A coreana-americana Michelle Zauner, de 27 anos, foi a vencedora do 11º Concurso de Redação da Revista Glamour com um texto no qual compartilha sua história de dor, cura e cozinha coreana. Confira abaixo.

A Escritora E Musicista Michelle Zauner, Em Seu Apartamento No Brooklyn. Foto: Glamour
A escritora e musicista michelle zauner, em seu apartamento no brooklyn. Foto: glamour

“Eu estou tão cansada de homens brancos na TV me dizendo o que comer. Estou cansada de Anthony Bourdain testando pratos da cozinha coreana para informar que, não só a nossa comida não irá matá-lo, como realmente tem um gosto bom. Eu não me importo quantas vezes você já viajou para a Tailândia, não vou ouvi-lo, exatamente como as crianças brancas não quiseram ouvir a menina metade coreana, defendendo os tentáculos de lula vermelhos que saíam da lancheira no recreio. As mesmas crianças que me provocavam implacavelmente no passado, são os adultos que agora celebram a nossa cozinha como a última moda.

Eu cresci no noroeste do Pacífico, em uma pequena cidade universitária onde 90% da população era branca. Na minha adolescência eu odiava ser metade coreana. Eu queria que as pessoas parassem de perguntar: “De onde você realmente é?”. Eu mal podia falar o idioma e não tinha nenhum amigo asiático. Não havia nada sobre mim que me fizesse sentir coreana, exceto quando se tratava de comida.

Em casa, minha mãe sempre preparava um jantar coreano para si mesma e um jantar americano para o meu pai. Apesar dos anos que ele viveu em Seul, vendendo carros para os militares e cortejando a minha mãe no Naija Hotel, onde ela trabalhava, meu pai ainda é um cara branco da Filadélfia. Ele até se aventura em comidas mais exóticas (pergunte a ele sobre a carne de cachorro no vapor), mas seus alimentos de conforto são carne e batatas.

Assim, cada noite minha mãe preparava duas refeições. Ela fazia brócolis no vapor e salmão grelhado para o meu pai, enquanto fervia jjigae e preparava pequenos pratos de guarnição, conhecidos como banchan. Quando a nossa panela de arroz anunciava em sua voz robótica familiar “seu delicioso arroz branco estará pronto em breve“, nós três nos sntávamos para uma maravilhosa refeição que misturava o Oriente e o Ocidente.

Eu criava uma verdadeira fusão de sabores em minhas porções, usando pauzinhos para comer tiras bife e ovos de bacalhau encharcados de óleo de gergelim, tudo em uma mordida. Eu sempre gostei das minhas batatas cozidas com pasta de pimentão fermentado, e a minha massa de peixe com maionese.

Tenho muito amor pela comida coreana, e o que eu mais amo são seus extremos. Se um prato deve ser servido quente, é na verdade, escaldante. Se ele é feito para ser servido fresco, provavelmente ainda estará se movendo. Guisados são servidos em panelas de pedra pesadas que mantém o calor. Quebre um ovo em cima, e o mesmo irá cozinhar diante de seus olhos. Sopas frias de macarrão são servidas em taças feitas de gelo.

Ao final da minha adolescência o meu gosto pela comida coreana tinha ultrapassado totalmente o da comida americana. Meu estômago doía de tanto comer Tang e Kalguksu. Nas longas férias em família, quando não havia nenhum restaurante coreano à vista, minha mãe e eu passávamos “batido” pelos buffets dos hotéis e fazíamos arroz no microondas e algas torradas em nosso próprio quarto.

Michelle Em Seul Com A Mãe, Chong Mi. Foto: Arquivo Pessoal
Michelle em seul com a mãe, chong mi. Foto: arquivo pessoal

Então, quando eu perdi minha mãe para uma luta súbita, breve e dolorosa contra o câncer há dois anos, a comida coreana se transformou na minha “comida de conforto”. Ela foi diagnosticada em 2014, quando foi ao médico por causa de uma dor de estômago e descobriu que tinha um raro carcinoma de células escamosas, em estágio quatro, e que tinha se espalhado. A família foi pega de surpresa.

Eu me mudei de volta para o Oregon para ajudar a minha mãe na quimioterapia. Ao longo dos quatro meses seguintes, eu a vi desaparecer lentamente. O tratamento levou tudo – seu cabelo, seu espírito, seu apetite. Fez feridas em sua língua. Nossa mesa, antes bonita e original, se tornou um campo de batalha de proteína em pó e mingau sem gosto. Além de Vicodin (remédio para dor) esmagado no sorvete.

O jantar era um cálculo de calorias, um argumento para por qualquer coisa pra fora. A intensidade dos sabores coreanos se tornou demais para o seu estômago. Ela não podia nem mesmo comer kimchi.

