A cultura do "Hoesik" vem mudando em razão dos seus efeitos negativos. Foto: gettimagesbank

Uma reunião amigável de colegas de trabalho não é de forma alguma um costume exclusivo da Coreia do Sul, mas a cultura “hoesik” é mais que um simples encontro de lazer no país.

Normalmente realizada após o horário de trabalho, o hoesik geralmente consiste em um jantar, bebida – geralmente muita bebida – e ocasionalmente uma reunião em um karaoke.

Partilhar boa comida e bebida com colegas de trabalho aos custos da empresa enquanto se conhecem melhor, conversam de maneira mais casual sobre trabalho, melhorando o trabalho em equipe em geral, não é uma ideia tão ruim. Na verdade, é por isso que o hoesik tem sido, e continuará sendo, uma parte essencial da cultura de trabalho coreana.

No entanto, muitos trabalhadores dizem que sentem pressão para participar desses eventos, e que o não comparecimento em algumas vezes, podem causar repercussões negativas no trabalho.

Isso não está nas regras. Mas se você se importa com as avaliações do seu trabalho e chances de ser promovido, você tem que ir” disse Song Jung-Yup, 38, um antigo funcionário de escritório que agora comanda uma loja de ferragens em Daegu.

Você sabe o que eles dizem. ‘Hoesik é uma extensão do trabalho’. Faltar ao Hoesik pode causar uma má impressão aos seus superiores“, disse ele.

O status legal do Hoesik

Legalmente falando, hoesik não é trabalho em si, conforme a diretriz oficial publicada em 2018 pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Assim, os empregados não têm direito ao pagamento de horas extras, mesmo que o empregador o considere obrigatório.

Mas os tribunais locais reconheceram que se deve avaliar de maneira justa os diferentes casos.

Em maio de 2021, um tribunal de Seul decidiu que a morte de um homem em um acidente por dirigir embriagado que ocorreu na manhã seguinte a um hoesik, deveria ser reconhecida como um acidente de trabalho sob a Lei de Segurança e Saúde Ocupacional. Na noite anterior ao acidente fatal, o falecido havia participado de uma hoesik com seu supervisor, que durou até 22h50.

Como o falecido havia sido contratado apenas 70 dias antes (do acidente), teria sido difícil para ele recusar uma reunião com seu supervisor“, disse o tribunal em sua decisão. “É difícil dizer não haver causalidade entre a morte e os deveres do falecido“.

Outra decisão que ocorreu em maio, também em Seul, determinou que o falecimento de um funcionário que ocorreu ao voltar para casa após um hoesik com os sócios da empresa pode ser considerado relacionado ao trabalho, mesmo que a empresa não tenha organizado o evento.

Mesmo que a empresa não tivesse especificamente organizado a hoesik e não houvesse razão para acreditar que o comparecimento fosse obrigatório, (o falecido) teria que estar presente para formar uma relação amigável com os sócios“, disse o tribunal na decisão.

No entanto, nem todas as sessões de “bebedeira” entre colegas de trabalho, e nem tudo o que acontece durante um hoesik mais formal, são consideradas relacionadas ao trabalho.

Em uma decisão de 2016, o Tribunal Administrativo de Seul decidiu contra uma mulher que alegou que a morte pós-hoesik de seu marido foi um acidente de trabalho.

Considerando que os funcionários que não podiam beber álcool bebiam refrigerante (na referida hoesik), não foi um evento que obrigasse as pessoas a beber. Parece que o falecido tinha bebido demais por sua própria vontade“, disse o tribunal em sua decisão.

O "Hoesik"- vilão ou mocinho?
Foto: thislifeintrips

Os riscos do hoesik

Embora o hoesik seja supostamente para estimular a união da equipe e a solidariedade do grupo, ele pode se tornar o cenário perfeito para acontecimentos lamentáveis envolvendo linguagem inadequada e contato físico.

O Ministério de Igualdade de Gênero e Família, que divulga um relatório sobre assédio sexual no local de trabalho a cada três anos, descobriu que a hoesik foi o local onde o maior número de casos de assédio ocorreu em 2015 e 2018.

