Um caso de assassinato alimentou as discussões sobre violência doméstica na Coreia: Um homem esfaqueou a ex-mulher até a morte e as filhas do casal pedem – em uma petição online – a morte do pai.

Nós queremos viver sendo apenas filhas da vítima, não do criminoso“, elas disseram em uma entrevista.

A petição online – que teve mais de 144.800 assinaturas em apenas 4 dias – descreve que o assassino abusava física e psicologicamente de toda a família, e que enviava ameaças de morte, mesmo após a finalização do divórcio, há 4 anos.

 

Em janeiro, o assassino apareceu na casa da vítima, com uma arma. Em abril, ele tentou colocar fogo na casa. A polícia foi chamada em ambos os casos, mas não prendeu Kim.

Uma das filhas, a de 24 anos, disse que a mãe sempre cobria o rosto com um chapéu quando saía e que mudou o número de telefone cerca de 10 vezes após o divórcio.

“Minha mãe se mudou 5 vezes antes do divórcio, indo morar até mesmo em um abrigo, mas meu pai sempre conseguia achá-la e ameaçá-la”.

O assassino foi encontrado em um hospital, bêbado e inconsciente.

A PRESERVAÇÃO DA FAMÍLIA

Foto: KobizMedia/ Korea Bizwire
Foto: KobizMedia/ Korea Bizwire

Grupos de direitos das mulheres afirmam que a morte poderia ter sido evitada, isso se o estado fizesse melhor seu papel de proteger as vítimas.

Elas pedem que o Ato referente a Casos Especiais para Punição de Violência Doméstica seja revisto, dizendo que ele, geralmente, força a vítima a “perdoar” ou “se reconciliar” com os agressores.

O artigo primeiro do ato determina que seu principal propósito é “manter e restaurar a família”. Isso, na visão de juristas, coloca a separação da família como último recurso ao lidar com a violência.

O comitê está preocupado que o procedimento de reconciliação é mandatório, mesmo nos casos em que o divórcio ocorre por conta da violência“, diz o Comitê da ONU responsável pela Erradicação da Discriminação Contra Mulheres.

Os grupos feministas apontam que as mulheres vítimas de violência doméstica, principalmente as que sofrem violência sexual, costumam ser vítimas de críticas e humilhações de suas famílias e dos juízes.

Em 2016, uma mulher, com cerca de 20 anos, disse que recebeu ameaças de morte por sua avó paterna após abrir uma acusação contra o pai, que a havia estuprado em diversas ocasiões.

O avô, também paterno, a acusou, abertamente, de “arruinar a vida” de seu filho, dizendo: “Que tipo de filha processa o próprio pai e deixa ele ser preso?”

A vítima disse ao Korea Herald que a experiência é ainda mais traumática. “Eu pensava que, de todas as pessoas, minha avó me entenderia.”

REVISANDO A LEI

Foto: ONU Mulheres
Foto: ONU Mulheres

Em março desse ano, o comitê da ONU aconselhou a Coreia a proibir a reconciliação em casos de violência doméstica, e, dentre diversas outras coisas, que punisse criminalmente os autores, além de prender – obrigatoriamente – os que cometem violência após a medida protetiva emitida.

Nenhuma dessas recomendações foi adotada pelo governo até hoje.

Através dos anos, muitos criminosos tiveram suas sentenças mitigadas por serem considerados mentalmente incapazes, doentes ou alcoólatras.

As filhas afirmam que o assassino já frequentava um psiquiatra por conta do alcoolismo, e frequentemente dizia que se fosse preso por qualquer crime, ficaria apenas por 6 meses, já que tem um histórico de tratamento.

Meu pai nunca foi ‘incapaz’. Ele é um criminoso que precisa ser separado da sociedade“, diz uma das filhas na petição.

A Linha de Emergência para Mulheres, uma organização devotada a ajudar mulheres vítimas de violência doméstica, afirma que é necessário criar um novo sistema para conseguirem proteger as vítimas. “O sistema atual está, simplesmente, deixando as vítimas morrerem.”

DADOS DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NA COREIA DO SUL

Em 2017, o Instituto de Criminologia do país realizou uma pesquisa e revelou dados alarmantes:

  • Dos 2.000 homens entrevistados, 79,7% assumiu que já abusaram física ou psicologicamente de suas parceiras;
  • Dos 71% que assumiram o abuso sexual, 36,6% usaram de violência psicológica e 22,4% usaram de violência física;
  • 23% já admitiram sentir tanta raiva da parceira que tiveram que externar, batendo a porta ou batendo os pés no chão;
  • 100 homens assumiram ter deixado marcas, roxos ou cicatrizes, em suas namoradas.

O principal pesquisador,  Oh Hong Young, disse que esse comportamento surge do patriarcado muito profundo no país.

Complementando a pesquisa do Instituto, a pesquisa do Linha de Emergência para Mulheres indica que 61,6% das mulheres entrevistadas já foram abusadas.

De acordo com dados da polícia, em 2017, em menos de 1% dos casos de violência doméstica – foram mais de 16.800 casos registrados nesse ano – os suspeitos foram presos preventivamente.

Não só isso, cerca de 35% dos agressores conseguiram fugir das acusações, e foram encaminhados à programas educacionais.

No relatório em que a ONU sugeriu mudanças na lei, foi apontado que 2,8% dos casos de violência doméstica e 2,2% dos casos de violência sexual foram reportados à polícia. Isso por conta da incerteza da punição, do medo de serem culpadas, de sofrerem retaliações e de terem seus diretos humanos violados durante a investigação e o julgamento.

A organização também afirma que os números de indiciamentos e detenções, relacionados à violência doméstica, têm caído: em 2013, 15% dos réus eram indiciados e 1,7% foram presos. Em 2016, os números caíram para 8,5% e 0,9%, respectivamente.

Em outras palavras, diz o relatório, “a violência doméstica está sendo, virtualmente, deixada impune“.


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