Os Sul-coreanos são terrivelmente impacientes. O país passou, na velocidade de um jato, pela espetacular transformação de uma sociedade pobre agrária do pós-guerra para uma super-estrela da manufatura. Fiel ao seu temperamento nacional, a Coreia do Sul está agora agindo mais rápido do que qualquer outro país por causa de uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo.

Da economia até o exército – que depende dos recrutas para preencher suas fileiras – a situação prenuncia um desastre para o país, ao mesmo tempo que revela a dependência da Coreia do Sul de um sistema autorizado de quase-escravidão baseado na nacionalidade, que forçou trabalhadores estrangeiros a viver às margens da sociedade, mesmo que eles desempenhassem um papel econômico de vital importância.

Globalmente e historicamente, imigrantes tem sido a engenharia do crescimento. Eles compreendem 3% da população mundial, mas contribuem para 9% da produção em todo o globo. Eles também contribuem com mais dinheiro para os sistemas de previdência do que se beneficiam deles. Eles completam. Sem a imigração, por exemplo, a economia dos EUA teria crescido 15% menos do que cresceu no período entre 1990 e 2014.

A Coreia do Sul também tem reconhecido a importância do trabalho do imigrante. Desde o começo dos anos 90, o país tem empregado um número cada vez maior de trabalhadores imigrantes pouco qualificados para labutar em fábricas, construções e fazendas das quais os coreanos mais velhos estão se aposentando, e os jovens coreanos querem evitar. Em 2016 havia mais de 1 milhão de imigrantes economicamente ativos. Eles trabalham em condições difíceis e perigosas, e não podem trazer suas famílias. Ataques policias também tem levado a mortes e ferimentos de trabalhadores imigrantes.

Tudo isso por causa do chamado programa de “trabalhador convidado” – ou o Sistema de Autorização de Empregos (EPS na sigla em inglês) – que foi feito para manter trabalhadores migrantes como cidadãos de segunda classe e impedir que eles se estabeleçam permanentemente. O EPS é um instrumento oficial que permite aos empregadores praticamente explorarem trabalhadores imigrantes. Isso também tem exacerbado o racismo e a xenofobia contra aqueles que vem de países pobres e são de pele negra.

O EPS é um programa do governo feito para fazer pequenos e médios empresários encontrarem trabalhadores pouco qualificados. Lançado em 2004 para substituir o Programa Industrial de Estágio – que trouxe imigrantes, como nome sugere, como estagiários, e que portanto não recebiam salários integrais – é baseado em acordos bilaterais entre a Coreia do Sul e os governos de 15 países “em desenvolvimento”, como por exemplo Bangladesh, Cambodja, Paquistão e Uzrbequistão. O programa tem muitas falhas, incluindo dar poderes demais aos patrões, situação que permite condições favoráveis a violações dos direitos humanos.

Coreia Do Sul Precisa De Mais Imigrantes
Fonte: bbc

Os trabalhadores contratados por esse sistema não podem mudar de patrão sem uma carta de permissão. Tecnicamente, as leis trabalhistas coreanas se aplicam a eles também, mas, na prática, eles ganham menos que o mínimo legal e são constantemente forçados a trabalhar horas extras sem receber remuneração por isso. Muitos imigrantes trabalham em fazendas e pisciculturas, que são eximidas por lei das regras sobre horas extras e feriados.

Além do mais, eles só podem ficar na Coreia por até 4 anos e dez meses, o que não os torna aptos a pedir residência permanente, que só é permitida para quem reside legalmente no país a cinco anos ou mais. Eles não podem reivindicar o que contribuíram para o sistema de previdência e muitos pagam até mesmo depois de já terem deixado o país. Alguns patrões retém essa quantia por saberem que é difícil para os empregados registrarem reclamações do exterior. Não faltam histórias horríveis de imigrantes que sofreram abusos. No entanto, as vítimas costumam pensar que não podem reclamar por medo de perderem seus empregos, e consequentemente seus vistos, especialmente quando suas famílias em sua terra natal precisam do dinheiro que é ganho através desse trabalho.

Tem havido ampla condenação desse tipo de programa por parte da comunidade internacional. Em dezembro de 2018 a ONU criticou o profundo e sistemático racismo e discriminação desse sistema. Em vão. Pode parecer chocante, mas a discriminação racial não é ilegal na Coreia do Sul. O compreensível projeto de lei antidiscriminação, que protegeria inclusive minorias raciais e sexuais, está parado na Assembleia Nacional desde 2007 devido oposição de grupos conservadores, especialmente a comunidade evangélica.

Em 2014, o relator especial da ONU sobre racismo apelou ao governo sul-coreano para que aprovasse esse projeto de lei e ratificasse a convenção internacional de proteção do trabalhador imigrante. A ONU ainda está esperando.

