Quando Moon SuJong, uma webdesigner trabalhando em uma empresa de médio porte na Coreia, foi jantar com seus colegas na empresa e não quis tomar álcool, seus superiores já imaginaram que ela estaria grávida (que outra razão haveria para ela não querer beber?). Ao invés de a parabenizarem, eles ficaram furiosos! Eles a repreenderam por incomodar seus colegas, os quais teriam que cobrir seu trabalho enquanto ela estivesse fora, e a perguntaram quando ela iria se demitir.

SuJong foi reclamar para o gerente de recursos humanos, que também concordou que ela estava prejudicando a empresa, por ter ficado grávida. O chefe dela ainda argumentou que a empresa deveria contratar mais homens. SuJong se demitiu cinco meses depois. Ela também deixou a outra companhia em que foi trabalhar, quando ficou grávida de seu segundo filho. Sua sogra não poderia mais ajudá-la cuidando das crianças, então SuJong se tornou uma freelancer.

Essas histórias são tão comuns na Coreia que se tornaram o tema de um drama, chamado “Working Mom, House Daddy” (mãe trabalhadora, pai dono de casa). A corajosa protagonista do drama, MiSo, luta para harmonizar as horas de trabalho, longas e rígidas, com o cuidado com os filhos. MiSo perde uma promoção na empresa para uma colega cuja sogra cuida de seu filho (o que é muito comum no país).

O drama estreou em maio desse ano, no canal MBC. Fonte: content.mbc.co.kr
O drama estreou em maio desse ano, no canal MBC. Fonte: content.mbc.co.kr

As mulheres coreanas têm dificuldades para conciliar a família com a carreira. Em uma pesquisa feita com 3.000 empresas no ano passado, mais de 80% das empresas privadas afirmaram que apenas um terço das funcionárias do sexo feminino volta para o trabalho depois da licença maternidade. As políticas públicas não são o problema, a lei coreana exige que empresas privadas ofereçam um ano de licença paga. Park GeunHye, a primeira mulher a comandar um país do leste asiático desde que assumiu a presidência da Coreia do Sul em 2013, prometeu criar mais vagas para mulheres, além de aumentar as taxas de emprego em 7% e fiscalizar e autuar empresas com poucas funcionárias do sexo feminino.

Mas vários coreanos relutam em aceitar que mulheres que se tornam mães também tenham carreiras, e as empresas na maior parte do tempo falham em acomodar a necessidade de mães que trabalham. No país, a parcela de mulheres em idade ativa que efetivamente trabalham estava em 50% em 2000 e cresceu apenas 5% até os dias de hoje. A diferença entre o salário médio de homens e mulheres em trabalhos de tempo integral é a maior na OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), grupo que contém a maior parte dos países ricos, tendo diminuído apenas 3% em dez anos. O salário para as mulheres é apenas 63% do valor que os homens recebem. As poucas mulheres que são chefes nos grandes conglomerados são parentes dos acionistas principais da empresa.

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Alguns coreanos alegam que homens precisam mais dos empregos que as mulheres, uma vez que eles são chefes de suas famílias. A “Man of Korea” (homens da Coreia), um grupo que defende os direitos masculinos no país, quer abolir o Ministério de Gênero e Família, dizendo que ele oprime os homens com suas ações, como por exemplo, criar espaços onde somente mulheres podem estacionar os carros.

A existência de um grupo defensor dos direitos masculinos indica que as mulheres fizeram avanços. Os homens agora não garantem mais a sua dominância sempre. Nos anos 90, ainda ocorriam abortos de acordo com o sexo da criança, por causa de uma preferência por filhos homens, vinda dos ensinamentos de Confúcio. Nasciam, então, 117 meninos para cada 100 meninas. Era comum as garotas deixarem a escola para servirem e auxiliarem na educação de seus irmãos. Agora, a preferência cultural se inverteu: os pais dizem que preferem ter meninas, e a taxa de natalidade por sexo se equilibrou de novo. Três quartos das mulheres vão para a faculdade, contra dois terços dos homens.

Mas o ambiente de trabalho ainda não se adaptou, e um número enorme de candidatas capacitadas são ignoradas ou deixadas de lado. Em uma pesquisa sobre equipes de recursos humanos realizada pelo Saramin, um portal de vagas de emprego, descobriu-se que um terço das empresas rejeitou candidatas que eram pelo menos tão qualificadas quanto os homens aceitos, com a desculpa de que “apenas um homem poderia realizar o trabalho”.

As mulheres, porém, começaram a revidar. Em janeiro, uma funcionária de uma cervejaria na cidade conservadora de Daegu processou seu chefe por forçá-la a se demitir antes do casamento. Algumas firmas estrangeiras viram nisso uma oportunidade: uma vez que o talento feminino é desvalorizado, seu valor é baixo. Um estudo em 2010 provou que as multinacionais no país contratam mais mulheres graduadas, o que estimula seus lucros.

Uma maneira de tornar as coisas mais fáceis para as mães empregadas seria que seus maridos ficassem mais tempo em casa. Atualmente, as mulheres coreanas fazem 83% do trabalho assalariado, enquanto as mulheres nos Estados Unidos fazem 62%. A lei incentiva uma divisão mais justa da mão-de-obra: os pais coreanos têm direito a 53 semanas de licença paternidade – o número mais alto entre os países do OECD, apesar do número de pais que usaram esse direito não chegou a 2% em 2014. Um arquiteto em Seul (que pediu para não ser identificado) se afastou de seu trabalho durante um ano para que sua esposa pudesse ir atrás de seu sonho, sendo empregada em uma das editoras do país, mas ele é uma exceção (nessa empresa, as funcionárias também se orgulham em dizer que suas contrações começaram enquanto elas ainda estavam em suas mesas de escritório, o que denota claramente, não ser uma empresa comum).

A maioria dos pais – 64% dos homens empregados entrevistados em 2014 – disseram que apenas dividiriam os cuidados com a criança se fosse aceito pela sociedade e financeiramente possível (de acordo com a lei, durante a licença paternidade eles devem receber 40% de seu salário). E eles sabem que seus superiores não estão brincando quando dizem que seu escritório pode não existir mais quando voltarem.

Com uma taxa de natalidade de aproximadamente 1,2 filhos por mulher, a força de trabalho da Coreia do Sul deve cair drasticamente em alguns anos. Se o país não for bem-sucedido em usar pelo menos metade de seus talentos, haverá estagnação. Um estudo da OECD estimou que se a taxa de participação no mercado de mulheres e homens se igualar até 2030, o PIB da Coreia cresceria até 0,9% anualmente. Desde 2010, o crescimento do PIB diminuiu de 6,5% para 2,6% ao ano.

Em um episódio de “Working Mom, House Daddy”, todos se surpreendem quando o marido de MiSo chega na empresa com o segundo filho e diz que vai pedir a licença, para que ela não perca o emprego. O gerente fica incrédulo e diz: “Você acha que isso vai parar em você? Se você fizer isso, será exemplo para outros, que irão te seguir!”. Talvez eles sigam mesmo e isso seria muito bom para a Coreia.


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