Tudo começou com 50 pessoas desfilando pelas ruas de Hongdae, no oeste de Seul, em meio a uma multidão indiferente. Vinte anos se passaram, e a Parada Queer e o Festival de Cultura Queer de Seul se tornaram um dos maiores – e certamente o mais debatido – festivais anuais que acontecem todo verão na Coreia. O evento do ano passado registrou mais de 80 mil participantes.

A Coreia continua sendo uma terra hostil para minorias sexuais em 2020, mas o festival queer já desfilou por 20 anos de dificuldades, espalhando amor e orgulho gay com suas bandeiras de arco-íris. Este ano marca o 20º aniversário do festival e, como sempre, o foco é aumentar a conscientização e trazer mudanças para a sociedade. O festival queer, assim como o Festival de Filme Queer da Coreia, foi realizado online e teve a sua cerimônia de abertura em 18 de setembro, estendendo-se até 29 de setembro. O slogan foi “Mais Distante, Mais Perto”, na esperança de que as pessoas se sentissem mais próximas umas das outras, mesmo permanecendo fisicamente distantes durante a pandemia.

Apesar de todos os anos de luta, este ano foi particularmente difícil, especialmente devido ao coronavírus. A comunidade gay não apenas foi bombardeada com mensagens de ódio no início deste ano, quando um foco de infecções eclodiu em um clube gay no bairro de Itaewon, no centro de Seul, mas o vírus também forçou o evento a ser online pela primeira vez – as dificuldades técnicas, contudo, foram a menor das preocupações do comitê organizador.

Enquanto outros eventos que passaram para a modalidade online conseguiram encontrar segurança no espaço digital, os haters mantêm os organizadores do festival queer alertas, de acordo com Yang Sun-woo, que também atende pelo apelido de Hollic, presidente do Comitê Organizador do Festival de Cultura Queer de Seul deste ano.

Festival de Cultura Queer de Seul 2018 | Fonte: Twitter. 

“Muitas coisas mudaram desde que decidimos realizar o evento online, e estamos extremamente atarefados nos preparando para algo que nunca fizemos antes”, disse Yang. “Mas uma coisa que temos em mente, o que não será o caso de outros festivais online, é a preocupação de que pessoas que não gostam de nós causem problemas. Houve casos no passado em que eles prejudicaram nossos eventos online. E eles controlam todos os nossos movimentos. Até o espaço online não é seguro para nós.”

Além da rodada habitual de mensagens de ódio que eles recebem todos os verões em função do festival queer – que geralmente ocorre por volta de junho, para coincidir com outras paradas de orgulho gay ao redor do mundo -, dois incidentes colocaram a comunidade LGBTQ em destaque este ano: um em fevereiro, quando foi relatado que uma estudante transgênero havia sido admitida na Sookmyung Women’s University, mas logo em seguida desistiu de sua vaga devido à forte oposição societal, e um em maio, quando veio à tona que um paciente testado positivo para o coronavírus havia visitado clubes gays em Itaewon, como já mencionado.

Ambos os incidentes geraram ataques massivos não apenas do público conservador, mas também da mídia, que usou um vocabulário homofóbico para descrever os clubes e relatou histórias não relacionadas ao acontecimento para revelar “os esconderijos gays secretos”. Mesmo a aluna da Sookmyung, que passou por uma redesignação sexual tanto física quanto legalmente, foi forçada a desistir depois que uma miríade de reclamações e pôsteres foram erguidos nas dependências da escola dizendo que sua presença estava “colocando a universidade em perigo”.

Voluntários desinfetam o distrito de Itaewon, após nova onda de casos de Covid-19 ligada a casas de festas | Fonte: The Conversation.

Em agosto, um outdoor colocado pela organização civil Ação Arco-Íris Contra a Discriminação de Minorias Sexuais (Rainbow Action Against Sexual Minority Discrimination, em inglês) para celebrar o Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia, Intersexismo e Transfobia (Idahobit) dentro da estação de metrô Sinchon, Linha 2, foi danificado cinco vezes dentro de um mês. O outdoor fez parte de um projeto co-realizado com a Comissão Nacional de Direitos Humanos e levava a mensagem: “As minorias sexuais estão em suas vidas”, instando as pessoas a deixarem de repelir as minorias sexuais, porém sofreu com ações diretas de hostilidade. Dois suspeitos foram identificados pela polícia, um dos quais é suspeito de ter danificado o outdoor três vezes.