Aparatos legais e institucionais para proteger os direitos dos trabalhadores imigrantes são importantes porque são a única maneira que eles tem de começar a se integrar em uma sociedade como iguais, sem mencionar que fazer a Coreia do Sul mais atrativa como destino de trabalho legal é o que o país precisa urgentemente.

Opositores da imigração sempre argumentam que trabalhadores estrangeiros roubam empregos dos nativos. Na verdade, o inverso é verdadeiro. Durante a crise financeira da Ásia, mesmo quando as taxas de desemprego disparavam entre os coreanos, a procura por trabalhadores imigrantes pouco qualificados permaneceu forte, tanto que o governo terminou convidando ainda mais trabalhadores estrangeiros. Nos EUA, o trabalho dos imigrantes teve como efeito levar os nativos a buscarem oportunidades mais qualificadas e mais bem remuneradas. Patrões, aproveitando as vantagens da mão de obra barata dos imigrantes, investiram em novos negócios, o que aumentou a produção e diminuiu os preços.

Coreia Do Sul Precisa De Mais Imigrantes
Fonte: wspaper

O ETS é basicamente um programa de trabalho temporário usado para cuidar do antigo e estrutural problema da escassez de mão de obra. Que o governo da Coreia do Sul – administração após administração, independentemente da orientação política – veja esse programa de trabalho temporário como parte integrante da política de trabalho do país, separado das agendas sociais e de imigração, é alarmante. É também ingênuo porque eles estão repetindo o lamentável caminho dos programas de trabalhadores convidados dos países do oeste europeu. Muitos desses trabalhadores inevitavelmente permaneceram no país, o que, na falta de políticas de integração apropriadas, levaram a crises econômicas e sociais.

Infelizmente, integração não é o ponto forte da Coreia. Metade da sua população – mulheres – ainda tem que lutar por posições de igualdade no mercado de trabalho, devido o arraigado problema de desigualdade de gênero.

A falha em integrar os “outros” é uma enorme falha em um mundo interdependente como o de hoje. O único jeito de não ficar para trás como país é manter a si mesmo o mais aberto possível, ainda que os coreanos se agarrem ao anacrônico orgulho de serem uma nação racialmente pura. Esse mito tem sido espalhado por ninguém menos que o próprio governo, que tem promovido por décadas a falsa visão de homogeneidade racial e cultural nos currículos escolares e na política. Previsivelmente, o primeiro membro etnicamente não coreano da Assembleia Nacional se tornou “a mulher mais odiada do país” apenas por causa da sua ascendência Filipina.

O fato é que a nação de um único sangue não existe, se é que algum dia existiu. Entre 2007 e 2015 o número de famílias inter-raciais dobrou, totalizando 820.000, graças ao casamento com imigrantes (muitos homens sul-coreanos tem se casado com mulheres de outras partes da Ásia). Em 2017, mais de 5% das crianças nascidas na Coreia do Sul eram de ascendência inter-racial. A diversidade já está instalada.

Alguns coreanos argumentam que eles não tem terras nem recursos naturais suficientes para dividir com estrangeiros, e a Coreia do Sul ainda por cima é um país com alta densidade demográfica. Mas o Líbano, país do Oriente Médio que tem um décimo do tamanho da Coreia e uma população de 4 milhões de habitantes, tem acolhido 1 milhão de refugiados sírios desde 2011. Um quarto da população é só de refugiados. Se o Líbano pode lidar com isso, certamente a Coreia pode.

Até 2060 a Coreia do Sul vai precisar de pelo menos 15 milhões de imigrantes para manter o crescimento populacional. Até 2065, mais de 40% da população vai ter mais de 65 anos. Atualmente, são precisos cinco trabalhadores para custear um aposentado através da contribuição do sistema nacional de previdência; em cinquenta anos, a razão vai de 1 trabalhador para 1 aposentado.

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Fonte: koogle. Tv

Dado esse contexto, trabalhadores imigrantes são uma solução a longo prazo para o deficit demográfico na Coreia, e não apenas um paliativo provisório para a escassez de mão de obra a ser descartado depois. O governo deveria apoiar a sua integração na sociedade e dar a eles a possibilidade de adquirirem plena cidadania.

Anos atrás, a Coreia do Sul, também enviou trabalhadores por todo o mundo como remédio econômico, e tem orgulho dos mineiros e enfermeiras que foram para a Alemanha e dos trabalhadores da construção que foram para o oriente médio. Essa é mais uma razão pela qual o país deveria reconhecer que os imigrantes não são perigosos, mas o medo dos imigrantes sim. Se a Coreia do Sul puder se lembrar disso, pode ter a chance de desarmar essa bomba-relógio demográfica antes dela explodir.


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