Em 2019, pelo sexto ano consecutivo, a Coreia do Sul foi considerada a economia mais inovadora do mundo pelo Bloomberg Innovation Index. Países como Estados Unidos e Japão, para fins comparativos, ocuparam a oitava e a nona posição no ranking, respectivamente.

Com base em dados de organismos internacionais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o index analisou, dentre muitos outros fatores, gastos com pesquisa e desenvolvimento, concentração de empresas públicas de alta tecnologia, número de pesquisadores, número de patentes e qualidade da educação de ensino superior dos países, a fim de determinar aquele com maior nível de inovação no campo tecnológico.

Com tecnologias de ponta sendo desenvolvidas majoritariamente por grandes conglomerados – os chamados chaebol – exemplo nenhum poderia ser mais ilustrativo do que o da Samsung Eletronics, ou simplesmente Samsung/삼성. Considerada a quinta companhia mais inovadora do mundo em 2019 pelo Boston Consulting Group (BCG), a gigante sul-coreana, atualmente líder global de tecnologia da informação, foi a companhia asiática que apresentou melhor desempenho (única no top 10).

Naturalmente, esses dados foram bem recebidos pelos sul-coreanos, especialmente pelo governo do país, que investiu cerca de US$69.73 bilhões em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no ano de 2018, investimentos inferiores somente àqueles de Estados Unidos, China, Japão e Alemanha.

O desempenho da Coreia continua a surpreender quando comparado o volume de investimentos em P&D ao PIB do país. Segundo a UNESCO, gastos com P&D corresponderam a 4.2% do PIB sul-coreano em 2018, segunda maior porcentagem dentre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), somente atrás – por uma pequena margem – de Israel.

Resultados de tamanha expressividade, contudo, levam muitos a questionar se o país será capaz de sustentar sua posição de destaque nos próximos anos. Para quem já atingiu o topo, não há outro caminho que não a descida, alguns afirmam. Ouso especular que, se a educação for a esfera analisada, embora pareça demasiado pessimista, talvez a Coreia do Sul realmente esteja fadada a essa lógica.

Bandeiras da Samsung e da Coreia do Sul, em Seul (Foto: AFP)

Apesar de há anos manter os maiores níveis mundiais de inovação, incertezas quanto ao seu papel de liderança no setor existem e preocupam especialistas. Preocupações derivam de questões específicas, que infelizmente são muitas para serem aqui aprofundadas, mas das quais vale ressaltar uma: o sistema educacional sul-coreano.

É inquestionável o papel desempenhado pela educação na promoção do espetacular crescimento econômico e modernização do país testemunhados a partir da década de 1960, no que ficou conhecido como “milagre do rio Han”. No entanto, aspecto que no passado alavancou o país, hoje, paradoxalmente, pode prejudicá-lo.

A forma como o sistema educacional da Coreia do Sul é estruturado, sendo fortemente caracterizado pela memorização de conteúdos, com pouco incentivo à formação de pensamento crítico ou à exposição de ideias, pela elevada pressão para bons resultados (leia-se boas notas) e elevada competitividade, fomentou o surgimento de um ambiente extremamente tóxico e muitas vezes intolerável, no sentido mais literal da palavra, como evidenciam as elevadíssimas taxas de suicídio e de transtornos mentais entre jovens sul-coreanos.

Com uma ótima performance em testes e conteúdos bem memorizados, os estudantes mostram ao mundo a alta qualidade da educação sul-coreana. Todavia, a realidade expõe algo bastante diferente: jovens imersos em uma agonizante cultura de estresse, incentivados não a pensar por si próprios, mas a reproduzir conteúdos sem qualquer discernimento crítico, que dificilmente encontram espaço para explorar seus lados mais criativos.

É latente que a memorização e a excelência em provas estão longe de ser os atributos mais importantes em sociedades tão dinâmicas como as atuais – que têm na inovação o mais potente motor de crescimento econômico – nem são suficientes para determinar a qualidade do sistema educacional de um país.

(Foto: The New Daily)

Por outro lado, ter uma boa comunicação verbal, saber trabalhar em equipe, assumir postura de liderança e expressar criatividade (algumas das chamadas soft skills) são habilidades cada vez mais valorizadas pelo mercado de trabalho, mas que o sistema educacional sul-coreano falha em incentivar.

Em uma sociedade que busca se manter na liderança da inovação, nada parece mais contraproducente do que a manutenção de uma educação nesses moldes. Trata-se de um sistema nocivo tanto aos estudantes, submetidos a ambientes altamente estressantes, quanto aos próprios interesses de Seul, que acaba por desperdiçar o potencial criativo de seus jovens.

Ademais, é assim que a tradicional ideia de que felicidade e desenvolvimento econômico estão intrinsecamente relacionados cai por terra quando a sociedade sul-coreana se torna o centro da análise. Sim, o crescimento econômico do país foi acompanhado de grandes avanços e melhorias socioeconômicas, o que jornais, livros e discursos políticos nunca deixaram de mencionar, mas também do aumento abrupto do estresse e das taxas de depressão e suicídio, aspectos que não podem marginalizados e vistos apenas como efeitos colaterais de menor relevância de uma sociedade que apenas “pagou o preço” por chegar tão longe.

Hoje, a Coreia do Sul é decerto economicamente sustentável, como muitos podem assumir, porém socialmente fragilizada, o que poucos reconhecem ou sequer sabem. Essa é a preocupante realidade e gritante contradição do país com os maiores índices de inovação do mundo.

Tendo de lidar com uma economia saudável e uma sociedade doente, olhares atentos agora se voltam ao governo de Seul à espera de medidas que tratem direta e efetivamente da questão.


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