,6 milhões de ingressos, recebeu uma recomendação judicial para pedir desculpas à comunidade coreana chinesa em 2020, depois que 62 chineses coreanos entraram com uma ação contra a empresa por uma indenização.

Mas a decisão do tribunal não impediu que o sentimento anti-chinês coreano continuasse a existir. E ele reacendeu ainda mais depois que um esfaqueamento ocorreu em Daerim em 2021. Um chinês coreano de 50 anos, que esfaqueou uma mulher e seu namorado até a morte, foi condenado à prisão perpétua. As vítimas também eram chineses coreanos.

Residentes estrangeiros e locais montaram em conjunto uma equipe de patrulhamento e uma campanha antiviolência para o bairro se tornar mais seguro.

Mas o povo chinês realmente comete mais crimes do que outros residentes estrangeiros?

O número de estrangeiros que cometeram crimes foi de 35.390, ou 2,4% de um total de 1.494.421 criminosos, em 2020, segundo a Agência Nacional de Polícia da Coreia.

Daerim, um centro da cultura coreana chinesa com esperanças de mudar a imagem negativa
Vegetais e condimentos chineses são exibidos no Daerim Central Market em Yeongdeungpo-gu, Seul. (The Korea Herald)

Destes, os cidadãos chineses representaram 48%, ou 17.116. O número está quase no mesmo nível da proporção da população chinesa que vive no país – 44%.

Um relatório divulgado pelo Instituto de Criminologia da Coreia mostra que houve 197 crimes cometidos por estrangeiros em Daerim, de 1.225 casos ocorridos de julho de 2018 a junho de 2019. Exceto assassinato, as taxas de outros tipos de crimes cometidos por cidadãos coreanos foram maiores.

Parece que características heterogêneas, como a tendência de usar uma arma ao praticar violência, levaram a uma percepção de risco relacionada a crimes cometidos por estrangeiros”, disse o relatório.

A discriminação crônica contra trabalhadores de colarinho azul e o ódio contra pessoas de Yanbian contribuíram para uma perspectiva geral sarcástica sobre Daerim, disse Park, professor da Universidade Hansung.

Como esses colegas coreanos são vistos como trabalhadores estrangeiros dentro de uma sociedade que já tem um sentimento de ódio em relação a eles a muito tempo, acho que a visão atual sobre Daerim não é desencadeada apenas pelo povo chinês coreano”, acrescentou.

Daerim faz parte de Seul, é uma comunidade que foi construída em conjunto por indígenas coreanos e imigrantes coreanos, bem como desertores norte-coreanos e migrantes de várias etnias.

Pak Noja, acadêmico coreano nascido na Rússia e professor da Universidade de Oslo, na Noruega, apontou que os coreanos tendem a discriminar a linguagem e os comportamentos diários dos chineses coreanos que são considerados diferentes do “padrão” coreano.

Fumar e cantar alto, que são vistos principalmente como símbolos da classe trabalhadora de baixos salários, também são objeto de desprezo.

Os problemas crônicos da sociedade coreana, como a ausência de uma atitude de aceitação da ‘diferença’ e um padrão de discriminação de classe, são o que produz sentimentos de ódio para os coreanos“, disse ele em uma coluna publicada em abril passado no jornal diário Hankyoreh.

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