Foto ilustrativa de bebês recém-nascidos. Fonte: REUTERS

Para a cineasta Sun Hee Engelstoft, que nasceu na Coreia do Sul em 1982 e foi enviada à Dinamarca para adoção quando tinha 4 meses de idade, foi chocante testemunhar a realidade que as mães solteiras enfrentam na Coreia. “No Ocidente e onde eu cresci, na Dinamarca, existe a ideia de que todas as mulheres coreanas  dão facilmente seus filhos porque há muitos adotados lá”, explicou Engelstoft durante uma entrevista para o The Korea Herald. A Coreia enviou mais de 200.000 crianças ao exterior desde a Guerra das Coreias de 1950-1953.

No processo de criação de um documentário, Engelstoft visitou o abrigo Aesuhwon para mães solteiras na Ilha de Jeju e percebeu que a decisão de dar seu filho não é tomada exclusivamente pela mãe da criança. Seu filme, Forget Me Not – A Letter to My Mother, mostra como mães solteiras coreanas são pressionadas a dar seus bebês para adoção, mesmo que não queiram.

Engelstoft passou quase dois anos no abrigo em Jeju para mostrar a realidade que as mães solteiras enfrentam no país. “Eu fiz cerca de 350 horas de filmagem”, afirmou Engelstoft. A cineasta decidiu fazer o filme depois de visitar um abrigo para mães solteiras durante o encontro da International Korean Adoptee Association, em 2004.

“Eu fiz uma viagem ao país que foi organizada pela Overseas Korean Foundation. Fomos experimentar o hanbok, a fábrica de kimchi e a fabricação de papel. A última parada da excursão foi um abrigo administrado por freiras católicas”, disse. “Quando estava para sair, uma mulher veio falar comigo pessoalmente. Ela estava grávida de oito meses e apenas olhou para mim e me perguntou: ‘Você está feliz por ser adotada?’ Eu não sabia o que responder a ela. Eu podia ver seu desespero de que ela realmente queria saber se eu era feliz”, contou.

Engelstoft também compartilhou sua primeira experiência amarga de procurar sua mãe biológica na Coreia. Em 2002, quando ela completou 20 anos, ela voltou para o país pela primeira vez com seus pais adotivos. Durante a visita, eles procuraram a Holt International, a agência que organizou a adoção de Engelstoft, e foram orientados a visitar o orfanato em Busan que tinha seus registros de adoção.

Realidade Das Mães Solteiras Da Coreia Do Sul Choca Cineasta Dinamarquesa
Poster do documentário forget me not – a letter to my mother. Fonte: connect pictures

De acordo com o diretor do orfanato, uma mulher que tinha o mesmo nome da mãe biológica de Engelstoft reconheceu que uma vez deu uma criança para adoção. Mas o diretor afirmou que a mulher rejeitou a oferta de conhecer Engelstoft, dizendo que tinha sua própria família. “Tudo era completamente novo para mim. E de repente comecei a procurar minha mãe e a primeira coisa que recebi foi rejeição, então fiquei de coração partido”, desabafou.

A cineasta acrescentou que duvida da credibilidade das informações que obteve do diretor do orfanato de Busan. “Quando estávamos indo embora, ele disse aos meus pais adotivos que, se pudéssemos fazer uma doação, talvez ele pudesse nos dar mais informações. Mas nós nunca doamos. Então, não recebi novas informações. Mas sempre questionei a veracidade das informações que ele me deu porque pediu dinheiro”, disse ela. “Foi muito desconfortável para mim e também para meus pais adotivos.”

Durante a entrevista, ela também levantou questões sobre a transparência do sistema de adoção internacional na Coreia. “Se você quiser comprar uma criança coreana na Dinamarca, custa em torno de 40 mil reais, hoje. Eu me pergunto para onde vai esse dinheiro”, disse. “O que é uma espécie de tendência internacional em países como Holanda, Suécia e Suíça é que eles têm comitês investigativos nomeados pelo governo para descobrir como a agência e o sistema estão funcionando”.

Engelstoft também disse que os abrigos administrados por agências internacionais de adoção não podem fornecer a ajuda de que as mães solteiras precisam. “Nos abrigos administrados pela agência, a primeira pergunta que fazem é:‘ Você está disposto a dar o bebê?”, contou. Segundo ela, apenas as mulheres que concordam em dar seus bebês podem ficar no abrigo.

Questionada sobre o que diria se pudesse escrever uma carta para sua mãe biológica, ela respondeu que “(A mensagem central que quero dizer a ela é) que eu a amo. Acho que todo o resto se torna menos importante. Além disso, espero que ela tenha coragem de me conhecer”, disse. “Eu ouvi tantas histórias de outras mulheres, mas não ouvi as dela. Eu gostaria de realmente ouvir o que aconteceu com ela.”

Forget Me Not – A Letter to My Mother está em cartaz nos cinemas da Coreia do Sul. Porém, o filme não será distribuído em plataformas de streaming online a pedido das mulheres do abrigo Aesuhwon, de acordo com a distribuidora Connect Pictures.


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