Já faz algum tempo que eu venho ouvindo dos estrangeiros que lá residem e esbarrando em textos que dizem que, o consumo de bebidas alcoólicas na Coreia é muito grande, mas fazendo pesquisas para compor este texto é que realmente percebi a dimensão e as razões para este problema naquele país.

Eu encontrei matérias de diversos veículos internacionais e coreanos a respeito do tema, inclusive uma matéria do Korea Herald fazendo um paralelo entre o alcoolismo e a violência doméstica.

Na Coreia do Sul o álcool é mesmo uma parte essencial da vida diária para muitos. Uma pesquisa da empresa Euromonitor concluiu que na verdade, a Coreia é o maior consumidor de bebida destilada do mundo. Em média, os sul-coreanos consomem 14 cálices de bebidas destiladas por semana, enquanto os americanos bebem cerca de três e os russos (que geralmente levam a fama de maiores consumidores de álcool) cerca de seis, de acordo com estas mesmas estatísticas.

Muito embora exista uma política de “tolerância zero” para as drogas, as autoridades são bem mais benevolentes quando o assunto é o consumo de álcool, porque a origem de tudo é a própria cultura coreana e a relação da bebida na vida diária dos coreanos.

Contudo, o governo já está sentindo os reflexos da Coreia ser o lar de mais alcoólatras do que qualquer outro país e os custos sociais relacionados com o álcool somam mais de US$ 20 bilhões por ano, de acordo com estimativas do Ministério da Saúde e Bem-Estar. Os especialistas em saúde pública dizem que parte do problema é que não existem leis que restringem o consumo excessivo de álcool, e a outra é o preço, extremamente acessível, da bebida mais consumida no país, o Soju, que é um destilado de arroz com até 20% de teor alcoólico.

Soju, vendido praticamente em qualquer lugar.
Soju, vendido praticamente em qualquer lugar.

Porém a questão cultural talvez ainda seja a principal barreira – A bebida, é quase considerada uma necessidade, para se chegar à frente nos negócios e também é vista como a principal maneira de aliviar o stress em uma sociedade que tem um dos períodos de trabalho mais longos do mundo. (Em meu primeiro texto para o Koreapost eu abordei este assunto, veja aqui).

A maioria das pessoas acredita que beber é benéfico para a sociedade porque ajuda a aliviar o stress. E não só isso. A maioria acredita que durante os “happy hours” com o pessoal do escritório é que as relações de parceria profissional e as amizades se solidificam, porque nesse ambiente as pessoas podem expressar-se livremente, enquanto que no ambiente de trabalho tudo é muito austero e complicado.

DRINKING-002A Associação Coreana para Saúde Pública acredita que haja também uma falta de consciência sobre os riscos à saúde de se beber pesadamente. “As pessoas não pensam que isso leva a todos os tipos de doenças, incluindo doenças hepáticas” disse um porta voz “por isso o governo deveria determinar diretrizes que orientassem as pessoas do ‘quanto’ é considerado ‘demais'”.

A associação informou que há 20 anos, tenta propor políticas que possam reduzir drasticamente o consumo de álcool – como o aumento do preço, algo que regulamente o quanto é vendido, a limitação de anúncios de bebida feito por celebridades – mas que estes esforços nunca passam na assembleia nacional.

Em tese poder-se-ia acreditar que o alcoolismo não traz grandes consequências de forma coletiva e sim que os malefícios são principalmente ao cidadão consumidor do álcool. Contudo, um estudo recente descobriu uma ligação significativa entre o abuso de álcool e a violência doméstica e sexual na Coreia do Sul.

Um artigo acadêmico da Universidade de Dongguk, que entrevistou 4.851 indivíduos presos por crimes violentos no ano passado, mostrou que 73,1 % dos agressores nos casos de violência doméstica e 67,9 % dos criminosos sexuais cometeram os crimes sob a influência de álcool.

Contudo, podem haver circunstâncias anteriores ao alcoolismo. Estudos têm demonstrado que a maioria dos agressores de casos de violência doméstica com problemas com a bebida encontram-se em baixo nível socioeconômico. Uma pesquisa realizada em 2012 pela Fundação Coreana para Pesquisas do Alcoolismo, entrevistou 142 pessoas que praticaram a violência doméstica sob efeito do álcool e mostrou que 30% delas estava desempregada, enquanto 43% eram trabalhadores eventuais. Quase 50% tinham apenas o ensino fundamental ou médio e 99,3% deles eram homens.

Estes resultados mostram que o vício pode ser mais propenso a afetar as pessoas que se encontrem em situações de pressão ou de emoções não resolvidas. O sentimento de desamparo muitas vezes causa a depressão, e a depressão muitas vezes leva a vícios. Ou seja, existem, comprovadamente, problemas sociais (e o alcoolismo é apenas um deles) que deveriam ser de maior preocupação do governo e das autoridades.

Entretanto na mente dos cidadãos, a bebida é uma parte fundamental da cultura coreana e isso dificulta quaisquer iniciativas de associações privadas ou até mesmo do governo de solucionar este problema.

Universitários aliviam o stress de longas horas de estudo.
Universitários aliviam o stress de longas horas de estudo.

Os jovens universitários, que costumam dedicar 18 horas por dia aos estudos, tem sido apontados como os mais afetados pela ideia de que a bebida alivia a pressão diária. A pesquisa da Fundação Coreana para Pesquisas do Alcoolismo também demonstrou que cerca de 44 % dos estudantes universitários disseram já ter sofrido apagões por beber em excesso.

E a grande maioria dos entrevistados admitiu beber muito o que acaba sendo um problema para a polícia de cidades grandes como Seul, cuja maioria das ocorrências noturnas são acidentes de trânsito causados por motoristas embriagados ou resgate de pessoas caídas nas ruas.

Contudo, quando confrontados, estes jovens habitualmente respondem que, embora compreendam que haja um problema de alcoolismo, a bebida e o hábito de beber nunca serão abolidos da sociedade coreana, por ser algo edificante e que é compartilhado entre as famílias e os amigos.

Fontes de Pesquisa: Al Jazeera, Korea Herald, Daily Mail e News Australia.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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