Eu comecei a encolher, juntamente com a minha mãe, tornando-me tão consumida pela saúde dela que eu não tinha vontade de comer. Ao longo de sua doença, eu perdi 7 kilos. Após dois ciclos de quimioterapia, ela decidiu interromper o tratamento e morreu dois meses depois.

Enquanto eu lutava para ver sentido na perda, minhas memórias, muitas vezes viravam-se para os alimentos. Quando eu vinha para casa da faculdade, minha mãe costumava fazer Ssam galbi, um prato coreano de costela com alface. Ela marinava a carne dois dias antes de eu chegar, e ia comprar o meu kimchi de rabanete favorito uma semana antes para se certificar de que estaria perfeitamente fermentado.

Em vários verões da minha infância ela me levou para Seul. Com jet-lag e sem sono, ficávamos comendo um banchan caseiro no azul escuro da cozinha úmida da minha avó, enquanto os meus parentes dormiam. Minha mãe sussurrava: “É nestas horas que eu sei que você é uma verdadeira coreana“. Mas minha mãe nunca me ensinou como fazer comida coreana. Quando eu ligava para perguntar o quanto de água deveria usar para o arroz, ela sempre dizia: “Encha até atingir a parte de trás da sua mão“. Quando eu pedi sua receita de galbi, ela me deu uma lista de ingredientes aleatória e medidas aproximadas e me disse para apenas ir provando até que ele “tivesse com gosto de mãe“.

Depois que minha mãe morreu, eu estava tão assombrada pelo trauma de sua doença que eu me preocupava por não me lembrar mais dela como a mulher que ela tinha sido: elegante e teimosa, sempre falando o que lhe vinha à cabeça. Quando ela aparecia em meus sonhos, ela estava sempre doente.

Então eu comecei a cozinhar. Quando eu comecei à pesquisar as receitas coreanas, encontrei poucos recursos, e eu não queria confiar em qualquer coisa que estivesse disponível no mercado. Então, entre vídeos de frango e saladas orientais, eu achei uma pessoa no YouTube que personificava a cozinha de minha mãe – Maangchi. Lá estava ela, descascando uma pera asiática assim como minha mãe fazia: em uma longa faixa, com o dedo indicador estabilizado na parte de trás da faca. Ela cortava o galbi com a precisão ambidestra da minha mãe – posicionava os pauzinhos na mão direita, enquanto cortava pedaços pequenos com a esquerda. Uma mulher coreana usa a tesoura de cozinha da mesma forma como um guerreiro brande uma arma.

Maangshi, A Famosa Culinarista Coreana.
Maangshi, a famosa culinarista coreana.

Eu estava à procura de uma receita para jatjuk, um mingau feito de pinhões e arroz. É um prato para doentes ou idosos, e era o primeiro alimento que eu desejava quando meus sentimentos de choque e perda finalmente abriam caminho para a fome.

Eu segui as instruções da Maangchi cuidadosamente: molhar o arroz, quebrando as pontas dos pinhões. As lembranças da minha mãe surgiam na medida que eu trabalhava, seguindo as instruções de Maangchi, na maneira como ela ficava à frente de sua pequena placa de corte vermelha, as entonações engraçadas de seu discurso.

Para muitos, Julia Child é a heroína que trouxe o boeuf bourguignon para a era do jantar na TV. Ela mostrou para os cozinheiros domésticos como escalar a montanha da culinária. Maangchi fez isso por mim depois que minha mãe morreu.

Minha cozinha hoje está cheia de frascos contendo repolho, pepinos e rabanetes em vários estágios de fermentação. Eu posso ouvir a voz da minha mãe dizendo: “Nunca se apaixone por alguém que não goste de kimchi, pois eles vão sempre sentir o cheiro que sai de seus poros“.

Passei mais de um ano cozinhando com Maangchi. Às vezes eu pausava e voltava para seguir os passos das receitas direitinho. Outras vezes eu deixava minhas mãos e meu paladar realizar o  que eu tinha na memória. Os meus pratos não são exatamente como os da minha mãe, mas ainda assim eles são uma deliciosa homenagem. Quanto mais eu aprendo, mais perto eu me sinto dela.

Uma noite, não muito tempo atrás, eu tive um sonho: Eu via a minha mãe enfiando acelgas gigantes em vasos de barro e ela parecia saudável e bonita”.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

1 COMENTÁRIO

  1. Nossa muito bonita a historia Michelle Zauner, realmente comida de mãe e de vó não tem igual. me lembra da minha vó e o arroz doce que ela fazia nunca ninguém vai fazer igual. Historias como a dela sempre mexem comigo.
    Obrigado por compartilhar Simone Sparsbrod.

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