Um casal com seus filhos é o que normalmente costuma surgir na cabeça da maioria das pessoas ao ouvir a palavra “família”, pelo menos até agora. Mas pesquisas recentes indicam que esse quadro pode estar mudando para um número crescente da população da Coreia, especialmente para os jovens.

Uma pesquisa de um think tank* local revelou que 52,4% dos sul-coreanos na faixa dos 20 anos disseram que não terão filhos quando se casarem.

O estudo, conduzido pelo Korea Development Institute, é apenas um dos lembretes de que a percepção do casamento e da “família ideal” está mudando entre a população jovem do país.

Não apenas mais jovens estão eliminando as crianças de suas equações, mas também estão dizendo que não vão se casar de jeito nenhum.

De acordo com o estudo do Ministério da Igualdade de Gênero e Família sobre famílias sul-coreanas, 46,6% das pessoas de 20 e poucos anos pesquisadas disseram que estão dispostas a morar com alguém, mas nunca casarem, um grande salto dos 25,5% de 2015. A prática de casais não casados ​​morarem juntos era sido mal vista no passado. Agora, já não é bem assim.

Na Coreia atual, família importa... ou não?
Uma pessoa passa por uma vitrine exibindo vestidos de noiva em Mapo-gu, Seul, em 19 de abril. Foto: The Korea Herald

Menos crianças

A questão de não ter filhos não se limita aos jovens que se recusam a ficar amarrados. O relatório de dezembro da Statistics Korea mostrou que 8,8% das mulheres casadas no país em 2020 não têm filhos, acima dos 4,4% registrados em 2010. Das mulheres casadas sem filhos, 43,3% concordaram com a afirmação “Casamento sem filhos, tudo bem“.

As razões para não ter filhos incluíam “querer aproveitar a vida apenas com seus cônjuges” em 24,2% e “querer ser estável financeiramente” em 20%. Os entrevistados também disseram que não queriam filhos porque a Coreia é “uma sociedade na qual uma criança não pode crescer feliz” com 16,3%. Com certeza, a Coreia do Sul não é um lugar barato para criar filhos, evidenciado por um relatório do Jefferies Financial Group, mostrando que tem a maior proporção de custos na criação de filhos em relação ao produto interno bruto per capita do mundo.

Outro relatório da Statistics Korea em fevereiro mostrou que a taxa de fecundidade total do país – o número médio de filhos que uma mulher acredita ter ao longo de sua vida em circunstâncias normais – caiu para um mínimo histórico de 0,81, ficando lamentavelmente aquém do objetivo inicial da antiga administração do presidente Moon Jae-in, de 1,4 após o seu lançamento.

Parece que a administração do novo governo vê a baixa taxa de natalidade como inevitável. No início deste mês, a equipe de transição do presidente Yoon Suk-yeol disse que o país precisa de uma nova estratégia em relação à população do país, concentrando-se em maneiras de minimizar o impacto de um declínio populacional, em vez de tentar reverter o fenômeno.

Mesmo que a taxa de fecundidade total se recuperasse, ainda seria difícil recuperar a população do país”, disse o professor Cho Young-tae, da Universidade Nacional de Seul, que também está na força-tarefa populacional da equipe de transição. “A estratégia populacional do governo Yoon será prever mudanças e ajustar preventivamente o sistema”, disse Cho, durante uma entrevista coletiva em 1º de maio.

Na Coreia atual, família importa... ou não?
Foto: Anthony Tran/Unsplash

‘Sozinho em casa’

O ano de 2020 marcou a primeira vez na história em que mais homens na faixa dos 30 anos – 50,8% – eram solteiros do que casados. Tal como acontece com os casais sem filhos, a consideração financeira está entre os maiores motivos.

Um funcionário de escritório de 34 anos de Incheon, de sobrenome Lee, disse que está adiando o casamento até adquirir algum tipo de estabilidade financeira. “Eu não descartaria o casamento como uma opção, mas não quero apressar sem uma preparação financeira suficiente”, disse ele.

Não se casar entre 30 e poucos anos é uma questão mais grave do que parece. Estatisticamente falando, eles são a faixa etária com maior probabilidade de se casar na Coreia do Sul. Dados do governo mostram que a idade média dos primeiros casamentos para homens em 2021 foi de 33,4 e 31,1 para mulheres.

Embora não seja um aumento tão considerável para os homens, a proporção de mulheres não casadas na faixa dos 30 anos também aumentou para 33,6%, de 28,1% cinco anos antes.

As razões para isso variam, mas algumas mulheres disseram que consideram injustas as percepções “convencionais” dos papéis das mulheres em um casamento. Dados recentes do Ministério da Igualdade de Gênero mostraram que as mulheres casadas dedicam 1,4 horas por dia a cuidar exclusivamente dos filhos, contra 0,7 dos homens.

Se eu fosse me casar, seria pelo menos depois dos 30 anos. Eu quero namorar e aproveitar a vida antes de ser amarrada“, disse uma mulher de 23 anos que se identificou como Su-hyun.

No geral, mais pessoas estão optando por deixar o casamento e viver sozinhas, em comparação com o passado. O Ministério da Igualdade de Gênero encontrou um aumento significativo nas famílias unipessoais de 2015 a 2020, passando de 21,3% para 30,4%.

Mais importante, mostrou que a esmagadora maioria – 72,1% – disse que pretende continuar morando sozinho, o que implica que seu status solitário é por escolha, não situação.

Muito menos pessoas se uniram ao sagrado matrimônio em comparação ao passado, com apenas 193.000 casamentos ocorrendo em 2021. Este foi o número mais baixo da história desde que o estado começou a manter a contagem em 1970.

Se o fenômeno mencionado é temporário – talvez induzido por dificuldades financeiras da pandemia ou produto de políticas supostamente ruins – ou representa uma mudança na situação, ainda não se sabe. Mas as evidências sugerem que a questão do que é uma “família” perfeita parece menos clara do que nunca.

*Laboratório de idéias – uma instituição ou grupo de especialistas de natureza investigativa e reflexiva cuja função é a reflexão intelectual sobre assuntos de política social, estratégia política, economia, assuntos militares, de tecnologia ou de cultura. Fonte: Wikipedia

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