Via: Korea Joongang Daily

Refletindo uma famosa expressão coreana que diz “meu salário mensal inclui o custo de críticas excessivas e estresse emocional”, a discussão sobre o bullying verbal e emocional no local de trabalho aumentou como questão social após a revelação, em 2018, do vídeo do CEO da empresa Korea Future Technology, Yang Jin Ho, agredindo um funcionário em 2015.

No final de 2018, a Lei de Padrões Trabalhistas, que define e proíbe legalmente o assédio moral no escritório, foi emendada em resposta a pedidos crescentes de regulamentação para impedir o mau comportamento generalizado no trabalho e punir as empresas que fecham os olhos ao bullying.

Especialistas atribuem a mudança na atmosfera, que faz com que atualmente, os funcionários de gerações mais jovens, optem cada vez mais por enfrentar o assédio moral,  aos protestos maciços à luz de velas no final de 2016 que levaram ao impeachment da ex-presidente Park Geun-hye.

 

“Entre 2016 e 2017, a Coreia do Sul experimentou mudanças políticas críticas, nas quais os cidadãos provocaram mudanças, expressando suas opiniões através de vigílias à luz de velas. A experiência deu às pessoas um impulso de confiança para defender seus direitos na vida cotidiana, começando no escritório onde passam a maior parte do tempo ”, disse Oh Jinho, um oficial da organização civil Gapjil 119, ao Korea Herald.

O impacto dos protestos em massa, o subsequente impeachment da presidente e as mudanças que ocorreram posteriormente são vistas como virtude. “Passamos da tradicional cultura ‘de cima – para baixo, sem perguntas’ para um ambiente onde é aceitável falar. Isso também é visto no número exorbitante de postagens no site de petições da Cheong Wa Dae (sede do governo coreano)”, acrescentou Oh.

Embora a grande maioria dos relatos de assédio no local de trabalho não seja tão grave quanto o caso do presidente da Korea Future Technology, Yang Jin ho – que enfrenta seis acusações, incluindo estupro e violação da Lei de Proteção Animal por supostamente forçar trabalhadores a matar frangos com espadas de samurai japonesas e flechas – 73,3% dos 1.506 trabalhadores de uma pesquisa da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Coreia do Sul de 2017, disseram ter sido vítimas de intimidação no escritório.

Avaliações injustas de desempenho encabeçaram a lista de assédio em 43,9%, seguido por uma carga de trabalho excessiva com 37,6%, 28% para participação forçada em eventos após o trabalho, como jantares, e violência física em 7,6%, de acordo com a pesquisa.

Uma funcionária da indústria de mídia de 30 anos de idade, de sobrenome Lee, lembra-se de sofrer de náusea devido ao abuso emocional e verbal por parte de seu chefe no verão passado, principalmente por se recusar a participar de encontros de funcionários depois do horário de trabalho.

“Eu pessoalmente não gosto de beber, mas ainda assim fui forçada a beber e me divertir em reuniões depois do trabalho. Foi emocionalmente e fisicamente terrível pra mim”, disse Lee.“Meu chefe apontava para mim para que eu melhorasse meu humor e quando eu não fazia isso, ele me repreendia e me humilhava na frente de toda a equipe. O abuso emocional e verbal continuava pelo celular em uma sala de bate-papo online e eu recebia uma carga de trabalho excessiva”.

Lee solicitou uma reunião cara a cara com seu gerente para resolver o problema, na esperança de encontrar um meio termo. Nada mudou e ela mudou-se para uma empresa diferente, com um salário menor, mas com a promessa de um horário de expediente restrito.

“Eu pensei em levar a questão ao Ministério do Trabalho, mas vi alguns casos em que a identidade do denunciante foi revelada. Além disso, meu namorado e minha família me disseram para não criar uma cena antes de deixar a empresa. Agora estou muito satisfeita com a minha vida”, disse Lee.

Seu caso seria categorizado como bullying de escritório de acordo com as diretrizes para o assédio moral emitido pelo Ministério do Trabalho e Emprego no mês passado. As diretrizes foram criadas para ajudar a distinguir a linha tênue entre maus-tratos e trabalho em excesso.

As diretrizes do ministério dão alguns exemplos de bullying no local de trabalho.

Por exemplo, nomear um funcionário, que retorna da licença parental, para uma posição de hierarquia inferior e pressionar colegas de equipe para alienar a pessoa enquanto usam linguagem ofensiva é reconhecido como assédio moral, de acordo com a diretriz.

Forçar funcionários da equipe júnior a beberem em reuniões após o trabalho e a gastarem parte de seu bônus com favores aos seniores, e fazê-los escrever um pedido oficial de desculpas quando recusarem, é outro caso de assédio.

De acordo com a Lei de Normas Trabalhistas revisada, as empresas com mais de 10 funcionários são obrigadas a implementar medidas para prevenir e lidar com o assédio no local de trabalho até 16 de julho e relatá-las ao Ministério do Trabalho. As empresas que não cumprirem serão multadas em até 5 milhões de won (cerca de 4.400 dólares).

Os críticos, no entanto, questionaram a eficácia da emenda que não especifica punições. Empresas individuais têm que decidir punições para aqueles considerados culpados de assédio moral no local de trabalho.

“Há duas lacunas na revisão. Uma é a ausência de punição legal pelo bullying pelo proporietário da empresa, e a outra é que não garante o anonimato ”, disse Oh.

A revisão define e proíbe o assédio no local de trabalho e afirma que as empresas que demitem ou reatribuem injustamente uma vítima por denunciar o bullying podem enfrentar até três anos de prisão ou 30 milhões de won em penalidades. Não há provisão para punir o praticante.

Respondendo às denúncias, o deputado Han Jeoungae, do Partido Democrático da Coreia, propôs uma lei parcialmente revisada no mês passado que puniria os criminosos com até dois anos de prisão e 20 milhões de won.

“Depois que o caso de Yang Jin ho surgiu, recebi muitas queixas pedindo formas legais de punir os responsáveis ​​pelo assédio no escritório”, disse Han.

Alguns trabalhadores de nível gerencial expressam preocupações e confusão sobre a quantidade de carga de trabalho e conversas pessoais consideradas aceitáveis.

“Eu não sei mais o que falar com a minha equipe sem ser sobre o clima, o que não vai me ajudar a entendê-los melhor. Em minha defesa, é natural que eu queira manter perto os trabalhadores com os quais me sinto à vontade para trabalhar e com quem posso compartilhar um vínculo pessoal ”, disse Park, gerente de equipe de um conglomerado.

Com a mudança na dinâmica do local de trabalho, espera-se que haja maior ênfase nas “habilidades sociais”.

“Foi difícil definir a extensão do bullying no escritório. Os tempos mudaram, por isso os funcionários seniores precisam ser mais sensíveis ao uso da linguagem e ao tratamento dos trabalhadores juniores. No geral, as habilidades sociais vão se tornar uma característica cada vez mais importante no escritório ”, disse um funcionário do Ministério do Trabalho que trabalhou nas diretrizes.


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