A Coreia do Sul é reconhecida mundialmente pelo seu investimento em educação, com diversas instituições entre as melhores do mundo. Um país, que após a segunda guerra mundial encontrava-se destruido e devastado, em poucas décadas estabeleceu um sistema educacional apoiado em uma ordem social obcecada em desenvolvimento profissional e economico. O Koreapost, a fim de melhor ilustrar o sistema educacional coreano e a atual polêmica das políticas educacionais do presidente Moon Jae-in, traz para nossos leitores uma série de reportagens publicadas no portal de notícias coreano, Korea Exposé.

As escolas de elite da Coreia do Sul, que agora se tornaram alvos de políticas educacionais do novo presidente Moon Jae-in, já passaram por momento semelhantes em governos passados. A ameaça à tais instituições de ensino, não importando o período, afetam estudantes (que durante o ensino médio dedicam-se em estudar para conseguir entrar nas melhores universidades), familiares (que dedicam-se em tentar oferecer a melhor educação possível aos filhos), e educadores – que veem seus empregos ameaçados constantemente.

A Escola Seongnam de Língua Estrangeira é uma das 31 escolas autônomas de ensino médio que enfrentam a nova empreitada política.
A Escola Seongnam de Língua Estrangeira é uma das 31 escolas autônomas de ensino médio que enfrentam a nova empreitada política. Foto: Korea Exposé

Em governos passados, muitas escolas foram poupadas e, curiosamente, o sistema elitista e caro das escolas privadas cresceu e se fortaleceu alimentada pela obsessão social em buscar o melhor ensino possível, mesmo que por meios exclusivos.

Caso não esteja familiarizado com o sistema educacional da Coreia do Sul, nem todas as escolas lá são iguais.  Existem escolas de ensino médio de língua estrangeira e de ciências que apenas alunos com elevado rendimento acadêmico e com meios financeiros podem entrar. Escolas de ensino médio autônomas, além de mais caras que as demais, são em sua maioria particulares e possuem poder de decisão quanto ao seu currículo sem a necessidade de aprovação do governo.

Também existem escolas internacionais, que operam fora do sistema regular de educação e oferecem aulas em inglês ou em outra língua estrangeira por uma mensalidade astronômica.

Menos de 10 anos depois, o país encontra-se de novo em meio a uma discussão sobre a real necessidade dessas escolas, como já era previsto.  Dessa vez, não são apenas escolas de ensino médio de língua estrangeira, mas também escolas autônomas e algumas internacionais que enfrentam a “pena de morte potencial”.

Abolir essas “escolas de elite” foi um ponto chave da campanha presidencial de Moon Jae-in. De acordo com o atual presidente, essas escolas perderam seu objetivo original de oferecer formação especializada em temas selecionados, por exemplo, em línguas estrangeiras, e se tornaram um mero trampolim para facilitar a entrada nas melhores universidades. Ele prometeu lutar por “escolas igualitárias” e acessíveis a todos.

A campanha para reduzir a desigualdade na educação remonta há muito tempo. A Coreia do Sul tem visto uma série de repreensões às instituições de ensino de elite que supostamente exacerbam a desigualdade social e promovem competição excessiva na educação. Em 1974, o governo iniciou uma política de forte padronização das escolas de ensino médio, essencialmente igualando todas as escolas.

Após esse movimento, escolas de ensino médio de prestígio, que antes aceitavam estudantes por meio de exames de admissão notoriamente difíceis, não poderiam mais discriminar nas matrículas; todas as escolas eram obrigadas a aceitar estudantes que vivem nos distritos circundantes.

Muito embora a política tenha sido implementada para diminuir a concorrência excessiva e o nepotismo – alguns estudantes ganhavam a admissão em escolas de prestigio por contatos ou suborno – isso apenas acarretou o surgimento de um outro tipo de escolas que preencheram esse vácuo. Desde o final dos anos 70, a política governamental para encorajar o movimento populacional para o sul do rio Han, incluiu a realocação de escolas de elite, antes baseadas em exames de admissão, para o “Distrito das Oito Escolas” em Gangnam. Essas escolas, mesmo após a chamada padronização, continuaram muito procuradas, com pais ricos da área gastando mais dinheiro para garantir um melhor desempenho acadêmico dos filhos.  E eis que as escolas de Gangnam provaram sua superioridade enviando mais estudantes para as melhores universidades.

