Para Hong Jin-mi, demorou um tempo para levar a sério os primeiros sinais da demência do marido. No começo, ela achava que ele estava simplesmente tentando ser engraçado.

Eu pedia pra ele me passar o meu celular“, disse Hong, de 75 anos, aos repórteres. “E então ele agia como se não pudesse dizer onde o telefone estava, embora estivesse bem na frente dele. E depois percebi que era ele tentando esconder o fato de que ele não conseguia mais mexer no celular. Ele estava se sentindo humilhado”.

Já se passaram dois anos desde que o marido de Hong apresentou pela primeira vez os sintomas da doença cerebral. Agora, o senhor de 80 anos não se lembra mais dos nomes de seus amigos. Leva um tempo para ele lembrar os nomes de seus próprios filhos. Ele já não é capaz de dizer os nomes dos vegetais – tomate, espinafre e berinjela. “Ele só sabe que eles são comestíveis“, disse Hong, acrescentando que em breve talvez ele também esqueça disso.

O marido de Hong é um dos quase 725.000 idosos coreanos que foram diagnosticados com demência nos últimos anos. O país tem sofrido um aumento constante de pacientes com demência, em parte devido ao rápido envelhecimento da população.

O Ministério da Saúde e Bem-Estar prevê que o número atinja 840.000 até o ano de 2020 e 2.71 milhões até 2050. Até 2050, em particular, os pacientes com demência serão responsáveis por 15% de todos os coreanos com 65 anos ou mais, segundo o governo.

Lutar contra a demência é uma das principais promessas de cuidados de saúde feitas pela atual administração do Moon Jae-in. O governo aumentou recentemente o número de centros de tratamento de demência de 205 para 252, implementando programas adicionais projetados especificamente para apoiar os membros da família dos pacientes, além daqueles que sofrem com a doença.

Uma senhora é recebida na filial de Namyangju do centro estatal para cuidados com a demência em Namyangju, província de Gyeonggi. Foto: Ministério da Saúde e Bem-estar
Uma senhora é recebida na filial de Namyangju do centro estatal para cuidados com a demência em Namyangju, província de Gyeonggi. Foto: Ministério da Saúde e Bem-estar

Os centros fazem parte das medidas do governo Moon para combater a demência; o governo alocou no ano passado 467,6 bilhões de won (436,7 milhões de dólares) para seus programas de apoio àqueles que sofrem com a doença cerebral, que deteriora a memória, a capacidade racional e, eventualmente, a capacidade de realizar atividades cotidianas.

Até cerca de um mês atrás, o marido de Hong passava a maior parte do tempo dormindo em casa. Mesmo quando não está cansado, ele se forçava a dormir tomando pílulas para isso. “Ele continuou esquecendo as palavras e acho que perdeu o desejo de falar – e fazer qualquer coisa – por causa disso“, disse Hong. “Eu sei que muitas famílias com pacientes com demência lutam porque os pacientes tentam sair de casa e desaparecem. Esse não foi o meu caso, pois meu marido só dormia em casa. Mas também era desanimador vê-lo tão desmotivado o tempo todo”.

O marido de Hong começou a mudar quando passou a frequentar a filial de Namyangju do centro de tratamento de demência administrado pelo estado na província de Gyeonggi. Lá, ele participa de sessões diárias de exercícios físicos e faz uso de jogos de memória usando tablets, entre outras atividades.

É bom vê-lo tendo algo pelo que esperar todos os dias“, disse Hong. “Antes de começar a ir ao centro, ele até parou de ir à igreja. Mas ele gosta de vir aqui (no centro)”.

E ele não é o único que se beneficia do centro. Quando o marido está na aula, Hong também participa de uma sessão especificamente para familiares de pacientes com demência. Na sessão, ela é treinada em como lidar com o estresse enquanto cuida do marido.

