Em uma rua estreita de Seul, mestres relojoeiros carregam o legado de uma arte antiga e cada vez mais difícil de se encontrar.


“Relógios caros e extravagantes chamam a atenção de muita gente hoje em dia, mas às vezes olhar para uma peça simples, mas clássica, pode ser uma experiência tão encantadora quanto”, disse Yoon Hyung-sik, um colecionador de relógios antigos e frequentador assíduo de uma certa área do Yeji-dong, um beco estreito composto por oficinas de relojoeiros e boutiques vintage.

Yoon disse que é fascinado pelas cores, história e individualidade de relógios antigos, que estes fatores lhes trazem nostalgia. “Eles me lembram de quando tinha meus 20, 30 anos, é uma sensação boa. Está tudo associado a memórias que são importantes para mim. As tendências vêm e vão, mas eu não consigo evitar um sorriso quando um modelo clássico é renovado.”

Muitas pessoas na Coreia, como Yoon, ainda apreciam seus relógios mecânicos. Mas consertá-los pode se tornar mais difícil nos próximos anos: a velha geração de relojoeiros, habilidosa em reparos, está se aposentando. E poucos das gerações mais novas estão tomando seus lugares.

E mais, muitos deixaram o beco desde que ele foi marcado para revitalização em 2006. O projeto de desenvolvimento urbano do Distrito 4 de Seun vai acabar com o Yeji-dong atual, uma vizinhança densa em Jongno-gu com construções baixas e ruas estreitas. O distrito é, tradicionalmente, uma área de baixa renda que sempre esteve à frente das indústrias de eletrônicos, joalheria e relojoaria do país.

Mesmo assim, relojoeiros com mais de 30 anos de experiência reparando relógios antigos ainda trabalham arduamente para manter seu legado.

A arte da relojoaria

Park Jong-hyun, de 73 anos, abriu sua loja “Youngsinsa” no Yeji-dong em 1986, e desde então vêm mantendo a arte da relojoaria viva.

Após perder os pais durante a Guerra da Coreia de 1950 a 53, mudou-se para Seul em 1962. “Eu trabalhei como agricultor, mas depois comecei como aprendiz na oficina de um relojoeiro,” disse Park. Algumas indústrias tiveram um rápido crescimento nos anos 60, como a eletrônica, têxtil e a de relógios. Park acidentalmente entrou no negócio da relojoaria.

Assim, Park tornou-se um dos poucos mestres relojoeiros do país, uma carreira que ele iniciou aos 17 anos.

Park Jong-hyun examinando um relógio. Foto: Shim Hyun-chul / Korea Times
Park Jong-hyun examinando um relógio. Foto: Shim Hyun-chul / Korea Times

Antes de abrir a própria loja, Park trabalhou 7 anos no departamento de reparos de relógios de uma empresa chamada “Hwanshin”.

“Quando cheguei aqui, o mercado da relojoaria estava em declínio pelo crescimento dos relógios digitais e displays de LED. Mas eu tinha confiança na minha técnica, que vai desde a simples troca de baterias até a completa reestruturação de um relógio,” ele afirmou.

Sua verdadeira paixão são relógios de quartzo, tanto analógicos quanto digitais. “Peças assim são lindas para se trabalhar. Geralmente eles são heranças, algo especial que você dá para seu cônjuge, herda de seus pais, e todos eles precisam de reparos”, disse Park. “Eu gosto de qualquer peça mecânica, mas não conserto relógios de parede.”

Lee Hyang-sook, 60, é uma cliente habitual da Youngsinsa. Ela pediu para que Park trocasse as baterias de sete relógios de pulso de sua família. “Eu venho a este lugar desde o começo dos anos 90, quando eu era recém-casada,” ela disse. “Minhas filhas adoram usar relógios como acessórios de moda, e elas têm vários de diferentes estilos e tamanhos. Pedi para elas me darem todos os relógios quebrados antes de vir para cá.”

Enquanto trocava as baterias dos relógios de Lee, Park contou sobre sua lembrança mais marcante, quando trabalhou em um relógio de ouro gravado com o rosto de Kim Ku. Ele era o presidente do Governo Provisório da Coreia, que foi estabelecido na China depois do Movimento de 1° de Março em 1919. “O homem que trouxe o relógio disse que ele pertenceu ao Chang Taek-sang,” ele lembrou. Chang foi um ativista da independência, o primeiro Ministro das Relações Exteriores no fim dos anos 40, e o terceiro Primeiro Ministro nos anos 50. Park disse que relógios com a assinatura de presidentes são muito comuns, mas não com gravuras do rosto, como este de Kim Ku.

Quando perguntado se pretendia transmitir suas técnicas para a próxima geração, ele recusou na hora, dizendo que as pessoas jovens deviam procurar trabalhos mais rentáveis.

“Conserto de relógios não é algo que dá muito dinheiro. E também é muito trabalhoso, então não recomendo para ninguém.”