Em seguida, na década de 90, escolas de língua estrangeira foram designadas como “escolas de ensino médio especiais”, permitindo que selecionassem os estudantes por meio de exames de admissão e currículo de desempenho acadêmico do ensino fundamental.  Ao contrário das escolas em Gangnam – que selecionavam os estudantes baseando-se apenas na residência – os pais poderiam preparam seus filhos para a admissão em escolas especiais, que logo se tornaram outro tipo de escolas de elite e símbolos de status devido ao alto preço da preparação para o exame, sem mencionar a mensalidade cara.

Se isto já não era bastante confuso, escolas de ensino médio autônomas foram introduzidas em 2010 com o objetivo de diversificar o currículo. Mas com a liberdade para definir seu próprio currículo, a maioria das escolas converteu-se essencialmente em escolas preparatórias para admissão na universidade ao concentrarem seu núcleo curricular em áreas como coreano, matemática e inglês. Muitas das populares escolas particulares autônomas eram, de fato, semelhantes as escolas de elite com exame de admissão antes da padronização da década de 70.

Korea International School. Foto: 10Mag
Korea International School. Foto: 10Mag

Isso nos leva a promessa de campanha de Moon Jae-in. Atualmente, 46 escolas autônomas, 31 escolas de língua estrangeira e 7 escolas internacionais em todo o país estão se preparando para a mudança. A Província de Gyeonggi, área ao redor de Seoul, já anunciou seu plano para gradualmente abolir 10 escolas desses tipos até 2020.

A Secretaria de Educação Metropolitana de Seul, por outro lado, parece optar por um caminho mais lento para abolir estas escolas.  Cho Hee-yeon, secretário de educação da capital, disse ao Yonhap News em 27 de junho que ele se opõe a reformas educacionais de curto prazo, “uma política bem estruturada é necessária para minimizar os efeitos adversos que podem ocorrer com a implementação de mudanças bruscas.” E acrescentou, “A nova administração deve se preocupar [com esse objetivo].

Quase metade das escolas autônomas e 20 por cento das escolas de ensino médio em língua estrangeira se localizam em Seul. A Secretaria de Educação Metropolitana de Seul lançou seu plano a respeito das chamadas “escolas de elite” em 28 de junho.

A administração de Moon Jae-in, por um lado, parece se manter fiel a sua promessa, ao nomear Kim Sang-gon, que supervisionou as políticas de educação de Moon durante a campanha, como Ministro da Educação. As audições parlamentares para avaliar suas qualificações foram realizadas em 29 de junho.

Pelo menos metade do país parece feliz em presenciar o início do fim das escolas de elite, enquanto os pais dos estudantes matriculados nessas instituições – uma minoria – se enfurecem com a injustiça.

Se o governo pretende melhorar o padrão das escolas em geral, então deveria abordar os problemas dessas escolas e resolver seus problemas. Como podem dois por cento [que somam as escolas de elite] ser a causa dos problemas dos 90 por cento restantes [das escolas em geral]?” rebateu Yoo Si-hyeon, chefe da associação de pais das escolas autônomas durante um protesto.

Ethon House Preparatory School. Foto: 10Mag
Ethon House Preparatory School. Foto: 10Mag

De fato, a percepção geral quanto as demais escolas não é necessariamente positiva. Alguns acusam que essas escolas sofrem com currículos de baixo padrão e baixo nível de motivação entre os estudantes.

Enquanto as atuais escolas de elite – englobando as autônomas, especiais e internacionais – estão novamente sob ataque, é pouco provável que as políticas de Moon Jae-in resolvam os grandes problemas que afetam a educação como um todo: competição intensa, culto ao pedigree educacional – simbolizado pelos diplomas dos colégios – e o enorme setor de educação privada que se destaca do sistema de escolas por completo.

Além disso, os pais sul coreanos sempre encontraram meios de contornar os decretos ou restrições mais recentes do governo e com certeza irão encontrar uma nova maneira também desta vez.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



2 COMENTÁRIOS

  1. Agora eu fiquei sem entender mais nd kkkkkkk eu vim procurar como era o sistema de ensino, se para alunos de baixa renda com rendimento excepcional na escola poderia ganhar bolsa… Essas coisas…. Mas acabei ficando com mais duvidas… Alguém pode me explicar direito pfv?!

    • Anndie, Obrigada pelo seu comentário. Este texto fala apenas de estudantes coreanos. Você quer saber sobre bolsas para brasileiros, ou quer entender mais do sistema coreano mesmo? Um Abraço e Obrigada por curtir o Koreapost.

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