Palácio Joseon no inverno de 1883/1884 - Acervo de Robert Neff

No final de novembro de 1886, William McKay, um escocês-americano de 23 anos, a sua esposa Anna e o seu filho Willie chegaram à costa de Chemulpo para ajudar a “iluminar” a era Joseon – pelo menos o palácio – com a chagada da eletricidade. McKay foi trazido para a península coreana como “professor de luz eléctrica” e a sua principal responsabilidade foi a de montar a central eléctrica comprada da empresa americana (Companhia Edison), pelo governo coreano.

McKay e a sua família foram para Seul e ficaram com Horace N. Allen, um missionário e médico americano, e a sua família até que o governo coreano pudesse os fornecer uma casa própria.

Enquanto esperava pela chegada da planta de projeto da usina eléctrica e de um segundo engenheiro (não identificado), McKay examinou o terreno do palácio e decidiu que o melhor local para o projeto, seria junto a um lago de lótus, para que pudesse fornecer água para a caldeira.

No dia 3 de janeiro de 1887, um morador de Chemulpo escreveu:

O navio Higo Maru trouxe uma central de usina elétrica para o palácio do rei, em Seul. Dizem que foi o melhor projeto que já foi enviado dos EUA. Dois engenheiros de primeira classe também vieram. O projeto da usina, foi fornecido por pouco mais do que o seu preço real, e a empreendedora Edison Electric Co. garantiu o seu sucesso, mesmo que perdessem dinheiro com o projeto. Espera-se que a eletricidade já esteja em funcionamento dentro de cerca de três meses, e calcula-se que o Governo Coreano pode poupar dinheiro utilizando a luz elétrica em vez do petróleo“.

Os “dois engenheiros de primeira classe” eram sem dúvida McKay e o seu assistente não identificado, mas ainda não se sabe com certeza como é que a central eléctrica foi transportada de Chemulpo para Seul. Naquela época, equipamento pesado e mercadorias eram frequentemente transportados por embarcações pelo rio Han, mas considerando que naquela época era inverno e que o rio Han tinha uma tendência em congelar – tornando impossível viajar no rio – a central eléctrica, provavelmente deve ter sido transportada por terra.

A construção da usina foi iniciada de imediato e progrediu muito rapidamente, de fato, muito mais rapidamente do que o previsto, mas não sem alguns problemas.

O Iluminar da dinastia Joseon
O salão de audiências no inverno de 1883/1884 – Acervo de Robert Neff. Foto: The Korea Post

Um dos americanos – supomos que foi McKay, mas não temos certeza – apesar da sua recente chegada no país, conseguiu aprender alguns comandos básicos em coreano. Dizem que conhecimento é poder – mas este poder quase lhe custou a vida.

Enquanto tentava colocar a caldeira da fábrica na sua estrutura de alvenaria, o engenheiro (McKay?) entrou por baixo dela para que pudesse ver melhor. A caldeira, era sustentada por uma série de cordas seguradas por trabalhadores coreanos. O engenheiro, desejando que eles puxassem as cordas e levantassem a caldeira mais alto, os disse: “come on”, para que os trabalhadores puxassem as cordas. Aparentemente, ele esteve se comunicando em coreano com os trabalhadores anteriormente e eles não compreenderam o seu inglês confundindo com uma palavra coreana que significava “parem” – o que fez com que eles soltassem as cordas. Felizmente o engenheiro conseguiu se esquivar da caldeira que caia e aprendeu uma valiosa lição de que o pouco conhecimento de um idioma pode ser perigoso.

Em fevereiro (possivelmente 26 de janeiro) a maior parte do trabalho já tinha sido concluída e o palácio, pelo menos parte dele, já era abastecido com eletricidade. O projeto foi celebrado por seu sucesso, mas alguns membros do governo coreano o viram como um mau presságio, especialmente depois de todas as carpas do lago de lótus terem sido encontradas mortas. Naquela época, havia uma crença em que os coreanos acreditavam que um dragão seria o responsável por tal.

