Em 2016, foi relatado que uma cidadã americana de 24 anos que mora na Coreia do Sul, Megan Stuckey, foi impedida de entrar em um bar simplesmente por ser estrangeira. O bar chamado Green Light tem até uma placa na frente de sua entrada declarando sua política: “Somente coreanos são permitidos porque nossos funcionários não conseguem se comunicar em inglês. Não é racismo. Desculpe Por favor, seja compreensivo“. Curiosamente, a garota estava falando em coreano para a equipe, o que significa que não havia barreira de idioma, apenas o fato de ser estrangeira.

Infelizmente, este caso não é exclusivo. Embora a maioria dos lugares na Coreia acolha estrangeiros, ainda existem algumas empresas que proíbem a entrada dos mesmos. Uma sauna em Busan – “Bally Aqua Land” – possui regras ainda mais peculiares. Ela não proíbe explicitamente estrangeiros, mas nega a entrada de clientes estrangeiros não asiáticos, alegando que os coreanos, a maioria de seus clientes, se sentiriam desconfortáveis. Um dos funcionários da sauna explicou a política dizendo: “Nós ficamos bem com pessoas da Ásia. Eles se parecem conosco e é difícil dizer se são estrangeiros ou não. Mas não permitimos pessoas muito grandes e altas, que claramente se parecem com estrangeiros“. Ela também observou que às vezes os estrangeiros se comportavam de maneira inadequada: homens estrangeiros tentando entrar furtivamente na área de banho exclusiva para mulheres ou casais estrangeiros demonstrando afeto publicamente.

As políticas de não permissão de estrangeiros não são, de fato, ilegais na Coreia. O sistema legal permite que as empresas neguem o serviço à possíveis clientes com base na nacionalidade. Embora recentemente o fluxo de estrangeiros que entram na Coreia tenha aumentado bastante (de 2006 a 2015, o número de residentes estrangeiros mais do que triplicou: de 537.000 para 1.741.919 pessoas), a Coreia do Sul ainda não adotou leis anti-discriminatórias que protejam os estrangeiros.

A discriminação contra estrangeiros na Coreia baseia-se não apenas na nacionalidade e aparência física de uma pessoa, mas também no nível de educação, renda e ocupação. De acordo com uma pesquisa do Instituto Gyeonggi de Pesquisa e Desenvolvimento de Políticas para os Direitos Humanos dos Migrantes, de 560 residentes estrangeiros em 2015, 43,7% se sentiram discriminados em seus locais de trabalho. Em outra pesquisa realizada pelo Ministério da Igualdade de Gênero e Família em 2015, cerca de 60% dos coreanos disseram que os cidadãos coreanos deveriam ter prioridade sobre os estrangeiros em busca de emprego, enquanto mais de 31% não queriam imigrantes como vizinhos.

Os trabalhadores migrantes, especialmente nos setores agrícola e pesqueiro, sofrem com trabalho e condições de vida precários. Por exemplo, os pescadores não coreanos são frequentemente submetidos a abusos racistas, tanto verbal quanto fisicamente, trabalhando mais horas por menos salário. Além disso, os regulamentos atuais do local de trabalho discriminam trabalhadores estrangeiros quanto à indenizações e liberdade de escolher seus locais de trabalho. O sistema de emprego exige que os trabalhadores migrantes trabalhem por pelo menos 4 anos e 10 meses para receber indenizações, enquanto os cidadãos coreanos podem obtê-lo após um ano.

Além disso, os migrantes são geralmente forçados a deixar o país para receber o pagamento da indenização quando o contrato expira. De acordo com o Employment Outlook 2015, em comparação com outros países da OCDE, a Coreia do Sul tem a maior diferença salarial entre trabalhadores nativos e estrangeiros: os cidadãos coreanos são pagos 55% a mais do que os trabalhadores migrantes.

Mas por que a Coreia do Sul, um país com uma população cada vez mais diversificada, tem esse problema? Primeiro, a sociedade coreana sempre foi homogênea e a integração nessa sociedade é sempre mais difícil. Problemas de integração em uma sociedade em que as pessoas compartilham a mesma língua, etnia e valores culturais também podem ser vistos em outros países. Por exemplo, no Japão, onde o povo japonês se considera uma sociedade homogênea, com um forte senso de grupo e identidade nacional. O Japão tem um alto nível de discriminação da população estrangeira: quase 40% dos residentes estrangeiros que procuravam moradia no Japão tiveram pedidos recusados ​​e quase 25% tiveram empregos negados nos últimos cinco anos.

O senso de identidade nacional é forte na Coreia, caracterizado pelo que alguns coreanos afirmam ser “milhares de anos de linhagens ancestrais ‘puras’, linguagem comum, costumes e história”. A Coreia enfrentava constantemente invasões da China, Japão, EUA, e, portanto, tinha que fazer força para se proteger contra seus inimigos. Assim, a ocupação japonesa de 1910 a 1945, na qual o governo colonial estava desenvolvendo capacidades industriais coreanas enquanto tentava purgar a Coreia de sua cultura e identidade tradicionais, fortaleceu o sentimento de identidade nacional coreano.

Finalmente, devido ao rápido desenvolvimento econômico, a Coreia do Sul começou a diferenciar os países de acordo com seu status econômico, o que influencia as atitudes populares em relação a certas nacionalidades. A discriminação coreana é direcionada principalmente a homens pobres do Sudeste Asiático que pensam irem à Coreia para realizar trabalhos tridimensionais (sujos, perigosos e degradantes), e mulheres que pensam em ir à Coreia para se casar bem.

Pela lei coreana, grupos ativistas de direitos humanos, como a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Coreia, não têm o direito legal de fazer cumprir nada, apenas podem dar conselhos. É desesperadamente necessária uma legislação que estabeleça um mecanismo de aplicação que proteja melhor os estrangeiros de práticas discriminatórias.

A questão do racismo, xenofobia e discriminação na Coreia do Sul se tornou um tópico para discussão nas Nações Unidas. Em 2014, um especialista independente em direitos humanos das Nações Unidas, Mutuma Ruteere, visitou o país e testemunhou incidentes de discriminação racial. Entre as sugestões de melhoria de Ruteere estava a promulgação de um ato abrangente contra a discriminação, a educação sobre racismo e xenofobia e a prevenção de estereótipos racistas e xenófobos transmitidos na mídia. Ele também incentivou as autoridades coreanas a melhorar a legislação sobre emprego para oferecer melhor proteção aos trabalhadores migrantes e suas famílias.

Apesar dessas recomendações, o governo coreano demorou a adotar legislação relativa a essa discriminação. No futuro, a Coreia deve tomar medidas mais ativas para proteger e integrar suas populações estrangeiras em sua sociedade.


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