O último artigo da série sobre educação na Coreia do jornal Korea Exposé volta-se para a recente polêmica que circunda as escolas de elite internacionais e os professores que foram deportados recentemente por questões de violação do visto de imigração.

O ensino de inglês, sem dúvida, é o Santo Graal da infame loucura educacional da Coreia do Sul. O setor privado de ensino de inglês, repleto de escolas preparatórias que também são chamadas de hagwons (embora na verdade, as hagwons sejam escolas preparatórias, ou fornecem aulas de reforço para todas as matérias, como os cursinhos pré-vestibulares do Brasil), renderam 61 trilhões de won (cerca de 55 bilhões de dólares americanos) em 2014.

Entre essas hagwons está um grupo de instituições intituladas “escolas internacionais”, em sua maioria escolas alternativas de imersão em inglês, que muitas vezes oferecem currículos certificados por países anglófonos.  Enquanto os diplomas dessas escolas não são reconhecidos na Coreia do Sul, muitas vezes são reconhecidos fora do país.  Muitos estudantes dessas escolas internacionais continuam seus estudos em universidades nos Estados Unidos ou Canadá.

A escola CBIS, em Seul. Foto: CBIS
A escola CBIS, em Seul. Foto: CBIS

A partir de abril deste ano, o departamento de imigração da Coreia do Sul tem apertado o cerco à algumas escolas internacionais registradas legalmente como hagwon.  A Canadian British Columbia International School (CBIS), uma escola canadense certificada na capital sul coreana foi a primeira. Supostamente, cerca de 14 professores portadores do visto E-2 foram deportados, após receber ordens para deixar o país por infração de visto.  A CBIS, que ainda está em funcionamento, recusou-se a confirmar o número exato de professores deportados.

O visto E-2 é designado para professores de língua estrangeira que ensinam conversação em inglês.  O E-7, por outro lado, é para trabalhadores estrangeiros com formação profissional. Ensinar gramática inglesa com um visto E-2 é, portanto, ilegal.  O departamento de imigração apontou que esses portadores do visto E-2 em escolas internacionais deveriam ter obtido o visto E-7 na verdade, porque ensinavam disciplinas além de conversação em inglês.

O ataque a CBIS marcou o inicio da repressão em instituições de inglês similares, incluindo a Westmister Canadian Academy (WCA), BIS Canada, BCC Canada, SIS Canada e Calvary Christian Scholars, de acordo com a ex-professora de inglês Christina King.  Christina, agora de volta a sua casa no Texas, ensinou inglês por três anos na WCA em Seul com um visto E-2. Ela foi forçada a deixar a Coreia do Sul no final de junho.

A escola WCA em Seul. Foto: WCA
A escola WCA em Seul. Foto: WCA

Até o momento da publicação deste artigo, o Korea Exposé não obteve confirmação do Ministério da Justiça quanto ao número de escolas atingidas nem quanto ao número de professores de inglês deportados.

O Korea Exposé entrou em contado com Christina pelo Skype e conversou sobre sua experiência com as recentes repressões e seu ponto de vista sobre os problemas enfrentados pelo sistema educacional da Coreia do Sul.  Por 13 anos, ela ensinou inglês em diferentes hagwons sul coreanos – incluindo a WCA, uma instituição relativamente pequena com cerca de 70 estudantes entre o ensino fundamental e médio – antes de receber a ordem para deixar o país esse ano.

*A entrevista a seguir foi editada devido a extensão e clareza.

KÉ: O que aconteceu no dia em que a WCA foi abordada? 

Christina King: Na segunda-feira, 22 de maio, cerca de oito pessoas do departamento de imigração com distintivos entraram apressados no prédio da escola.  Eles começaram a bater nas portas, procurando portadores do visto E-2, e pedindo aos professores para os encontrarem na lanchonete depois da aula.  Mais tarde, [dos oito portadores do visto E-2 presentes], o diretor e três professores de inglês foram detidos, inclusive eu.  Os outros tiveram que comparecer [ao departamento de imigração] no dia seguinte.

Eu deveria ter ficado em detenção por 48 horas. Tive que preencher um questionário e assinar um documento admitindo minha culpa. Se não, eu seria deportada imediatamente depois da detenção. Depois de assinar o documento, eu fui para casa de noite.  Eles me ligaram no dia seguinte e pediram para eu voltar na quarta-feira [24 de maio] – isso foi quando me deram a ordem para deixar o país dentro de 30 dias.  Eu fui embora exatos 30 dias depois, o último dia possível para deixar o país.

O que você ensinava na WCA? 

Entre os professores deportados da WCA, eu era a única professora de inglês como segunda língua.  Os outros professores eram certificados de outras disciplinas. Desde que o departamento de imigração determinou o visto E-2 para o ensino restrito de conversação em inglês, algo que eu fazia, eu trouxe todo o material para argumentar que eu não estava infringido nenhuma regulamentação de visto.

O departamento de imigração disse, primeiro, que queriam conversar sobre isso depois, mas na verdade nem se importaram.  Eu não pude defender meu caso de verdade. Acredito que o problema foi que a WCA não era uma escola de idiomas, mas operava como uma escola integral. 

Você sabe por que isso aconteceu? Quem está por trás da repressão? 

