À medida que o Kpop ganha popularidade no cenário internacional uma pergunta muito importante circula entre os fãs coreanos: Eles querem manter o Kpop estritamente coreano ou querem que haja influência estrangeira?

Quando o grupo feminino (G)I-DLE anunciou que um novo EP, “I burn”, seria lançado em 11 de janeiro, os fãs estavam muito animados ao saber que a música principal “Hwaa” teria um conceito “tradicional”. A expectativa se tornou logo um desapontamento quando o clipe foi lançado e o mesmo continha uma mistura de várias referências asiáticas – algumas sakuras japonesas e padrões de leques, guarda-chuvas chineses e véus tribais de cristal, ao invés de ter trajes e acessórios tradicionais coreanos que estavam sendo aguardados.

Durante a apresentação no programa “Music Bank” da KBS que foi ao ar em 22 de janeiro, as integrantes do (G) I-DLE usaram roupas de seda azuis e pretas com estampas de flores douradas bordadas nas roupas que pareciam vestidos chineses cheongsam também conhecido como qipao. No dia 24 foi postado em um fórum online, Nate Pann, um post com o título, “O que aconteceu com o qipao do (G)I-DLE”.

O post dizia que : “Só porque elas têm uma integrante chinesa estão ignorando os pedidos dos fãs de usarem hanbok (roupa tradicional coreana) […] Isso é muito sério. Se nós não cuidarmos disso por conta própria, logo haverá um momento em que os grupos coreanos não poderão usar hanboks, pois não querem aborrecer a China.

Fãs De Kpop Questionam A Importância Do K
Uma imagem do videoclipe da nova música ″ hwaa ″ do grupo feminino (g) i-dle. Fonte: pinterest

Em menos de um dia o post teve mais de 132 mil visualizações e na tarde do dia 25 ganhou 2.500 likes e 80 dislikes. Muitos comentários concordavam com o post, um deles dizia “Este é realmente um grande problema, elas não estão apenas misturando tudo da Coreia, China e Japão como ainda estão chamando isso de oriental, elas vestem qipaos mas não usam hanbok. Sinceramente, vai chegar um momento que as pessoas terão medo de vestir hanbok.” Este comentário teve 740 likes e 10 dislikes.

A raiva dos fãs com o (G) I-DLE vem de uma discussão que aconteceu no início de novembro do ano passado na internet. A briga envolveu coreanos e chineses que discutiam sobre a origem do hanbok. Os coreanos estavam furiosos com a representação de um vestido tradicional da Coreia em um dorama recente intitulado “Royal Feast” e com o argumento do produtor do dorama, Yu Zheng, sobre a vestimenta que lembrava um hanbok, que na verdade era um hanfu (roupa tradicional chinesa em dinastias feudais governadas pelo povo Han, o grupo étinico mais populoso na China) da dinastia Ming.

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Imagem do mv da nova música ″hwaa″ do grupo feminino (g) i-dle. Fonte: pinterest

De acordo com Lee Gyu-tag, professor de música pop e estudos de mídia na George Mason University Korea, “A relutância dos fãs de K-pop em relação à China vem tanto da história do K-pop quanto da política.’” Ele continuou: “Há alguns integrantes chineses de grupos de K-pop que encerraram abruptamente seus contratos depois de se tornarem bem-sucedidos, o que gerou um sentimento de desconfiança entre os fãs. E então há o sinocentrismo que frequentemente ameaçou a Coreia politicamente. A música tem o potencial de aliviar conflitos políticos, sociais e culturais, mas é impossível para ela existir completamente livre de suas influências.

Alguns fãs não estão abertos para a influência estrangeira, mesmo quando ela não existe, permanecendo contra as mudanças no Kpop. Em 1998, durante o início da primeira geração do K-pop, um grupo feminino, Circle, estreou com cinco integrantes, sendo elas da Coreia, China e Japão – o grupo permaneceu ativo por dois anos. Então, o girl group Twice estreou em 2015 com uma integrante chinesa e três japonesas, desde então tornou-se uma tendência para os grupos de K-pop incluírem integrantes não coreanos.

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O twice tem três integrantes japoneses sa-na, mi-na e mo-mo, e um chinês tzu-yu. Fonte: kpopping
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O grupo feminino blackpink tem uma integrante tailandesa, lisa. Fonte: kpopstarz

Tomando como exemplo os grupos femininos Blackpink, os mencionados (G)I-DLE, WJSN, IZ*ONE, Cheery Bullet, Rocket Punch e grupos masculinos como NCT 127, Pentagon, GOT7, Seventeen, Treasure e tantos outros grupos populares que têm pelo menos algum integrante não coreano, garantem um fandom constante de seus países de origem, independentemente de disputas políticas ou sociais. Os fãs comemoram o sucesso de seus ídolos em conjunto como resultado de um esforço coletivo, especialmente quando estão trabalhando em um objetivo comum, como obter maiores visualizações em um videoclipe ou streams de uma música.

