Goo Hara, ex-integrante do grupo Kara, voltou às manchetes, não por suas músicas, mas por causa de uma história escandalosa. A cantora denunciou que seu namorado, de sobrenome Choi, ameaçou vazar vídeos íntimos dos dois.

A denúncia gerou uma comoção na Coreia do Sul e as pessoas começaram a debater se as medidas de proteção às vítimas são eficientes.

Após a denúncia de Hara, mais de 230.000 pessoas assinarem uma petição no site da presidência, pedindo para o que o governo tome medidas mais duras no combate do chamado pornografia de vingança, ou revenge porn.

 

Isso ilustra a preocupação das mulheres coreanas quanto a falta de apoio legal ou de políticas que possam as proteger caso seus vídeos íntimos sejam divulgados.

AS FILMAGENS E PROBLEMAS COM A LEI

Xerifes de segurança feminina inspecional um banheiro em Seocho, um distrito de Seul. A capital sul-coreana anunciou planos de conduzir essas inspeções diariamente. Foto: CNN
Xerifes de segurança feminina inspecional um banheiro em Seocho, um distrito de Seul. A capital sul-coreana anunciou planos de conduzir essas inspeções diariamente. Foto: CNN

Os infratores geralmente usam pequenos equipamentos que podem filmar as mulheres, facilmente, em lugares públicos. Tais vídeos são, então, vendidos para sites pornôs.

Um dos principais problemas é como esses crimes são definidos pela lei. O Artigo 14 da Ato de Punição à Violência Sexual diz que é crime filmar/distribuir/etc. “a parte do corpo de outra pessoa que possa induzir ao desejo sexual ou humilhação.”

Um dos problemas, conforme apontado pela Associação Coreana de Advogadas (ACA), é que a interpretação legal do que causa estímulo sexual ou vergonha é inconsistente.

De acordo com pesquisadores, muitos casos são rejeitados pela polícia, porque as filmagens parecem ser inocentes, já que as vítimas estão vestidas, mas ignoram que elas podem ser editadas para que sejam consumidas como pornografia.

Além disso, a lei não vê como crime tirar fotos de uma tela exibindo o corpo de outra pessoa e estudiosos dizem que essa não é a única falha no sistema que tem sido explorada.

Lee Soojung é professora de psicologia criminal da Universidade de Kyonggi. Segundo ela, muitos homens não são punidos por crimes sexuais, mas por outras ofensas – como a divulgação de pornografia – que têm consequências mais brandas.

AS LAVANDERIAS DIGITAIS

Lee Jisoo é uma das mulheres que trabalham ajudando as vítimas a remover os materiais ilegais da internet. Foto: CNN
Lee Jisoo é uma das mulheres que trabalham ajudando as vítimas a remover os materiais ilegais da internet. Foto: CNN

Outro grande problema é como sumir com os materiais. O Centro Coreano de Resposta à Violência Sexual Online (CCRVSO) – um grupo ativista que dá conselhos às vítimas – diz que, uma vez online, o material não pode ser completamente removido.

Antigamente, as mulheres procuraram por firmas privadas para a remoção – as chamadas Lavanderias Digitais – que cobravam uma taxa, criando uma nova indústria lucrativa.

Entretanto, agora os mesmos serviços são oferecidos por uma força policial, de forma gratuita. Porém, os ativistas dizem que esse serviço não é 100% efetivo.

“Até mesmo organizações poderosas, como a polícia ou a Comissão Coreana de Comunicação, podem só pedir para que os materiais sejam removidos. Os que foram salvos por alguém, seja em um HD, USB ou na nuvem, não podem ser traçados ou deletados”, diz a organização.

Apesar do governo ter anunciado que exercerá o “direito de indenização” e fará com que os criminosos cubram os custos da remoção, a CCRVSO diz que isso não é suficiente.

São necessárias medidas preventivas, como a aplicação de um sistema de filtros avançados em sites onde tais materiais são postados.

“Sites de compartilhamento afirmam que é impossível classificar toda a pornografia, mas é possível se aplicarem o programa de filtros correto”, diz a organização. “Mesmo se alguém burlar o filtro, os operadores podem remover o material quase que completamente se tiverem alguém trabalhando 8h por dia.”