Todos dizem que é a nova administração de Moon Jae-in, mas a CBIS foi abordada antes da eleição presidencial. A imigração colocou toda a culpa em nós [professores]. Acho que só queriam fechar as escolas alternativas de imersão em inglês.

E o governo é culpado, acredito, em grande parte. Existe um enorme problema no sistema educacional na Coreia do sul, mas o governo está apontando o dedo na direção errada e rotulando injustamente.  E uma vez que os donos das escolas internacionais são pessoas voltadas para negócios, eles vão encontrar alguma brecha e isso vai acontecer de novo.

Durante a campanha presidencial, Moon comprometeu-se a abolir “escolas de elite”, para reduzir a desigualdade na educação. Essas chamadas “escolas internacionais” são muito criticadas por serem escolas de elite para os ricos. O que acha dessas críticas?

O sistema educacional da Coreia do Sul é mal estruturado.  Se olhar os estudantes dessas escolas internacionais, nem todos são de famílias ricas da elite.  É verdade que a mensalidade de 20 milhões de won anual [cerca de 18.000 dólares americanos] é muito cara e que a maioria dos estudantes têm pais com dinheiro.

Mas eu conheço famílias que juntaram recursos para enviar seus filhos a essas escolas por diversas razões.  Eu não posso justificar a mensalidade, mas esses professores da WCA são altamente qualificados – com Ph.D. em teorias de educação por exemplo. Os pais estão pagando por professores e educação de qualidade.

Uma das razões que as escolas canadenses se destacaram na Coreia do Sul é que realmente educam os alunos.  A educação nessas escolas não é voltada apenas a uma certa carga de aprendizado, mas também quanto ao processo de aprendizado, incluindo exploração e autodescoberta.

Por outro lado, o sistema educacional sul coreano é apenas para dois tipos de alunos: o que aprende e memoriza, e um que possui talento por natureza em matemática e ciência.

Quando os estudantes coreanos vão estudar fora, nos Estados Unidos por exemplo, eles enfrentam muitas dificuldades: Primeiro, eles têm este ideal de perfeição que não podem alcançar; segundo, eles não conseguem se adaptar a ambientes escolares sociáveis.  Não sabem como participar de discussões, pensar criticamente ou solucionar problemas que não são preto e branco.  E isso são coisas que as escolas internacionais procuram promover ao contrário das escolas sul coreanas.

Se eu estivesse em uma escola de ensino médio sul coreana, não teria sobrevivido. Esse é o problema aqui. Deve-se apontar à inequação [do sistema educacional], e não aos professores estrangeiros ou ’escolas internacionais’. 

Quais são alguns dos casos de famílias que enviam as crianças para WCA apesar dos encargos financeiros?

Na WCA, tivemos muitos alunos de necessidades especiais com problemas de aprendizado ou de comportamento. O sistema educacional da Coreia do Sul não é adequado para apoiar esses dois grupos.  Necessidades especiais é uma área muito inexplorada.

Na Coreia do Sul, estudantes com deficiência mental são enviados para escolas especiais onde a criança carrega o estigma pelo resta da sua vida.  Mas uma minoria dos estudantes com dislexia, síndrome de Down ou TDAH não precisam de escolas especiais, mas de instrutores experientes.

E os professores da WCA eram mais treinados e capacitados para ensinar esses alunos. Eles eram mais bem aceitos apesar das diferenças, ao invés de serem alienados ou excluídos.  Esses estudantes são mal representados na Coreia do Sul. Se você não é o primeiro, é um perdedor.

O que acontecerá com a WCA?

O Ministério da Educação no Canadá está em dúvida quanto a continuar oferecendo licenças para escolas na Coreia do Sul. Aparentemente, o dono da WCA pediu renovação da licença por um ano, mas foi rejeitado. O ministro canadense disse que não há garantias das autoridades de educação da Coreia do Sul [quanto a permanência das escolas].

Há alunos que precisam se formar no ano que vem.  Nós, com professores, somos paranoicos em relação a eles.  Assim que a escola foi abordada, fizemos contas-fantasmas “na nuvem” para guardar seus históricos escolares para que seus certificados possam ser reconhecidos no Canadá.

Os alunos me enviaram mensagens como “Você vai voltar para a escola amanhã?” e “sentimos sua falta”. Esses alunos não têm nenhum outro lugar para ir.  Espero que possam ter uma segunda opção. 

Você pode voltar à Coreia do Sul no futuro?

Se nós [professores deportados] quisermos nos candidatar a empregos novamente, podemos voltar em um ano.  Estive na Coreia do Sul por 13 anos.  Mas não acho que vou voltar. Estou animada com a mudança. Realmente feliz por isso.

Mas esse não foi o caso para meus colegas de trabalho. São muito mais jovens e tiveram muito mais dificuldades. Alguns não receberam porque a escola foi abordada em maio, mas o contrato era até o final de junho. Estou lutando não por vingança. O que desejo é a reforma e a verdade. E justiça para os outros professores.

A única forma que a Coreia do Sul muda é por exposição pública.

A Coreia do Sul, na verdade, deportou muitas pessoas que realmente se importavam e queriam mudanças reais no país.  Os portadores do visto E-2 que foram deportados eram professores qualificados com credenciais altas.  E realmente de importavam.

Não estou zangada. Eu amo a Coreia. Só quero que o país continue a melhorar, continue a ser grande.  Eu vou fazer qualquer coisa para contribuir, se possível.


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