Economia

O “teto de vidro” visto especialmente nas finanças representa um problema muito sério para a economia, segundo Kim Sang-kyung, diretora e chefe executiva do Instituto Internacional de Finanças da Coreia (KIFI), um instituto privado que fornece educação financeira e licenças.

Se o governo não reconhecer e resolver, a crescente desigualdade de gêneros na força de trabalho através de leis, como está sendo feito na Europa, Estados Unidos e Japão, o crescimento da Coreia ficará ainda mais prejudicado.

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Kim Sang-kyung, CEO do Instituto Internacional de Finanças da Coreia. Foto: Shim Hyun-chul/Korea Times

“O Japão costumava ficar atrás da Coreia em termos de participação feminina na força de trabalho. Agora, eles nos ultrapassaram devido às políticas econômicas para mulheres do Primeiro Ministro Shinzo Abe,” disse Kim, em uma entrevista ao Korea Times de seu escritório em Seul.

“A Coreia não está fazendo nada para promover a igualdade entre gêneros nos setores público e privado. Somente a Casa Azul está indicando ministras, para que elas componham 30% dos ministérios.”

Ela ainda acrescentou que as empresas públicas não estão participando das mudanças, e se elas não estão, por que as empresas privadas deveriam?

A força de trabalho feminina no país chegou aos 59% em 2017, abaixo da média de 64% da OECD. O Japão teve 69,4%.

As políticas econômicas para mulheres, parte do Abenomics, procura trazer mais mulheres para o mercado de trabalho, o que segundo o Primeiro Ministro irá ajudar o Japão a entrar em “uma nova era de sucesso” em sua economia.

Sob este plano, o governo japonês tornou obrigatório a todas as empresas de capital aberto ter 30% de executivas mulheres em cargos de diretoria até 2020 ― sem exceções.

As empresas recebem um “empurrãozinho” para seguir esta regra através do Fundo de Investimento em Previdência do Governo japonês (GPIF), que agora investe apenas em empresas que aumentem a igualdade entre gêneros, além de promoverem uma governança transparente e sustentável.

O GPIF possui ativos no valor de $1,4 trilhões de dólares, em comparação aos $530 bilhões do Serviço Nacional de Pensões da Coreia (NPS)

“O GPIF japonês certamente fez o setor privado se mexer e aumentar o número de funcionárias e executivas, para atrair seus investimentos de longo prazo. Isto provou ser bastante efetivo no sistema capitalista do Japão,” disse Kim.

“Fui informada que o GPIF queria recomendar ao NPS que fizesse algo similar. Mas a nossa previdência ignorou o conselho e não respondeu.”

Graças a esta política, a taxa de executivas mulheres no Japão ficou em quase 7%, enquanto a Coreia tem 2,1%, Kim observou, citando dados da fundação Women Corporate Directors, sediada nos Estados Unidos.

Filhas de donos de conglomerados, incluindo Cho Hyun-ah e Hyun-min, da Korean Air, representam uma boa parte destes 2,1%, segundo Kim, que apontou um futuro desanimador para mães trabalhadoras de classe média.

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Gráfico da participação feminina no mercado de trabalho em 2017. Fonte: OECD.org

Kim, que também é diretora da Rede Coreana de Mulheres nas Finanças, recentemente foi apresentadora de um fórum anual sobre igualdade entre gêneros, e convidou funcionários do governo japonês, incluindo do GPIF, para apresentar seus casos.

Ela acrescentou que países europeus como a Noruega e a Suécia também criaram leis para estimular a igualdade entre gêneros. No início, a Noruega fechava o capital de empresas que não cumpriam suas leis para incluir mulheres na força de trabalho.

“O Fundo Monetário Internacional também avisou a Coreia sobre este problema já há algum tempo, recomendando que fosse feito mais sobre o incentivo à igualdade de gêneros para o bem da economia que está perdendo sua força. Mas o país não responde, o que só torna este teto de vidro cada vez mais espesso” ela continuou.

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Foto: Koreatimes

A diretora do IMF, Christine Lagarde, mencionou ano passado que se a Coreia conseguisse aumentar a participação feminina no mercado de trabalho para um nível mais próximo dos homens, em um quadro social sustentável, seu crescimento poderia aumentar em até 1%.

Ao encontrar estudantes da Universidade Ewha para Mulheres, ela se mostrou chocada ao ouvir que 7 em cada 10 não queriam se casar ou ter filhos, porque isso acabaria com suas carreiras.

Na época, ela expressou a preocupação que a cultura contra casamentos, contra crianças e que incentiva a desigualdade seria um “suicídio coletivo” para a economia.

Kim disse que seus comentários também se aplicavam ao fato de que homens e mulheres não dividem a responsabilidade de criar os filhos de forma igualitária, já que muitas vezes apenas da mãe se espera o cuidado com as crianças.

Isto é por causa dos valores confucianos enraizados em nossa cultura“, ela observou.

Ela disse que o país deveria olhar mais para a Suécia, que possui uma lei permitindo que homens e mulheres tenham o mesmo tempo de licença parental. Dar apenas a mulheres um maior tempo para deixar o trabalho por causa dos filhos não seria justo, e iria apenas sobrecarregar mãe trabalhadoras.

“Mas nós realmente não fizemos nada, nem tentamos criar um ecossistema sustentável, um ciclo virtuoso que incentive o valor da família, o trabalho e a igualdade.”

Nas finanças, o Banco Coreano de Desenvolvimento, empresa pública, está realizando esforços notáveis para melhorar a igualdade entre gêneros, especialmente após a indicação de Lee Dong-gull como presidente, observou Kim, enquanto outros bancos parecem não se importar com a questão.

A participação das mulheres na força de trabalho é de 50% entre os 20 e 30 anos, mas cai para 17% na faixa dos 40 anos, e chega próxima de zero na faixa dos 50.

“Isso significa que eles não estão fazendo nada, ou no topo ou na base, para criar um caminho em que as funcionárias tenham chance de crescer quando começam a trabalhar aos 20 anos,” concluiu Kim.

“E o teto de vidro vai ficando mais grosso, e mais alto.”


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