A organização ainda completa dizendo que enquanto não houverem punições aos que compartilham, fazem upload e consomem tais materiais abusivos, os esforços serão sempre em vão.

O TERMO É UM GRANDE PROBLEMA?

Hara chegando para depor na polícia. Foto: OSEN
Hara chegando para depor na polícia. Foto: OSEN

Estudiosos afirmam que a perspectiva do público também deve mudar. Para começar, o nome “pornografia de vingança” deveria ser evitado, seguindo a tendência global de usar “imagens de abuso infantil” ou invés de “pornografia infantil”.

Yun-Kim Jiyeong, professora do Instituto de Corpo & Cultura da Universidade Konkuk, afirma que o termo humilhas as vítimas por conta da convenção social.

“Tais vídeos devem ser chamados de ‘vídeos ilegais de chantagem’. Eles não só acabam com a vida social de uma pessoa, mas também pode as levar a tomar medidas extremas, como o suicídio”, diz Yun-Kim.

A professora também pede para que as vítimas fiquem calmas e evitem se culpar.

 

Quando tais vídeos vazam, algumas vítimas acreditam que perderam seu valor como mulher. Essa é a perspectiva masculina. São seus direitos humanos que são violados.

 

Yun-Kim ainda ressalta que a sociedade coreana deve abandonar os padrões que culpam as mulheres, mas não os que as filmaram.

“Alguns homens acreditam que podem acabar com a vida de qualquer mulher. Nós precisamos mostrar que tais ações nunca serão toleradas nessa sociedade. Mesmo réus primários deveriam ser presos.”

ATIVISMO E PROTESTOS

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Park Sooyeon, ativista de 22 anos, criou o grupo Digital Sexual Crime Out, em 2015, e foi creditada por ter derrubado um grande site pornográfico, o Soranet.

O site, ilícito, foi criado em 1999 e hospedava, dentre vários outros tipos, vídeos de mulheres filmadas sem seu consentimento.

Ativistas também conseguiram, em 09/06, juntar 22 mil mulheres em um protesto contra o abuso e contra as spy cams – pequenos aparelhos que podem ser escondidos em qualquer lugar.

O protesto, que aconteceu em Hyehwa, Seul, foi o maior protesto de mulheres da história da Coreia (o segundo maior aconteceu em maio, organizado pela mesma equipe) e foi chamado de “Coragem desconfortável“.

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Nenhuma das participantes quis mostrar seu rosto ou revelar seu nome, até mesmo como uma posição contra a exposição desmedida causada pelas spy cams.

Em um e-mail enviado ao Korea Exposé, uma das organizadoras, de forma anônima, disse que as mulheres não vão mais se privar de levantar questões que são desconfortáveis para a sociedade coreana.

“Geralmente, dizem que as mulheres coreanas são ‘simplesmente sensitivas’ quando se trata do status quo, e que elas estão deixando o ambiente ao redor delas desconfortável. Nós estamos retomando o nosso direito de desafiar as condições existentes que agravam a discriminação sexual. Nós estamos levantando questões desconfortáveis”.

O PAPEL (DE VILÃO) DO MACHISMO

Poster da nova campanha da polícia sul-coreana. Em seu twitter, a jornalista Jung Hawon comentou que ele mostra como a polícia vê os crimes: "piadas divertidas contadas por homens infantis de bochechas rosadas". Foto: Twitter | @alljung
Poster da nova campanha da polícia sul-coreana. Em seu twitter, a jornalista Jung Hawon comentou que ele mostra como a polícia vê os crimes: “piadas divertidas contadas por homens infantis de bochechas rosadas”. Foto: Twitter | @alljung

Ha Yena, de 21 anos, faz parte da mesma ONG de Park Sooyeon, e também foi uma vítima.

Ano passado, após beber com os amigos, Ha foi a um pequeno hotel. No meio do sono, foi acordada por um homem – que aparentava estar na casa dos 20 anos – que tentava abrir suas pernas e tinha um celular gravando a cena. A jovem se lembra de não conseguir reagir e só murmurar um “quem é você?”

