A morte de George Floyd nos Estados Unidos levou pessoas ao redor do mundo a se solidarizarem com o movimento “Vidas Negras Importam” (Black Lives Matter, no inglês) e sociedades inteiras a reavaliarem as relações raciais e a questão da discriminação em suas vidas diárias.

No caso da Coreia do Sul, os acontecimentos recentes trouxeram à tona o fato de o país não ter uma lei que penalize a discriminação baseada em raça e nem sequer possuir uma definição legal de discriminação racial.

Apesar de a sociedade coreana ser ainda bastante homogênea, afirmar que o racismo não é um problema endêmico no país seria um grande equívoco. Nas palavras de Lee Wan, um ativista ligado ao Solidariedade pelos Direitos Humanos e Cultura Asiáticos, “a população homogênea de coreanos não tinha muito contato com estrangeiros no passado, mas agora os coreanos precisam ser tolerantes com diversos povos, já que o país nunca foi tão global como hoje.”

Sul-coreanos vão às ruas para demonstrar apoio ao movimento BLM. | Fonte: UPI

Atualmente, estima-se que o número de estrangeiros vivendo na Coreia do Sul já tenha atingido 2.5 milhões, de acordo com dados do Ministério da Justiça sul-coreano, e a tendência é este número continuar aumentando. Com uma exposição cada vez maior, nota-se o racismo e outras formas de discriminação na Coreia do Sul são direcionados majoritariamente a trabalhadores imigrantes (não-brancos), famílias inter-raciais e, por vezes, estudantes internacionais (a depender de seu país de origem e cor da pele).

“O racismo aqui é quando encontro um assento no metrô e as pessoas evitam sentar ao meu lado, ou quando meus amigos e eu somos impedidos de entrar em baladas sem motivo aparente, ou quando os empregadores querem contratar apenas candidatos brancos”, relatou um manifestante negro que participou de protestos em solidariedade ao BLM na Coreia.

Atos discriminatórios endereçados a trabalhadores imigrantes de países asiáticos menos desenvolvidos costumam ser os mais recorrentes. Agressões verbais e físicas não são exceções, e a pandemia de Covid-19 agravou a situação deste grupo, dada a decisão do governo de excluí-los do recebimento de auxílio e provisões de emergência.

Segundo uma pesquisa feita pelo Centro de Direitos Humanos das Mulheres Imigrantes da Coreia, 9 em 10 coreanos aceitam a existência do racismo no país, comprovando que a problemática, além de presente, é reconhecida por grande parte da população. A partir disto, a questão que passa a ser posta concerne às ações práticas que estão – ou deveriam estar – em andamento.

Trabalhadores imigrantes em Gwangju protestam contra demora para recebimento de salários.| Fonte: The Korea Times

Em 2006, a tentativa de aprovar uma lei anti-discriminação no país falhou, muito devido à força de grupos conservadores que compõem a estrutura política sul-coreana. Desde então, esforços semelhantes vêm encontrando as mesmas dificuldades para se concretizarem, mesmo após uma recomendação do Comitê de Direitos Humanos da ONU por uma legislação dessa natureza, em 2015.

O frágil aparato existente hoje conta somente com a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Coreia, responsável por receber e investigar denúncias de discriminação. O seu poder, no entanto, é bastante limitado, uma vez que as suas decisões possuem caráter recomendatório e não são juridicamente vinculativas.

Portanto, grandes desafios de ordem legal e societal seguem presentes quando o tema é discriminação racial na Coreia do Sul, e é certo que esforços hercúleos deverão ser empreendidos tanto pela sociedade civil como pelas autoridades para endereçar a questão.

O tema emerge, ainda, em um contexto de discriminação crescente contra asiáticos e indivíduos de ascendência asiática derivado da pandemia de coronavírus – o que torna ainda mais urgente a necessidade do país de tratar com seriedade os obstáculos domésticos para então ser capaz de se impor com propriedade na esfera internacional.


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