Hong disse que seus filhos, a princípio, não acreditaram quando ela contou sobre o estado de saúde de seu marido. “Um dia ele agia completamente normal e no dia seguinte ele se tornava uma pessoa diferente“, disse ela. “Então nossos filhos levaram um tempo para entender e aceitar que ele de fato tinha demência. E o processo não foi exatamente fácil”.

Hong disse que é por isso que ela gosta de interagir com outras pessoas que também têm familiares com a mesma doença. “Às vezes, era difícil controlar meus sentimentos, depois que ele foi diagnosticado com demência, mas agora que posso compartilhar minha experiência com aqueles que também estão passando por algo parecido, me sinto melhor. E aprendemos uns com os outros”.

Mas para os coreanos idosos que vivem sozinhos, o medo da doença é muito maior.

Kim Yeon-suk, uma viúva de 85 anos, disse que tem mais medo de demência do que de câncer. Ela mora sozinha e financeiramente depende de seus filhos adultos. Antes de descobrir sobre o centro de atendimento à demência, passou a maior parte do tempo em um centro comunitário para idosos. Embora Kim não tenha demência, ela visita regularmente o centro em um esforço para prevenir a doença depois de ter sido informada de que tem um alto risco de desenvolver a doença, principalmente devido a sua idade.

Eu não consigo nem dormir à noite quando penso na possibilidade de eu ter demência. Eu acho que estou especialmente com medo porque eu vivo sozinha”, disse ela aos repórteres. “Eu testemunhei o marido de uma amiga mudando drasticamente depois de ser diagnosticado com demência. Ele costumava ser uma pessoa tão inteligente e esperta. Tudo o que ele pode dizer agora é ‘obrigado por esta refeição’. Percebi que mesmo pessoas inteligentes como ele podem ter demência. E eu me preocupo com isso”.

Kim tem cinco filhos e se mudou recentemente para Namyangju para viver mais próxima de sua filha mais nova. “Ela administra uma livraria com o marido e está sempre ocupada“, disse ela. “Sempre que eu os visito, eles não parecem estar realmente felizes em me ver. Se eu tiver demência, acho que vou ter que ir para um lar de idosos”.

A demência – e a falta de cuidado com as pessoas com demência, sem apoio social e emocional – tem sido frequentemente relatada como uma das causas da separação familiar e até mesmo de suicídios na Coreia do Sul.

Em 2014, o pai do cantor de K-pop Leeteuk, ganhou as manchetes quando foi divulgado que ele se suicidou depois de matar seus próprios pais. Mais tarde foi relatado que o pai de Leeteuk estava sofrendo de depressão enquanto tentava sobreviver e cuidar de seus pais que estavam lutando contra a demência.

No ano passado, um homem de 50 anos, assim como seus pais na faixa dos 80, foram encontrados mortos em seu apartamento. Os pais do homem sofriam de demência há mais de seis anos e nenhum membro da família tinha renda regular. Antes de queimar carvão na sala, o filho enviara uma mensagem de texto ao sobrinho pedindo para ele realizar um funeral para ele e seus pais.

Em resposta a tais tragédias, o governo Moon anunciou no ano passado que elevaria a taxa de cobertura de demência do seguro de saúde para 90%, ao mesmo tempo em que reduziria o custo pago pelos pacientes ou por suas famílias para 10%.

O governo também pretende aumentar o número de funcionários em cada centro de atendimento de demência de cerca de 10 para 25, e lançar uma central de atendimento 24 horas para famílias de pacientes com demência, ainda este ano.

Vir neste centro é atualmente a coisa mais importante da minha vida“, disse Nah Geum-hee, um paciente de 80 anos com sintomas leves. Ela mora com o filho, que está desempregado no momento. “Tudo que faço em casa é assistir TV. Aqui, eu participo de artes e ofícios e faço exercícios físicos. Eu me sinto mais vivo quando estou aqui

*Os nomes dos envolvidos foram trocados para preservar a sua identidade.


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