O grafiteiro Chris Shim, também conhecido como Royyal Dog, faz do multiculturalismo o foco de uma série de murais em sua cidade natal, Seul, e em todo o mundo. Foto: Jun Michael Park para Foreign POlicy Magazine

A vida noturna é parte integrante da etapa estudantil; entretanto, como estrangeiro, não é raro ser barrado em locais por seguranças resmungando a temida frase: “Este lugar é somente para coreanos”.

Notando uma alta frequência de atos de discriminação em boates e bares na Coreia, os influenciadores estrangeiros Kirsten Keels e Patrick Ramos, conhecidos no TikTok como @K.keels e @theexpatpat, uniram usuários das redes sociais para criar uma lista de ambientes de vida noturna “BIPOC & Foreign friendly”.

A lista apresenta boates e bares na Coreia que são receptivos aos estrangeiros – mais especificamente, à comunidade BIPOC, que representa os negros, indígenas e pessoas de cor – com base nas experiências práticas dos usuários. A lista passou por duas rodadas de revisões antes de seu lançamento, com atualizações feitas quando os usuários relataram experiências negativas em boates e bares que constam na lista.

Influencers criam uma espécie de "Guia de Sobrevivência para Estrangeiros na Coreia"
Patrick Ramos à esquerda e Kirsten Keels – Foto: Korean JoongAng Daily

O Korea JoongAng Daily falou com os dois criadores da lista no fim do mês de maio, para perguntar qual era sua motivação para criar a lista e como eles alcançaram seu objetivo.

Desde o início da Covid-19, a xenofobia na Coreia tem aumentado. Nas últimas semanas, tenho visto um aumento da discriminação em bares, áreas lounge e restaurantes“, explicou Ramos. “Durante o Covid-19, senti como se as boates não vissem problema algum em aceitar dinheiro de estrangeiros, já que os coreanos não saíam tanto. Mas agora, eles são mais seletivos sobre quem deixam entrar, mas isso é apenas uma suposição minha”.

Nos últimos anos, a discussão sobre a criação de uma lista de lugares amigos ou não amigos dos estrangeiros, tem circulado em grupos estrangeiros. Ramos, com seu público crescendo para mais de 91.000 seguidores no TikTok, viu a iniciativa de Keels no Instagram como o momento perfeito para dar o pontapé inicial ao projeto. A ideia original de Keel era colocar uma lista de locais “bandeira vermelha”, mas devido às leis coreanas de difamação, as pessoas que colocam bandeiras vermelhas online podem se deparar com problemas legais. Ao invés disso, os criadores sinalizaram os locais seguros, alinhando-se melhor com a intenção inicial de proteger a comunidade BIPOC.

Embora universalmente abrangente aos estrangeiros, a lista se concentra mais em torno da experiência do BIPOC em particular. Como Ramos explica, “a experiência de expatriados negros e pardos é diferente daqueles que são brancos ou pessoas de tons de pele mais claros. Houve vários casos em que expatriados brancos foram autorizados a entrar em estabelecimentos, mas não os expatriados de cor. É por isso que, ao criar esta lista, precisamos ter certeza de que os lugares não sejam simplesmente receptivos aos estrangeiros, mas principalmente seguros para os expatriados pardos e negros”.

Na Coreia, existe este amor e admiração pela cultura popular e pela música negra, mas ao mesmo tempo, o racismo e a xenofobia são amplamente difundidos”, explicou Keels. “Se criássemos um guia apenas ‘amigo do estrangeiro’, eu sinto que isso iria enfraquecer a mensagem que estamos tentando transmitir“.

A lista se chama “Situações únicas”: Um guia comunitário para a vida noturna na Coreia“.

Eu queria algo que ficasse na mente das pessoas“, explicou Keels, a criadora da ideia. “Fora dos bares e boates (que recusam a entrada de estrangeiros), você frequentemente vê placas dizendo ‘por favor, compreenda a nossa situação única’, mesmo que não haja nada de “único” nisso. Neste ponto, é como uma piada interna na comunidade de expatriados“.

A lista passou por duas fases antes de sua liberação. Primeiro, um chat em grupo com treze expatriados, membros da comunidade BIPOC foi criado para reunir uma lista inicial de lugares.

A lista é uma iniciativa comunitária, colaborativa e inclusiva“, disse Keels, enfatizando a importância do envolvimento da comunidade na lista. Em 17 de maio, Keels e Ramos postaram a lista em suas redes sociais, pedindo por feedbacks. Se algum deles recebesse um feedback negativo sobre um lugar da lista, eles o removeriam. Um segundo “rascunho” foi publicado em 20 de maio, antes de a lista ser oficialmente divulgada em 5 de junho.

Tanto Ramos como Keels explicam que a lista foi bem recebida, de modo geral. “Todos estão animados, mas temos recebido algumas reclamações, pois as pessoas acham que seus lugares favoritos deveriam estar na lista“, disse Ramos. “Mas mesmo que alguém nunca tenha tido um problema, outro grupo de pessoas pode ter tido. É por isso que continuamos aceitando feedbacks, para garantir que o local seja seguro para todos“. Outros, os criticaram por “deixarem passar” alguns lugares discriminatórios na lista ou por algumas vezes, esquecerem de empresas de propriedade de expatriados negros.

No entanto, o projeto teve um custo emocional. Como Keels explica, “fico frustrada com alguns comentários de ódio, por exemplo, quando os criadores de conteúdo coreanos tentam justificar ‘não é permitido o estrangeiro’ sem considerar outros fatores“.

Antes da lista, e como sendo uma mulher negra, Keels também enfrentou discriminação. Além do comentário padrão de “volte para o seu país”, sua lembrança mais antiga é de gritarem com ela e lhe chamarem de “nojenta” em um restaurante cheio de gente. “Ninguém se importava, nem mesmo os amigos com quem eu estava”. Eu me senti tão desamparada“, ela se lembrou.

Embora Ramos não tenha vivido casos extremos de discriminação antes da lista ser feita, em 15 de maio, ao fazer uma live durante uma caminhada em Itaewon, bairro que geralmente é considerado o distrito de estrangeiros em Seul, Ramos foi segurado e encostado contra uma parede por um dos seguranças de uma boate famosa, que o viu filmando a placa que indicava a entrada não permitida de estrangeiros da boate. “Depois de ouvir as experiências dos meus amigos e depois deste incidente, percebi o quão importante era criar a lista“, explicou Ramos.

A lista é de livre acesso e pode ser encontrada em ambas as redes sociais dos criadores, incluindo os nomes, endereços e contas no Instagram dos lugares amigos do público BIPOC que estão na lista. “Eu vejo esta lista como uma forma de proteger minha comunidade aqui na Coreia“, disse Keels.

Para Keels e Ramos, a lista é uma oportunidade para expandir as discussões sobre segurança e discriminação na Coreia. Como Keels explicou, “desejo que outras pessoas que visitam a Coreia se sintam seguras, para que não tenham que fazer este jogo de adivinhação do que é seguro e do que não é“.

Se continuarmos a ter estas conversas, creio que será um passo na direção certa“, disse Ramos. “Espero que à medida que a Coreia se globaliza, a importância de discutir questões de discriminação seja mais amplamente compreendida“.

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As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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