Jennifer Bowman, à direita, e Cherie Yang fazem uma pausa de uma sessão de mentoria no escritório da FSI no distrito de Mapo, em Seul. Imagem: Cortesia de Voices from the North

Este texto é autoria de Jennifer Bowman, professora de inglês dos EUA. Ela é tutora voluntária, treinadora, e doadora para a FSI – Freedom Speakers International – desde 2017.

Em meu primeiro ano na Coreia, uma colega me entregou uma cópia de um livro chamado “Nada a Invejar”. Eu me vi completamente envolvida pela história de seis norte-coreanos que, eventualmente, escaparam para a liberdade. Suas experiências na vida real me impactaram de forma semelhante a quando li pela primeira vez sobre campos de concentração nazistas, as atrocidades cometidas pelos Khmer Rouge ou os detalhes excruciantes do reinado de Idi Amin.

Mas o diferencial desta vez foi que o regime sob o qual estes humanos sofreram continua existindo. Uma rápida viagem para a DMZ [Zona Desmilitarizada] e pude literalmente olhar através da fronteira para um dos Estados mais repressivos do mundo, onde, naquele exato momento, alguém poderia ser executado publicamente por simplesmente assistir a dramas sul-coreanos.

Eu me senti obrigada a me envolver de alguma forma. Procurei toda e qualquer organização relacionada a questões norte-coreanas. Apesar da melhor das intenções, as organizações estrangeiras são geralmente limitadas no entendimento dos problemas e do que realmente causa impacto. Eu quis encontrar algo que atuasse na raiz, investindo e informando sobre a real situação. Foi exatamente isso que me levou ao TNKR, agora chamado “Freedom Speakers International” (FSI).

Embora o conceito de ensinar inglês aos norte-coreanos parecesse inicialmente algo muito simples (e francamente tedioso, nada do tipo “salvar o dia” que eu pensava que devia procurar), logo aprendi que a organização baseou as suas atividades no que era especificamente solicitado pelos próprios refugiados. Com base nas suas lutas para se adaptarem numa sociedade muito avançada e competitiva e, pela primeira vez, estarem expostos a conceitos completamente novos e estrangeiros (como a ideia dos direitos humanos), ter acesso a uma língua que prevalecia internacionalmente e que muitas vezes se baseava em um contexto global era uma ferramenta incrivelmente poderosa.

Por isso, fui à minha primeira reunião de orientação. Era evidente que esta organização não nadava em dinheiro. Todos nós fizemos as malas nesta pequena sala, muitos sentados no chão devido à falta de lugares. Tenho de admitir que não sabia o que esperar, principalmente depois que reparei no projetor que parecia ser mais velho do que eu e na tinta descascando da parede. Mas depois conheci Casey e Eun-koo. Casey Lartigue estava no comando, confiante, empenhado, determinado, não dava desculpas e sempre esteve comprometido para além do que se espera. Já Lee Eun-koo, uma pessoa menor em estatura e mais reservada, tinha uma determinação e força que chamava atenção.

Senti de repente esta onda de entusiasmo, ao perceber que tinha encontrado um projeto com tanto mérito, sendo conduzido por duas pessoas incríveis, não só com o talento e perícia necessários, mas com as qualidades de sacrifício mais importantes e tão escassas, além do compromisso incessante de dar poder aos refugiados norte-coreanos.

Durante os últimos quatro anos do meu envolvimento com a FSI, fui profundamente impactada por essa liderança. Encontraram inúmeros obstáculos que causariam muitas consequências. Eles literalmente observaram as organizações, que inicialmente os apoiaram, não conseguirem sobreviver. Mas avançaram, apesar de um saldo de conta bancária de cerca de 30 dólares em uma época.

Seguiram sem saber de onde viria a renda do próximo mês para o escritório e apesar da instabilidade e dos obstáculos que a falta de finanças pode causar, eles ainda tinham a coragem necessária para recusar potenciais doadores que vinham com acordos suspeitos. Mantiveram a integridade da sua visão e objetivos como uma organização dedicada em primeiro lugar e acima de tudo, aos refugiados. O que lhes faltou financeiramente, eles compensaram em trabalho de equipe, astúcia e implacabilidade.

Conheça o trabalho da FSI com refugiados norte-coreanos [Semana Especial Coreia do Norte]
Da esquerda para a direita, Cherie Yang, Casey Lartigue e Jennifer Bowman. Imagem: Freedom Speakers International

Não só os seus esforços têm sido benéficos para os refugiados, mas também para os voluntários. O mais notável para mim foi a minha primeira experiência de trabalho com a Cherie, que preparava um discurso para proferir num próximo ‘concurso de discursos’, o quinto dos 14 deste tipo que foram realizados pela FSI. A primeira vez que a conheci, fui pega desprevenida pela sua beleza e bom gosto. Não sei exatamente o que esperava, talvez tivesse uma imagem estereotipada na minha mente de como deveria ser um refugiado, e não era nada daquilo. Naquele momento, sabia muito pouco sobre a sua história, mas uma coisa ficou imediatamente clara: esta era alguém que não ia ser definida pelo seu passado.

Enquanto Cherie partilhava a sua história comigo, lutei com uma espécie de dissonância cognitiva que se passava na minha cabeça. Este adorável ser humano sentado à minha frente tinha sobrevivido a tanta dor, sofrimento e perda inimagináveis. Parecia tão injusto. E no entanto aqui estava ela, praticando a pronúncia adequada de “live” [viver] versus “leave” [sair], uma parte chave do discurso de 10 minutos que memorizou na sua terceira língua. Ainda tenho dificuldade em processar como uma pessoa pode passar por tanta coisa numa vida e sair dela com tanta graça. A sua história, e mais importante ainda, a sua mensagem, incorporou em mim uma humildade e respeito pela sacralidade da vida e pelo custo da liberdade.

Cherie ganhou o concurso de discursos para o qual eu ajudei a orientá-la e, mais tarde, ela deu um TEDx Talk em Londres que foi organizado pelo Casey. O seu canal do YouTube procura sensibilizar para os crimes que são cometidos na Coreia do Norte. Ela é uma força que deve ser reconhecida, e a FSI estava lá para lhe oferecer as ferramentas que precisava para falar por aqueles que são silenciados sob um regime opressivo.

Um dos projetos em que a FSI trabalha atualmente, e sobre o qual estou mais entusiasmada, é um livro que intitulado “Greenlight to Freedom” [Sinal verde para a liberdade, em tradução livre]. Casey co-escreve o livro com a refugiada Han Song-mi da Coreia do Norte, que ainda não partilhou publicamente a sua história. A combinação da amplitude e profundidade do conhecimento de Casey num contexto mundial, juntamente com a coragem da Song-mi para partilhar tais experiências pessoais com o mundo, vai fazer dar forma a um livro incrível e que abrirá os olhos. Estas duas mentes que se juntam vão contribuir para algo verdadeiramente potente.

Conheça um pouco mais do trabalho da FSI, neste posdcast (em inglês):


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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