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Imagem do mv do nct 127’s ″kick it ″ (2020). O boy group nct 127 tem um integrante estadunidense, johnny, um integrante japonês yuta, um canadense mark e um chinês winwin. Fonte: soulbeats

E então, há o BTS. Fãs e especialistas parabenizam o sucesso do grupo em dominar as paradas musicais internacionais, como a Billboard, sem ter um integrante estrangeiro ou cantando em outro idioma para ganhar favoritismo de um determinado país – embora o maior e mais recente sucesso do BTS tenha sido com seu single “Dynamite“, com letras em inglês . Por esta mesma razão, alguns fãs coreanos do BTS expressam alegria pelo fato de não haver nenhum membro estrangeiro dentro do grupo, mesmo que a maioria dos fãs se sintam gratos pelo apoio e atenção global.

Em um fórum on-line de fãs de K-pop, o Theqoo, fãs frequentemente enviam postagens dizendo que estão “felizes por não haver nenhum integrante estrangeiro no grupo” porque isso significa que eles “não precisam ver nenhum outro país levando o crédito pelo sucesso”.

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Grupo bts, cujos sete integrantes rm, jin, j-hope, jung-kook, v, su-ga e ji-min são coreanos. Fonte: pinterest

Francamente, estou feliz que não haja nenhum integrante estrangeiro no BTS”, diz uma postagem de 30 de novembro de 2017 no Theqoo, logo após o BTS começar a ganhar cobertura da imprensa internacional. “Imagine como as pessoas teriam reagido e recebido o crédito se houvesse um integrante de outro país. Estaríamos nos preocupando se eles iriam deixar o grupo. Honestamente, estou aliviado por eles serem todos da Coreia. Não consigo encontrar [apoio para] um integrante estrangeiro, por mais atraente que seja, porque as pessoas desse país derrubam outros integrantes.

Reações semelhantes são encontradas em outros sites coreanos e especialistas dizem que isso não é apenas o resultado do nacionalismo, mas que também carrega um indício de xenofobia que felizmente passou relativamente despercebido porque a Coreia ainda não é uma força dominante no mercado internacional, mas esta questão precisará ser tratada no futuro.

Patriotismo não é nada ruim, mas às vezes ele se expressa como xenofobia”, disse o professor Shin Hyun-joon da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Sungkonghoe. “Pode ter se originado de um sentimento de inferioridade – já que fomos dominados e vitimados pela China e pelo Japão na história – mas o nacionalismo que se apresenta hoje em dia é um pouco diferente. É baseado em uma formação capitalista, onde olhamos para os países com PIB superior ao nosso e desprezamos aqueles que não o fazem. A exclusividade pode ter nos ajudado a sobreviver à competição no passado, mas para o K-pop florescer no futuro, precisamos nos abrir para culturas estrangeiras e aprender os valores de abertura, tolerância e generosidade.

Talvez seja porque essa é a primeira vez que a Coreia está no estrelato internacional,” disse Michael Breen, CEO do Insight Comunication Consultants. “PSY e seu ‘Gangnam Style’ (2012) foi uma exceção pois ele não era uma grande estrela na Coreia, então é quase como um evento estranho. De certa forma, BTS e Blackpink são os primeiros a ter o gostinho do estrelato. E é essa a insegurança. ‘Olha, nunca tivemos uma estrela global antes e não seria horrível se alguns integrantes do BTS fossem realmente chineses?’ Mas tenho certeza que muito rapidamente, vamos seguir em frente com esse sentimento. Se não seguirmos em frente, acho que acabará com sua comunidade de fãs. Você vai perceber que eles estão começando a migrar para o próximo pop.”

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O boy group bts, cujos sete integrantes são coreanos, teve seu maior sucesso na parada da billboard com a faixa em inglês ″dynamite″ lançada no ano passado. Fonte: big hit entertainment

De acordo com o professor Lee Jang-woo da Escola de Administração de Empresas da Universidade Nacional de Kyungpook, na verdade, a indústria já passou da fase em que o K no K-pop é exclusivamente da Coreia. O K-pop alcançou e continua a alcançar um público internacional e isto cresceu e se tornou parte da identidade do K-pop. Até mesmo o termo K-pop foi usado no exterior antes do povo coreano começar a usá-lo para descrever a indústria como a conhecemos hoje, então é hora de o K-pop perder o elemento K.

O K-pop definitivamente impulsionou o status da Coreia no cenário internacional, então é natural que haja muitos aplausos por ter esse feito“, disse Lee. “Algumas pessoas podem ir longe demais e pensar de maneira conservadora sobre essa façanha, mas o sucesso global do K-pop é muito mais do que isso. Os fãs que gostam de K-pop o fazem porque o gênero tem um valor universal, como a beleza da vida e a superação de adversidades, ao invés de vez de questões políticas ou étnicas. A beleza do K-pop está na aceitação das nossas diferenças e de nos solidarizarmos uns com os outros. Não são apenas os coreanos que gostam disso atualmente, é algo apreciado por todos em todo o mundo e por isso devemos estar prontos para aceitar que é um conteúdo mundial.


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