“Acho que, no geral, falta generosidade na Coreia”, disse Yang. “Viver na Coreia significa enfrentar isso em todas as esferas da sociedade. O outdoor danificado em Sinchon, não é a primeira vez que isso nos aconteceu – também foi feito em uma manifestação nossa anos atrás. Quando penduramos bandeiras de arco-íris ou cartazes para dar as boas-vindas às minorias sexuais nas universidades, ou em qualquer outro lugar em que nos mostramos, somos recebidos com ódio. Houve até um episódio durante nosso desfile em Daegu em que um homem jogou fezes em nós. Ele era um sacerdote de uma igreja cristã.”

“Apesar do outdoor em Sinchon e de todo o resto, há muitas pessoas que nos mostram apoio. Ativistas ficaram acordados ao redor do outdoor por três dias para garantir que ninguém o danificasse novamente, e os passantes pediam para que eles se animassem e até lhes davam flores. Acho que o público em geral sabe que as minorias sexuais vivem entre eles. As pessoas estão mudando e as ideias estão mudando, mesmo que as vozes odiosas veiculadas pela mídia pareçam ser mais altas. O ódio continua, mas há mudança em meio a tudo isso.”

Antes da abertura do festival, Yang sentou-se com o Korea JoongAng Daily para falar sobre essa mudança ao longo dos anos e a esperança do que está por vir para a Coreia. O que segue são trechos editados da entrevista na qual ela tratou de amor, orgulho gay e o festival.

P. Você foi nomeada presidente do Comitê Organizador do Festival de Cultura Queer de Seul em um ano em que o evento será online pela primeira vez. Você está preocupada com o resultado?

R. É definitivamente uma grande responsabilidade. Eu estava preocupada em como manter o Festival seguro durante o coronavírus, e o desconforto cresceu à medida em que a data foi sendo adiada. E também tem a oposição, porque sempre sabemos que ela está presente.

As paradas de orgulho gay em outros países ao redor do mundo também estão sendo online, onde eles transmitem seus próprios desfiles ou apresentam vídeos de congratulação filmados e enviados para transmissão. Estou menos preocupada com o Festival de Cinema, mas ainda estamos trabalhando em uma forma de colocar os estandes promocionais no espaço online. Sabemos que os eventos offline e os estandes são os elementos que mantêm as pessoas engajadas, e isso fica ainda mais evidente quando elas veem que outras pessoas também sentem o mesmo. Não vai ser a mesma coisa online, e essa é a parte na qual estamos trabalhando muito.

P. O que você acha que vai ser mais diferente no festival online?

R. Convidamos muitos filmes de fora da Coreia. Na verdade, tínhamos todos os filmes prontos, mas como muitos dos distribuidores estavam localizados nos Estados Unidos, simplesmente não conseguimos entrar em contato com eles após a pandemia do coronavírus. Então, decidimos nos concentrar nos filmes locais. Isso reduziu pela metade o número de filmes que queríamos exibir.

A maior desvantagem de abrir o festival online é que todos os anos, com o festival e o desfile, as pessoas têm um dia em que podem ser realmente elas mesmas. Elas anseiam por essa liberdade e por compartilhar isso com outras pessoas, mas não vai ser o mesmo online. Vamos transmitir os programas, mas isso não é o mesmo que experimentá-los pessoalmente. Além disso, estamos preocupados que pessoas que não gostam de nós tentem sabotar tudo. Segurança é importante para todos, mas é uma palavra que significa muito mais para as minorias sexuais.

P. O outdoor antidiscriminação colocado em Sinchon foi danificado várias vezes. Como você se sentiu?

R. O outdoor da estação Sinchon trazia uma mensagem muito clara, que as minorias sexuais estão com você em sua vida cotidiana. Mas acho que até isso pareceu uma ameaça para algumas pessoas, já que o cortaram e picharam. Eles estão sendo honestos, mas há uma diferença entre não gostar de minorias sexuais e expressar isso. Quando eles danificam algo ou ameaçam alguém, então eles estão cometendo um crime de ódio, mas eu não acho que as pessoas percebem isso.

Mas muitas pessoas agora percebem que minorias sexuais estão presentes em todo os espaços. Sempre que dou palestras, pergunto se os presentes conhecem alguém da comunidade LGBTQ. No passado, poucas pessoas diziam que sim, porque éramos realmente invisíveis na sociedade. Mas, agora, recebo respostas de que eles conhecem pelo menos uma ou duas pessoas ao seu redor. A sociedade está mudando. É que o ódio fala mais alto.

P. Como você se sentiu em relação aos comentários discriminatórios que surgiram por causa do foco de infecções em Itaewon?