Nos últimos dados, baseados em uma pesquisa realizada entre o final de 2021 e o início de 2022, revelam uma queda acentuada na porcentagem de trabalhadores que sofreram assédio sexual em relação ao total pesquisado, de 8,1 em 2018 para 4,8 em 2021. O Hoesik não ocorrendo com tanta frequência devido à pandemia foi citado como um dos principais fatores da diminuição dos casos.

Na semana passada, o Tribunal Distrital de Incheon decidiu contra um ex-reitor da Universidade Politécnica da Coreia, que tentou contestar a decisão da escola de despedi-lo por sua suposta má conduta durante e após uma hoesik em julho de 2019. Ele foi acusado de fazer contato físico indesejado e forçar uma funcionária a fazer um “love shot” (ato de beber drinks com braços entrelaçados com outra pessoa) com um funcionário do sexo masculino.

Um “love shot” é um costume informal de beber em que duas pessoas se posicionam frente-a-frente, unem seus antebraços ou se abraçam e bebem um shot. Queixas como esta, têm surgido quando um superior força um subordinado a participar da prática com eles, ou quando eles forçam dois subordinados a fazê-lo.

Como reitor de uma universidade, ele não deveria ter cometido assédio sexual no local de trabalho e era responsável pela proibição de tal comportamento. Ao invés disso, ele abusou de sua posição superior para assediar um subordinado“, disse o tribunal, dizendo que sua demissão era justa.

As decisões judiciais demonstram que um “love shot” forçado pode ser considerado assédio sexual. Em 2008, a Suprema Corte declarou um homem culpado de assédio sexual porque ele havia feito com que funcionárias participassem de “love shots” com ele em um clube de golfe local. Ele foi multado em 3 milhões de won (aproximadamente doze mil reais).

A cultura da “bebedeira” constantemente vinculada ao hoesik, é dita por alguns como parcialmente culpada.

Na verdade, esta pode ser uma das principais razões pelas quais a geração mais jovem não gosta muito de hoesik.

O "Hoesik"- vilão ou mocinho?
A pressão para que os funcionários bebam, é um dos fatores que os desagradam sobre o “Hoesik”. Foto: Zingnews

Uma jovem de 26 anos que acabou de começar a trabalhar como funcionária pública disse que preferiria muito mais o hoesik na hora do almoço, onde há menos pressão para beber.

Eu não tenho outra opção, senão acatar aos meus superiores, e há uma pressão para que eu beba com eles – e nem preciso mencionar como fico cansada no dia seguinte“, disse a mulher, que preferiu não ser identificada. “Eu prefiro quando eu simplesmente saio para beber com meus colegas de trabalho que entraram na empresa na mesma época que eu“.

Uma pesquisa realizada em abril pelo site de busca de emprego Incruit mostrou que 34,4% e 28,8% dos entrevistados na faixa dos 20 e 30 anos, respectivamente, preferiam “jantares com bebida” para hoesik, enquanto 65,6% dos entrevistados na faixa dos 20 e 71,2% dos entrevistados na faixa dos 30 preferiam “almoços sem bebida”.

Por outro lado, 68,7% dos maiores de 50 anos preferiram jantares com bebidas, enquanto apenas 31,3% disseram gostarem mais de almoços quem não envolviam bebidas alcoólicas.

Nos últimos anos, os hoesiks têm se afastado de sua reputação infame de “beber até cair” nos encontros. Uma pesquisa de 2021 realizada pelo site local de pesquisa on-line Embrain sobre trabalhadores com idades entre 19 e 59 anos, constatou que mais da metade dos entrevistados (50,5%) lidavam bem com hoesik. As principais razões para isso foram sobre os hoesiks que “não forçam os participantes a beber” (41,8%); “tendem a acabar cedo” (34,5%); e “os trabalhadores não são forçados a participar” (31,5%) — mostrando que houve uma mudança considerável na cultura hoesik.

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As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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