O monarca coreano da dinastia Joseon (ou alguém na sua corte) tinha um fascínio por luzes – não só por iluminar o palácio, mas também por luzes em decorações. Uma das primeiras compras do governo coreano em Nova Iorque foi 14 vasos de vidro para decorar a mesa de jantar real. Estes vasos, cada um custando 75 dólares, continham ramos de flores artificiais misturados com flores de vidro colorido, e uma pequena lâmpada incandescente de quatro velas que servia como centro para cada uma das flores de vidro.

Mas uma tragédia ocorreu a 8 de março de 1887 quando o engenheiro McKay foi atingido acidentalmente por um jovem soldado coreano. Aparentemente, enquanto se instalavam as luzes no palácio, o soldado que acompanhava McKay, intrigado pelo revólver americano, pediu para o examinar. Ao examinar o revólver, o soldado atirou em McKay acidentalmente.

McKay foi levado às pressas ao médico Dr. Allen para ser atendido, mas nada pode ser feito, e na manhã seguinte, às 6 da manhã, McKay não resistiu aos ferimentos e veio a óbito. Antes da sua morte, ele pediu que o soldado fosse poupado de qualquer castigo, pois estava convencido de que o ocorrido fora um acidente. Ao que tudo indica, McKay foi enterrado em Chemulpo, mas a sua lápide foi perdida e esquecida há muito tempo.

O Iluminar da dinastia Joseon
Palácio Joseon em meados de 1990 – Acervo de Robert Neff. Foto: The Korea Post

Várias testemunhas, incluindo o assistente de McKay, concordaram que se tratou de um acidente. No entanto, o governo coreano, talvez com medo de ofender as potências estrangeiras, decidiu fazer do soldado um exemplo e mandou prendê-lo imediatamente.

Na prisão, o soldado foi severamente violentado e depois condenado à execução. Independentemente das circunstâncias, naquela época, um crime de morte tinha de ser sentenciado por pena morte ou, pelo menos, por exílio.

Um representante americano na Coreia e a viúva de McKay, ambos tentaram pedir ao governo coreano misericórdia e perdoassem o soldado. Talvez tenha sido o apelo de Anna que finalmente conquistou a absolvição do soldado que foi logo liberto.

O rei Gojong ficou tão impressionado com o pedido de Anna, que ofereceu a ela e ao seu filho $500,00 em compensação e uma casa para toda a vida se eles concordassem em permanecer na Coreia – ele também se comprometeu a pagar pelos futuros custos de estudos do filho de McKay e Ana, Willie.

No seu relatório para o Departamento de Estado, o representante americano escreveu:

Uma razão pela qual tanta preocupação tem sido demonstrada é sem dúvida devido à ideia [dos coreanos] de que, tal como muitas outras nações asiáticas, todos os estrangeiros residentes no seu país são convidados, e que qualquer adversidade que lhes suceda é uma vergonha para o anfitrião“.

Anna porém, não aceitou a oferta do rei Gojong. Ela regressou aos Estados Unidos e, em poucos anos, se casou novamente. Quanto ao bebê Willie, em 1892, desapareceu completamente das páginas dos livros de história – possivelmente, foi vítima de uma das muitas doenças infantis daquela época. E assim como o seu pai, a sua lápide parece ter sido perdida.

Robert D. Neff é um escritor freelance e pesquisador histórico especializado em história coreana durante o final do século 19 e início do século 20. Ele é autor e co-autor de vários livros, incluindo The Lives of Westerners in Joseon Korea e Korea Through Western Eyes. Seus escritos apareceram em várias publicações, incluindo Christian Science Monitor, Asia Times, 10 Magazine, Korea Times e Korea Herald. A pesquisa atual de Robert Neff se concentra nas concessões ocidentais de mineração de ouro no norte da Coreia (1883-1939).

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As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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