R. Acho que a crise do coronavírus expôs coisas que a sociedade queria esconder no passado – os problemas que temos e a nossa consciência deles. Mais de mil reportagens sobre o caso do clube em Itaewon saíram na mídia, e todas elas usaram a frase “infecção de clube gay” e identificaram todas as pessoas que se infectaram no clube como gays. A sexualidade deles não tem relação com o fato de que eles foram infectados, mas as reportagens enfatizaram o lado da história que não estava relacionado às infecções reais. Ninguém culpou o cristianismo quando focos de infecção vieram das igrejas. Acredito que esse comportamento mostra como a sociedade trata suas minorias.

P. Uma estudante transgênero abandonou a Sookmyung Women’s University e um soldado foi dispensado do exército à força após uma cirurgia de redesignação sexual, ambos no início deste ano. O que você achou destes dois episódios?

R. “Sair do armário” na Coreia não é fácil. Ambos os casos são exemplos de rejeição pela sociedade. No que se refere a Byun [o soldado que passou pela cirurgia de redesignação sexual, tornado-se ‘ela’], ela obviamente tinha o apoio das pessoas que a cercavam, mas não da sociedade coreana. Existem maneiras de servir no exército sem ser dispensado, mas nossa sociedade simplesmente não teve uma discussão apropriada sobre a situação.

E mesmo para a aluna, ela já havia passado por procedimentos para legalmente mudar de gênero, mas as paredes das escolas estavam cobertas de cartazes exigindo sua saída – uma pessoa, uma aluna. As pessoas presumiram que ela seria uma ameaça para a escola, e ela teve que testemunhar palavras de ameaça e ódio. Eles teriam procurado por ela e tentado descobrir quem ela era, o que a fez se sentir ameaçada e eventualmente a forçou a desistir.

As pessoas dizem que a discriminação contra as minorias sexuais é errada, mas ainda existem muitos casos em que somos colocados de lado, negados e rejeitados na sociedade. Ódio não é uma opinião. Não precisa de consenso.

Cartas abertas sobre a admissão da estudante trans na Sookmyung Women’s University | Fonte: The Korea Herald.

P. A Coreia ainda não possui uma lei antidiscriminação, mas você acredita que ela acabará sendo aprovada pela Assembleia Nacional?

R. É verdade que não existem leis ou políticas relativas às minorias – não apenas às minorias sexuais. As Nações Unidas recomendaram que a Coreia aprove uma lei sobre minorias e antidiscriminação, mas isto ainda não aconteceu. Acredito, contudo, que uma lei será aprovada. Os políticos prometeram fazê-la desde a administração Roh Moo-hyun, em 2003. E um lado positivo é que há representantes na Assembleia Nacional que são ativos na proteção das minorias e dos direitos humanos. Nunca tivemos ninguém assim no passado. Penso que as coisas parecem promissoras.

A lei antidiscriminação é muito mal compreendida. Cristãos conservadores espalham a mensagem de que não serão capazes de pregar em igrejas ou que serão punidos por dizer coisas. Mas a lei antidiscriminação não tem relação com isso. Trata-se de proteger as minorias que são penalizadas ou discriminadas na esfera pública – como quando estão buscando empregos ou se tornam alvos devido à sua sexualidade.

Mesmo se a lei for aprovada, ela não mudará drasticamente a vida das minorias sexuais na Coreia. Por exemplo, digamos que o governo permita o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Você acredita que todos os homossexuais irão aparecer e começar a se casar? Não, isso não pode acontecer na Coreia. A lei não muda a sociedade imediatamente, mas pelo menos será um avanço se comparado ao número zero de leis que temos agora.

Celebrações do orgulho gay em Seul, em 2017 | Fonte: npr.

P. Você diria que a Coreia mudou ao longo dos anos?

R. A conscientização das pessoas definitivamente mudou. As pessoas sabem que não é certo negar a existência de minorias sexuais. Mesmo a oposição é um símbolo do fato de que eles sabem que estamos aqui. E eu acho que quanto mais dura a oposição odiosa, mais as pessoas pensam: “Eles estão certos em agir assim?”. As pessoas eram indiferentes às minorias sexuais no passado, embora agora se oponham a nós. Mas não são apenas as minorias sexuais – são todas as minorias, incluindo refugiados e pessoas com deficiência. Tudo está conectado, e acho que estamos começando a pensar na discriminação em geral, embora os ativistas estejam bastante dispersos.

Acredito que o coronavírus realmente ensinou às pessoas que todas elas podem ser discriminadas. É uma lição que aprendemos com esta pandemia. Mas acho que a Coreia é um lugar difícil de se viver. Temos a maior taxa de suicídio e todos estão com medo de se tornar a minoria. É difícil dizer que algo está certo, mesmo quando está realmente certo. É um ambiente opressivo e não temos permissão para falar sobre muitas coisas.


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