Ha diz que ele fugiu do quarto e ela o seguiu sem sequer colocar o casaco novamente. Quando ele fugiu o hotel, ela agarrou um funcionário para poder chamar a polícia.

“Eu estava esperando pela polícia no quarto quando, finalmente, me toquei”, diz Ha. “Eu comecei a gritar. Foi quando eu percebi o que tinha acontecido comigo. Sabe, minha carteira e bens estavam no quarto. Ele não tocou em nada. Ele só queria gravar o meu corpo.”

Quando um policial – com cerca de 40 anos – chegou, ela contou que o infrator, provavelmente, queria uma foto de suas genitais, ao que o policial, envergonhado, respondeu: “Ah, você deveria falar com uma policial” e passou a perguntar se ela não havia deixado a porta destrancada.

O homem foi preso, imediatamente, graças às câmeras de segurança do hotel, mas a conclusão do caso só veio depois de sete longos meses. Ele escreveu uma carta de três páginas pedindo desculpas e pedindo para que Ha não continuasse com o caso.

 

Ele me disse: “Como eu posso aparecer em público se o mundo descobrir o que eu fiz?”

 

O caso de Ha não é único em nenhum ponto. Durante o protesto de Hyehwa, as mulheres mostraram a parcialidade policial usando o caso da Universidade Hongik.

Modelo (segunda a partir da esquerda) é questionada pela mídia após ser presa por vazar as fotos de um colega. Foto: Yonhap
Modelo (segunda a partir da esquerda) é questionada pela mídia após ser presa por vazar as fotos de um colega. Foto: Yonhap

Em maio deste ano, uma mulher foi presa após filmar secretamente e divulgar as imagens de um modelo nu. A mulher, de sobrenome Ahn, teve que se apresentar à mídia, mesmo que usando uma máscara.

As participantes se perguntam porquê esse caso foi tratado de forma mais dura, enquanto vários – cujos infratores são homens – não são; porquê a polícia desfilou com a mulher, enquanto muitos homens escapam da ira popular.

Prisões acontecem, apesar de esparsas. Entre 2012 e 2017, de quase 21 mil suspeitos, apenas 2.6% foram presos (cerca de 540). Para comparação, no mesmo período, de 523 suspeitas, apenas 4 foram detidas.

Lee Jumin, chefe da Agência Nacional de Polícia, disse em uma coletiva de impressa que “é impensável que a polícia retarde as investigações dependendo do gênero.”

Novamente, tudo se volta à cultura.

Chang Dahye, pesquisadora do Instituto de Criminologia Sul-Coreano, diz que “você não pode ter discriminação de gênero quando se trata desses casos”.

Ela estuda a evolução dos crimes sexuais digitais e as falhas do sistema legal sul-coreano ao lidar com tais crimes, e ressalta que esse preconceito não é exclusivo da Coreia do Sul.

 

A forma que se consome sexo, geralmente, envolve a objetificação de mulheres. essa é a norma. então, quando homens são objetificados, as autoridades reagem com uma sensibilidade maior, porque o caso é “único”. existem muito mais infratores do sexo masculino – então, quando o criminoso é mulher, o caso é tratado como sendo muito especial.

 

Ela continua: “O medo que as mulheres sentem das spy cams não é exagerado, é racional. Não são apenas filmagens da relação. Existem filmagens de mulheres fazendo as necessidades, de mulheres em biquínis, em casa, andando na rua. No Soranet os homens faziam upload de fotos de suas esposas e namoradas e pediam que os demais avaliassem suas genitais.”

Apesar do Soranet não existir mais, existem milhares de outras plataformas lucrando com essas filmagens, cujos servidores são estrangeiros (o que complica a investigação).

Infelizmente, as mulheres sofrem mais com tudo isso, principalmente em um país como a Coreia do Sul, onde essa sensibilidade relativa aos gêneros ainda é muito nova.

A “pornografia de spy cam” é um gênero aceitado, considerado “natural”, oposto à pornografia criada em estúdio. Mulheres ainda enfrentam violência e assédio em situações comuns, como em chats de jogos online, e comentários e atitudes misóginos são tidos como piada.


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