De acordo com os ideais confucionistas, os pais devem ser estimados por seus filhos. Por séculos, os filhos mais velhos recebiam os pais em suas casas e cuidavam deles até que falecessem. Porém, conforme o país se modernizava, as gerações mais novas se mudaram para as cidades em busca de empregos e escolas, deixando muitos pais no interior. Alguns simplesmente cessaram contato com eles.

A Coreia do Sul possui uma das populações que mais envelhece no mundo, mas os sistemas de pensão e previdência social para os mais velhos ficam atrás de outros países desenvolvidos. Quase metade dos sul coreanos com 65 anos ou mais vivem com menos da metade do salário médio nacional, e o índice de suicídio entre idosos quase que quadruplicou nos últimos 25 anos.

Apesar do dramático crescimento do país após a Guerra das Coreias de 1950 à 1953, muitas mulheres mais velhas em uma cultura patriarcal não receberam educação de igual qualidade e oportunidades de emprego durante a juventude.  Viúvas, divorciadas ou abandonadas por seus filhos, algumas agora se encontram sem nenhuma previdência social e então são forçadas a optarem pela prostituição. Algumas são pagas para beberem com os homens e apenas ocasionalmente para terem relação sexual com eles.

Idosos viúvos ou divorciados, por sua vez, procuram as mulheres para satisfazerem seus desejos sexuais ou driblar a solidão em meio ao presente preconceito contra segundos casamentos e namoro entre cidadãos mais velhos.

Uma Senhora Idosa Encontra-Se Na Pequena Praça Em Frente O Teatro Piccadilly Em Seul, Coreia Do Sul – Um Lugar Onde Prostitutas Idosas Procuram Por Clientes Abertamente Para Sexo Em Hotéis Da Proximidade.
Uma senhora aguarda na pequena praça em frente o teatro piccadilly em seul, coreia do sul – um lugar onde prostitutas idosas procuram por clientes abertamente para sexo em hotéis das proximidades. Fonte: associated press

Apesar da constante  repreensão da polícia, as chamadas “Bacchus Ladies” ainda podem ser vistas perto do tetro Piccadilly no bairro Jongno em Seul. O apelido vem de um drink energético popular que muitas prostitutas vendiam no passado.

As mulheres de meia idade ou idosas e seu clientes – ambos vistos com pena e desprezo nesse país conservador – dão um vislumbre de um lado negro do rápido crescimento e erosão dos papéis tradicionais de pais e filhos na Coreia do Sul. À medida que a crescente e ultracompetitiva classe média se tornou mais preocupada em progredir, muitos idosos e pobres foram deixados de lado.

No fim de 2013 e início de 2014, o número de “Bacchus Ladies” somou entre 300 e 400 apenas no bairro de Jongno, de acordo com Lee Ho-Sun, professor da Korea Soongsil Cyber University em Seul, que entrevistou dúzias de mulheres.

“Após a repressão policial, o número chega a cerca de 200, muitas por volta de 60 ou 70 anos“, disse Ho-Sun, com cerca de 20 mulheres estando regularmente na área da praça do teatro Piccadily. Acredita-se que outras centenas de “Bacchus Ladies” sobrevivam desta forma pelo país.

A prostituição é ilegal na Coreia do Sul e zonas de prostituição tradicionais (Red Light Districts) tem desaparecido conforme projetos de re-desenvolvimento urbano roubam o espaço de antigos bairros. Apesar das batidas policiais ocasionais, contudo, a indústria do sexo ainda prospera nas sombras.

Eu sei que não devia fazer isso”, confessou um prostituta idosa e visivelmente doente, “mas alguém pode me dizer que eu deveria morrer de fome ao invés de vir até aqui?” Ela concordou em conversar com a Associated Press em uma cafeteria próxima após não conseguir clientes, mas se recusou em dar seu nome porque sua família não sabe que ela se prostitui.

Ela começou vendendo drinks Bacchus há 20 anos atrás. Alguns anos depois, ela começou a vender sexo e continua para conseguir pagar o tratamento para artrite. Ela e seu marido vivem com seu filho, um trabalhador manual mal pago, e sua família, enquanto contam parcialmente com subsídios governamentais.

Toda mulher aqui mantém esse segredo de suas famílias”, ela desabafou. Uma das mulheres confessou que precisa do dinheiro para cuidar de sua mãe adoentada. Outra diz ser para seus filhos deficientes. Outra é analfabeta. Algumas não falam mais com seus filhos crescidos. Algumas são de etnia coreana mas de origem chinesa que vieram para Seul à procura de uma vida melhor.

Viúvas, Divorciadas Ou Abandonadas Por Seus Filhos, Muitas Mulheres Mais Velhas Se Encontram Sem Previdência Social E São Forçadas A Ingressar Na Prostituição. Algumas São Pagas Para Beberem Com Homens E As Vezes Para Terem Relações Sexuais.
Viúvas, divorciadas ou abandonadas por seus filhos, muitas mulheres mais velhas se encontram sem previdência social e são forçadas a ingressar na prostituição. Algumas são pagas para beberem com homens e as vezes para terem relações sexuais. Fonte: associated press

É uma tragédia”, afirma a professora Ho-Sun. “É como se nossas mães fossem forçadas a ganhar dinheiro porque seus filhos não as sustentam“.

Meus dois filhos ficaram com todo meu dinheiro. Eu comprei uma casa para um deles quando se casou e também gastei muito para casar minha filha”, disse uma “Bacchus Lady”, divorciada e com 71 anos, enquanto estava na praça. “Agora não nos falamos mais. Eu estou sozinha há muito tempo”.

A mulher, que também se recusou a dar seu nome por vergonha, confessou que é prostituta há muitos anos. “No primeiro ano, eu senti muita vergonha”, ela disse. “Não conseguia dormir porque ficava agonizando sobre se deveria estar fazendo isso. Até mesmo agora, eu não consigo dormir bem”.

Para os clientes homens, a maioria das vezes é uma questão de fugir da solidão. Muitos idosos foram ensinados a sacrificar suas vidas pessoais em prol da empresa e a manter suas emoções escondidas. Depois que se aposentam, eles muitas vezes têm dificuldades em preencher seus dias.

Um divorciado de 78 anos disse a AP que frequenta a praça Piccadilly todos os dias para passar o tempo. E algumas vezes se dirige para um beco quieto com uma “Bacchus Lady” para conversar e pagar cerca de $8 para tocá-la. “Eu tenho vivido sozinho por muito tempo, então esse tipo de coisa me faz sentir um pouco mais vivo” expressou  o homem, que tem praticamente nenhum contato com seus dois filhos adultos e suas famílias. Ele se identificou apenas pelo sobrenome, Jung.

Antes da repressão policial, a estação de metrô próxima a praça e o parque público perto do Templo Confucionista Jongmyo, um Patrimônio Mundial da UNESCO, eram um dos principais locais para as “Bacchus Ladies”. Depois das batidas ocasionais, as autoridades geralmente liberam as mulheres apenas com uma advertência ou uma pequena fiança, porque sabem que elas são muito velhas para recomeçarem. “Eu sinto pena delas,” expressou um policial na área, que apenas se identificou pelo sobrenome, Jeong.

A professora Ho-Sun expôs que a maioria das mulheres que ela entrevistou se envolveram com prostituição quando trabalhavam em bares de Karaokê e casas de chá na juventude. Apenas algumas foram donas de casa comuns antes de se voltarem para a prostituição na velhice.

Ninguém me disse que se tornaram prostitutas porque gostam disso” ela disse. “Eu acredito que isso é um problema social da Coreia


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