No fim da música “Destino SP”, o rapper Samukera fala uma frase em coreano. Em tradução literal, diz “esta música é a historia da minha família, que sofreu na imigração. Faço uma homenagem a todas as famílias que sofreram o mesmo, suando, chorando e dando o sangue”. No seu primeiro disco, o músico quis mostrar um pouco da sua experiência de vida e do seu cotidiano como membro de uma família de imigrantes. Descendente de coreanos nascido no Brasil há 24 anos como Samuel Koung Min Won, teve influências musicais tanto da Coreia como do Brasil, resultado da vida multicultural a que foi exposto desde pequeno. Nesta entrevista exclusiva, a nossa editora Carol Lee conversou com o Samukera no estúdio musical em sua casa. (Fotos: Bruno Kim)

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De onde veio à inspiração para as músicas do seu primeiro disco?

Querendo ou não muitos generalizam os membros da comunidade coreana como “bem de vida”. Mas ainda tem coreanos que vivem em uma condição precária e eu queria enfatizar as suas dificuldades, sendo a mais complicada a adaptação à cultura local. Sofremos com a violência, por exemplo, queria deixar nítido que a gente também sofre. Por isso não quis usar nenhuma estética mirabolante, no vídeo de “Destino SP” quis mostrar a realidade do nosso ambiente de trabalho. Neste começo de trabalho generalizei um pouco, mas falo de coisas que conheço da minha família. Mas o sofrimento e a história [dos imigrantes coreanos é a mesma, só mudam detalhes, o processo foi o mesmo para todos].

Como você se tornou um rapper?

Eu era b-boy por causa de modinha [risos]. No meu meio eram poucos que dançavam break, comecei com 10 anos. Formei um grupo de break, mas cada um seguiu o seu caminho e eu continuei, só sobrei eu porque gostava mesmo! Meus irmãos ouviam música coreana das antigas como os do H.O.T, mas o que eu gostava mesmo eram as partes do rap, eu me identificava muito. Comecei com o rap na faculdade, onde entrei porque gostava de fazer edição de vídeos, fui fazer rádio e televisão porque pensava em ser diretor de filmes. Lá conheci um colega que era produtor de música eletrônica. Fazia trabalhos de escola com ele e, um dia fui à sua casa e ele me mostrou como era o processo de criação. Como sabia que eu gostava de rap, mostrou-me um beat de rap e eu comecei a cantar rap em coreano, rimando. Ele gostou e disse que eu precisava continuar. No começo achei que era nada a ver, mas disse que iria gravar uma música pra ver como é e nunca mais parei.

E como foi o início da sua carreira?

Nessa época eu estava acompanhando as batalhas de rap, que destacaram vários da cena rap brasileira, caras como o Emicida e o Rashid. Eu fui lá batalhar e foi legal, não houve preconceito por eu ser oriental. Eu pensei que teria que me aprimorar mais, lembra-me de ter ido num show de rap onde havia várias caras famosas como o DJ Caique, Rashid, Projota. O que mais me surpreendeu é que eles não estavam no camarim, estavam no meio da muvuca. Falei com o Caique [produtor do seu disco], contei a ele que eu já tinha tido experiência com violino e beat box, eu até apareci no programa da Fernanda Young [risos]. Foi o violino que me trouxe pra música. Falei pra ele “poxa, me ensina”. Foi super bacana, mandei um e-mail para ele e a resposta foi “escolhe uma batida, escreve e vamos ver o que acontece”. Ele gostou e me chamou na casa dele. Claro que fui desacreditado mas deu certo, entrosou bem e foi aí que comecei, já são cinco anos de caminhada.

Quer dizer que você era um violonista?

[Risos] Toco desde os seis anos de idade! Continuo tocando até hoje, mas comecei mais por causa dos meus pais. Hoje agradeço a eles, no começo não gostava. Antes eu não sabia, mas isso me ajudou muito. Tem uma faixa do disco só com violino, chama-se “Obrigado”, fiz sem rap porque tenho essa ideia de que música fala por si mesma, musica é sentimento. Chama-se “Obrigado” porque é meu agradecimento não só aos meus pais mas aos meus fãs também, queria agradecer a todos que irão escutar o meu disco.

Qual foi reação dos seus pais, ver você sair da música clássica para o rap?

Samukera Destino SpSou caçula, então tive muita liberdade [risos]. Somos quatro e nos trataram de igual para igual, mas eu tive mais liberdade que meus irmãos, eles sofreram mais [risos]. Meus pais nunca me criticaram, talvez somente a roupa que era sempre caindo no chão [risos]. Nunca larguei o violino, o que eles pediam eu fazia e nisso meu pai nunca me impediu de nada, a filosofia dele é cada um fazer o que gosta. Eles com certeza tinham outros planos para mim, mas nunca criticaram o que eu fiz. Agora veem que o rap é algo sério, mas antes eles provavelmente pensavam que era apenas uma brincadeira. Meu pai tem 73 anos e sempre foi rígido, por exemplo, eu não podia voltar tarde em casa. E o problema é que qualquer desculpa que eu o inventava já sabia por que meus irmãos já tinham usado antes, eu tinha que ser criativo [risos]. Meu pai é tradicionalzão, mas sempre me disse “faz o que quer, mas não se arrependa do que faz. Se você perder tempo, não dá para voltar atrás”. Mas meu plano B não existe, estou colocando todas as minhas energias na música. Porque tudo tem um motivo. Foi por isso coloquei o nome do disco como “Destino SP”.

Quais são os seus planos futuros?

Com certeza fazendo rap, estou em processo de produção do meu segundo CD, não podemos parar. Vamos ver até onde o meu primeiro filho vai me levar, este era meu cartão de visitas, para mostrar quais são as minhas ideias, usei temas gerais para mostrar quem sou eu. Já estou trabalhando no meu segundo disco, ainda não tenho o nome dele, mas é baseada em opiniões independente de serem certas ou não. Acho que vai ser legal, vamos ver. Vou continuar a acreditar, tentar fazer boa música.


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1 COMENTÁRIO

  1. Gente, um alerta pra dois possíveis errinhos. Na segunda pergunta, quinta frase “Comei com o rap” não seria “comecei”? E depois na penúltima pergunta, nona frase “Meu pai é tradionalzão” não seria “tradicionalzão”?

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