Apesar da idade, Park não tem planos de se aposentar, mas pode reconsiderar em 10 anos. “No passado eu era tão ocupado, nunca tive fôlego para olhar para trás. Mas quando fiquei mais velho, passei a apreciar a arte de restaurar relógios porque posso viver desta profissão enquanto meus olhos e mãos estiverem bons.”

Relógios com histórias

Seul – onde a tradição muitas vezes se mistura à modernidade – é um dos melhores lugares do mundo para se garimpar relógios clássicos, de acordo com Lee Jong-hoon, dono da “Haesigae”. “A maior parte dos relógios de segunda mão à venda estão em perfeitas condições.”

Lee, que abriu sua loja há 5 anos, conta que tudo começou como um hobby. “Reparar relógios era meu hobby. Quando eu tinha outra profissão, vinha ao Yeji-dong nos fins de semana para aprender técnicas com vários relojoeiros.”

Ele mencionou que também gosta de colecionar relógios antigos, e mostrou um pouco de sua coleção em estojos de madeira. De todos, um relógio de submarino da época da União Soviética é seu preferido. “Eu comprei de um amigo que vive em Busan. Ele disse que o trocou por um par de binóculos com um marinheiro russo.”

Lee continuou explicando que o relógio de submarino pesa cerca de 2 kg e uma chave abre a moldura pesada que segura o cristal no centro. Acredita-se que este relógio foi feito entre 1965 e 1970, quando muitos relojoeiros suíços e alemães se mudaram para a Rússia. Segundo Lee, o relógio está avaliado em cerca de 1300 dólares.

Relógio de submarino da era soviética, o favorito da coleção de Lee Jong-hoon. Foto: Shim Hyun-chul / Korea Times
Relógio de submarino da era soviética, o favorito da coleção de Lee Jong-hoon. Foto: Shim Hyun-chul / Korea Times

“Meu objetivo é criar um ambiente social onde as pessoas possam conversar e trocar informações sobre relógios antigos. Por isso recentemente abri uma página no Naver BAND chamada ‘Clock Stories’,” ele disse.

Sobre o motivo de ter entrado em uma indústria em declínio, de onde profissionais experientes estão tentando sair, ele disse “Estou preenchendo um nicho. Ouvi dizer que irão revitalizar essa área, mas espero que isso não aconteça. As pessoas ainda vem aqui por sentimentalismo.”

Outro profissional renomado, Jang Chung-rak também passou a vida reparando relógios. Para ele, é um trabalho tedioso, e normalmente o custo do trabalho é maior que o valor de um relógio antigo. Mas ele nunca pensou em parar. “Eu estou disposto a fazer trabalhos mais detalhados depois que fecho a loja só para satisfazer meus clientes”, ele disse.

Jang Chung-rak durane um trabalho. Foto: Shim Hyun-chul / Korea Times
Jang Chung-rak durane um trabalho. Foto: Shim Hyun-chul / Korea Times

Ele começou sua carreira como funcionário de uma fabricante de relógios digitais, então abriu sua loja “Samsungsa” no Yeji-dong em 1977. Desde então, Jang tem consertado muitos relógios eletrônicos, e digitais com displays de LED ou LCD. “Os anos 70 foram um momento de mudança para os relojoeiros locais, e eu me beneficiei desta transição porque era o único que sabia consertar relógios digitais.”

Ele relevou alguns segredos para atrair clientes recorrentes. “Quando as pessoas vem aqui e perguntam se vale a pena consertar a peça, eu digo ‘só se valer a pena para você’. 8 em cada 10 pensam por um momento e deixam seus relógios comigo. Mas tem alguns casos em que os donos não vem buscar a peça”, disse Jang.

Jang tem clientes regulares que o visitam há mais de 40 anos – alguns são colecionadores, e outros têm apego pelos relógios que estão em suas famílias há gerações. “Eu ouço muitas histórias de família que acompanham estes relógios,” ele disse. “Às vezes elas são bem elaboradas, mas eu sou um bom ouvinte, porque eles são meus clientes.”

Jang Cung-rak mostrando um relógio reparado por ele. Foto: Shim Hyun-chul / Korea Times
Jang Chung-rak mostrando um relógio reparado por ele. Foto: Shim Hyun-chul / Korea Times

Kim Hyo-sung, um cliente regular da Samsungsa, mostrou seu relógio de pulso de 80 anos que ele ganhou de seu pai. Kim disse que ele pretende passar o relógio para seu filho, pois ele acredita que assim sua família se sentirá ligada a seus ancestrais. Sem saber quanto tempo o relógio ainda irá durar, Kim deu a entender que quer continuar a repará-lo até que o relojoeiro Jang diga que não vale mais a pena.

Enquanto isso, Jang observou que o beco estreito onde estão as lojas é como um local de consolo. “Aqueles que falharam em seus negócios vem aqui para uma segunda chance. O mesmo se aplica aos relógios antigos, pois aqui também é um mercado de usados.”


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



1 COMENTÁRIO

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome.