Em 2009, a Igreja Jusarang, no sul de Seul, instalou uma baby box (caixa de bebê, em tradução literal) para receber crianças abandonadas. No começo do ano, a igreja já havia recebido 1526 recém nascidos através dessa caixas.

A pequena escotilha, equipada para que as crianças indesejadas sejam colocadas ali, foi a primeira do tipo na Coreia do Sul, um dos países com a menor taxa de nascimento do mundo.

A maioria das mães que deixam seus bebês ali são solteiras ou sofreram violência sexual. Mais da metade delas tem 20 anos ou menos.

As mães, geralmente, deixam uma carta contando sua história devastadora e expressando o desejo de voltar, um dia. Geralmente estão desesperadas, não tem para onde ir e ninguém para pedir ajudar“, diz o reverendo Lee Jongrak, 64, em uma entrevista à Yonhap.

Reverendo Lee Jongrak próximo à “baby box”. Foto: AFP

Nesses casos, a polícia é envolvida. Depois de alguns procedimentos administrativos, as crianças são colocadas em orfanatos, casas temporárias ou em “instituições de proteção”.

Desde sua abertura, as baby boxes são cercadas de controvérsias. Críticos dizem que elas encorajam as pessoas a tomarem o “caminho mais fácil” e fugir de suas responsabilidades como pais.

Por anos, o governo pediu para que elas fossem removidas, dizendo ao reverendo que ele poderia ser acusado por ajudar e acobertar o abandono.

Lee se recusa a instalar câmeras de vigilância e regularmente limpa as digitais das caixas, impedindo, dessa forma, que os pais sejam identificados e processados.

AS INSTITUIÇÕES DE PROTEÇÃO

O Conselho de Auditores e Inspeção (CAI) da Coreia divulgou um relatório informando que, entre 2014 e 2018, mais de 96% dos 962 bebês colocados nas baby boxes foram enviados às chamadas “instalações de proteção”, que incluem instituições de proteção infantil, comunidades mistas e instalações de proteção temporária.

O CAI também afirma que apenas 13.8% desses bebês são adotados ou enviados à famílias para cuidado temporário.

A princípio, os órfãos deveriam ser enviados à famílias e as instituições seriam nada mais do que a segunda opção.

orfão
Voluntária lê com um órfão no Orfanato ShinMang Won. Foto: Paulina Cachero | GroundTruth)

O problema, segundo o CAI, é que essas crianças são deixadas nessas instituições sem nenhum procedimento ou padrão para serem colocadas para adoção. Não só isso, mas também foi apontado que os padrões e requerimentos para contratação de funcionários e chefes para essas instituições foram estabelecidos de forma precária.

Entre 2014 e fevereiro de 2019, 167 chefes e funcionários das instalações de proteção foram diagnosticados com doenças mentais severas, incluindo esquizofrenia e transtorno delirante, e 36 indivíduos foram diagnosticados com doenças mentais derivadas do abuso de álcool e drogas.

O Ministério da Saúde e Bem-estar, atualmente, restringe a contratação de criminosos e pedófilos para estas instituições, porém, não regula a contratação de alcoólatras ou usuários de drogas.

A CULTURA E VISÃO COREANA SOBRE A ADOÇÃO

A linhagem familiar é um ideal muito poderoso na Coreia. Mesmo entre gigantescos avanços econômicos e tecnológicos do último meio século, esse vestígio da filosofia confuciana ainda permanece.

Adotados, que foram removidos de sua consanguinidade, ainda sofrem um grande estigma.

Stephen Morrison viveu nas ruas da Coreia do Sul dos 5 aos 6 anos. Depois foi encaminhado a um orfanato, onde viveu por 8 anos até ser, finalmente, adotado por uma família em Utah, nos Estados Unidos. Todo o processo foi facilitado pela Holt Internationaluma agência que criou a indústria da adoção internacional como ela existe hoje.

A adoção foi uma enorme benção para mim“, diz Morrison.

Vivendo agora em Los Angeles, Morrison é presidente da Missão para Promoção da Adoção na Coreia (MPAC), um grupo que trabalha para promover a adoção e aceitação de famílias adotivas na Coreia.

Morrison junto com Reverendo Lee no tapete vermelho da Noite de Gala do MPAC. Foto: MPAK Facebook Page

Não é fácil acabar com o preconceito contra crianças adotadas na Coreia e parte disso está na cultura. Mesmo os que tem uma mente aberta com relação à adoção podem se sentir envergonhados de sua infertilidade e tentar esconder isso.

Morisson diz que alguns casais coreanos que decidem adotar podem, até mesmo, fingir uma gravidez para vender a história de que aquela criança é biologicamente sua. Por mais que isso pareça extremo, as alternativas são piores: famílias adotivas, muitas vezes, são desdenhadas por sua honestidade.

Hollee McGinnis, doutoranda cuja pesquisa é focada nas consequências educacionais para órfãos coreanos que crescem em instituições governamentais, diz que ela ouviu muitas histórias de famílias que decidiram ser honestas sobre a adoção, mas, eventualmente, resolveram esconder a história.

McGinnis, que agora mora em Seul, diz que a escolha de esconder a adoção, muitas vezes, coincide com a mudança para uma nova cidade e que a criança adotiva pode incitar essa decisão, esperando escapar o ostracismo, que pode ser severo.

Hollee McGinnis, em apresentação sobre seu estudo. Foto: Vimeo

Adotados, muitas vezes, se tornam wang-dda – termo que designa a pessoa excluída, vítima constante de bullying – na escola.

E esses são os sortudos que conseguem encontrar uma família adotiva na Coreia. McGinnis diz que, de acordo com sua pesquisa, desde 1950, apenas 11% das crianças coreanas órfãs foram adotadas por famílias do próprio país. Milhares foram encaminhadas para famílias de outros países, mas a grande maioria ficou presa em instituições governamentais, fora da visão e do coletivo coreano, num limbo onde recursos e oportunidades são escassas.

Ela ainda diz que a maioria dessas instituições não podem oferecer uma atenção focada. A maioria das crianças que crescem nelas, ao chegarem ao ensino médio, não terão oportunidades acadêmicas, sendo forçadas a seguir treinamento técnico.

Como não se preparam para os exames nacionais – outra parte da filosofia confuciana ainda vigente -, dificilmente conseguem entrar em alguma faculdade. Os poucos que conseguem, descobrem que alguns projetos governamentais cobrem as taxas de ensino, mas não acomodação, o que torna a educação superior impossível.

Com treinamento e apoio financeiro limitado, quando atingem a maioridade“, diz Morrison, “muitos acabam trabalhando como chão de fábrica, se conseguirem oportunidades, ou em trabalhos mal-pagos“.

Ser órfão é um risco, mesmo fora do trabalho“, diz Morrison. “Muitos os discriminam e, por exemplo, não deixam seus filhos se casarem com órfãos.

CONSEQUÊNCIAS INDESEJADAS

As mães solteiras, que vivem fora da estrutura de consanguinidade patriarcal, também sofrem com o estigma.

Mulheres solteiras também sofrem com uma realidade econômica desanimadora. Ecoando os argumentos econômicos feitos para empobrecer mulheres nos anos pós-guerra, as mulheres continuam sendo aconselhadas a abandonar seus filhos e dar a eles uma “perspectiva de uma vida melhor“, ao invés de serem incentivadas a criá-los sozinhas.

Mães solteiras realmente não tem uma chance“, diz McGinnis. “Há uma pressão imensa sobre elas“. Essa pressão leva muitas mulheres – algumas sozinhas, outras com seus parceiros – à baby box em Gwanak-gu.

Apesar desse cenário negativo para as mulheres solteiras, em 2012, uma lei, apoiada por coreanos adotados por famílias de outros países, passou a exigir que as mães listassem o bebê no registro familiar para que eles pudessem ser encaminhados para adoção internacional.

A listagem de uma criança indesejada no registro familiar de uma mulher pode trazer uma investigação indesejada, e afetar possíveis empregos e casamentos. Para evitar isso, um número maior delas acaba usando as caixas disponibilizadas pela Jusarang.

A baby box na Igreja Jusarang temo Salmo 27:10 escrito acima da escotilha: “Ainda que me abandonem pai e mãe, o Senhor me acolherá”. Foto: Paulina Cachero | GroundTruth

De acordo com os registros meticulosos mantidos pela igreja, de 2009 a 2012, a caixa recebia uma média de 3 bebês por mês. Depois da aprovação da lei, a média saltou para 25 a 30 bebês por mês.

Eles criaram essa lei para ajudar os adotados a encontrarem suas raízes… não tinham intenções ruins“, diz Morrison. “O problema é só que foi um tiro pela culatra. Um bem pesado. E quem se machucou? As crianças.”

Mais do que nunca, as crianças continuam sem registro, tornando-as inelegíveis para adoção internacional. Com tudo contra elas, essas crianças são enviadas aos orfanatos e às instituições de proteção e se somam às outras quase 30 mil crianças no sistema.

Muitas delas viverão em orfanatos até completarem 18 anos, quando serão consideradas legalmente adultas e passarão a viver sozinhas.


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