Centenas de sul coreanos, vestindo preto, marcharam pela região central de Seul no dia 15 de outubro, em protesto contra a proposta do governo em colocar penas mais duras contra as pessoas que praticam o aborto ilegal no país.

Na versão sul-coreana do chamado “black protest” que varreu a Polônia no início de outubro, cerca de 300 manifestantes fizeram um protesto em frente ao Bosingak Bell, no coração de Seul, exigindo que o governo suspenda a proibição do aborto.

Bosingak Bell - Coreia do Sul. Fonte: google.
Bosingak Bell – Coreia do Sul. Fonte: google.

Eu sou contra o governo ter controle dos direitos reprodutivos das mulheres e, da liberdade de escolhermos o que queremos fazer com os nossos corpos”, uma manifestante que só quer ser identificada como Mullgam, de 23 anos, contou ao The Korea Herald enquanto participava da marcha.

Isso mostra o quão baixo é o status social das mulheres sul coreanas, que são discriminadas e vistas como uma ferramenta reprodutiva para os homens da nossa sociedade”, disse ela. “Quando as mulheres dão a luz a bebês indesejados, quem assumirá a responsabilidade por elas e pelos bebês?”. Ela também criticou a lei atual de aborto, que coloca que é preciso o consentimento do pai para o ato.

Manifestantes segurando cartazes durante o protesto. "Meu corpo, minhas escolhas", frase parecida com a brasileira "Meu corpo, minhas regras". Fonte: Yonhap
Manifestantes segurando cartazes durante o protesto. “Meu corpo, minhas escolhas”, frase parecida com a brasileira “Meu corpo, minhas regras”. Fonte: Yonhap

No âmbito legal, o aborto é proibido na Coreia do Sul exceto em casos de estupro, incesto, se a gestação for uma ameaça para a saúde da mulher grávida ou, quando existe a chance do bebê vir com fatores que são indesejados pelos pais, como má formação ou doença hereditária. Mas, todos os abortos – não importa de qual tipo – são ilegais após 24 semanas de gravidez.

Com o slogan de “meu ventre, meu corpo”, os manifestantes – que aparentavam ser em sua maioria mulheres entre os 20 e 30 anos – estavam usando roupas pretas, e tinham metade dos seus rostos cobertos por lenços pretos para evitar a atenção de misóginos.

A manifestação veio em meio à controvérsia sobre a proposta do governo de impor penas mais duras em quem faz, e colabora, para os abortos ilegais. De acordo com a revisão da “Lei da Mãe e da Criança” proposto pelo Ministério da Saúde e da Segurança Social, os médicos que realizam abortos ilegais podem ser suspensos por um ano, ao invés de um mês como era antes.

Os médicos da Associação Coreana de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) prometeram parar de fazer tal procedimento, a menos que o governo retire a proposta do seu plano.

Organizações a favor do direito das mulheres protestaram tanto contra o Ministério da Saúde, como contra o ACOG, argumentando que essa proposta faz as mulheres de reféns da decisão do governo, por suas opiniões não estarem refletidas no processo de tomada de decisão.

No passado o governo encorajava os abortos, mas agora, ele coloca punições duras para as mulheres que abortam, com o objetivo de aumentar a taxa de natalidade”, disse Seo Ga-Hyeon, também ativista. “Eles encorajam ou punem os abortos dependendo da política de planejamento populacional do governo. Isso mostra que eles veem as mulheres apenas como máquinas para reprodução de bebês”.

Durante uma manifestação de duas horas, os participantes cantaram e entoaram frases como “Não há sexo quando não há preservativo”, “as mulheres não são máquinas de reprodução de bebês”, e “parem de criminalizar o aborto”.

Eu nasci de uma mãe solteira. Eu nunca encontrei meu pai biológico”, disse uma ativista de 20 anos, que foi de Busan até Seul para participar da manifestação. “Minha mãe as vezes me diz que ela lamenta ter dado à luz a mim. Então eu acho que as mulheres têm o direito de viver a vida delas como querem”.

Ao compartilhar sobre sua experiência com o aborto, a artista Hong Seung-Hee chorou.

Eu mesma fiz um aborto em maio. Eu me senti depressiva e isolada. Eu fui acusada de assassinar um bebê e de não ter sentimentos pelo meu bebê”, ela disso. “Mas eu nunca matei ninguém. Eu não queria estar grávida. Eu sou mulher, esposa, mãe, mas acima de tudo, eu sou um ser humano”.

Meu útero não é uma propriedade pública que pode ser controlada pelo governo”, ela completou.

As mulheres que fazem abortos ilegais estão sujeitas a prisão de até um ano, ou a pagar uma multa de 2 milhões de wons, cerca de R$ 5.560 reais, mas os homens não recebem nenhum tipo de punição. A punição para os médicos que fazem o procedimento, pode chegar a 2 anos de prisão.

Apesar da proibição do aborto, é estimado que 200 mil abortos sejam feitos todos os anos, contudo, apenas 5% são legais.

“É injusto que homens e mulheres sejam responsáveis pela gravidez, mas apenas a mulher seja punida pela lei”, disse um homem de 27 anos. “Parece que a Coreia alcançou a igualdade de gênero, mas na realidade, os estereótipos de gênero não mudaram”.


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