Campus da HUFS

Em agosto, Bernadette trancou as aulas de verão e se viu procurando ‘como morrer sem dor’ repetidas vezes no Google.Ela estava no terceiro ano da Dongguk University em Seul, longe de sua família e amigos de seu país natal – Filipinas. Morando na Coreia do Sul desde 2014, ela não havia conseguido construir um grupo de amigos consistente em meio a avalanche de estudantes estrangeiros que entravam e saiam da universidade, e se sentia insolada. “Frequentemente, essas nuvens negras vinham até mim,” disse Bernadette. “Um dia, eu peguei uma faca e comecei a esfaquear a parede do meu quarto.”

Seus estudos no curso de filmografia na Dongguk não estavam progredindo. Ela disse aos pais que queria voltar para casa em Manila. Pelo menos ali ela estaria com seus familiares e amigos, e poderia receber tratamento psicológico mais facilmente. Mas Bernadette, de 23 anos, já estava na sua segunda tentativa de terminar a universidade – ela havia estudado na University of the Philippines por três anos antes de trancar e receber uma bolsa governamental da Coreia do Sul. Se ela deixasse a Coreia do Sul sem se formar, todos os seus esforços iriam para o lixo, e seus pais não teriam dinheiro para pagar seus estudos nas Filipinas. Ela estava presa e arrasada por uma depressão profunda.

Sentindo-se em um beco sem saída, sem nenhum lugar para recorrer à ajuda psiquiátrica, ela foi até o Escritório de Assuntos Internacionais da universidade Dongguk. “Eles simplesmente me ignoraram. Eu havia ido ali para chorar…chorar por ajuda, mas não recebi nenhuma,” disse Bernadette. Ela fez uma viagem de duas semanas para as Filipinas, para descansar e passar um tempo com a família, na esperança de recuperar as energias e retomar seus estudos em um estado mental melhor. De volta a casa, ela começou a tomar Escitalopram, um antidepressivo.

Um dos efeitos colaterais da droga é o risco de um maior impulso suicida. Ao retornar à Coreia do Sul na última semana de agosto, sua depressão não melhorou – ela se sentia ainda mais sem esperança. “Me sentia uma fracassada. Me mudei com a ideia de seguir meus sonhos, mas essa vida não condizia com nenhuma expectativa que tinha.” Cerca de uma semana depois, ela decidiu terminar com a luta. Em seu quarto em Daehangro em Seul, Bernadette ingeriu mais de 20 comprimidos de Escitalopram em uma tentativa de suicídio. Imediatamente após engolir a medicação, ela enviou uma mensagem para seu namorado, um estudante francês em Seul, dizendo: “Eu tomei os comprimidos. Todos eles.

Estudar na Coreia do Sul

Universidades em países ao redor do mundo se esforçam para atrair estudantes estrangeiros. Estes pagam uma mensalidade maior, e são, portanto, um reforço no orçamento das instituições.

Em uma era onde nome e ranking internacional são cada vez mais importantes para as universidades, o crescente número de estudantes estrangeiros é um dos fatores que as universidades usam para se estabelecer no cenário internacional como instituições globais.

O número de estudantes estrangeiros na Coreia do Sul cresceu de 12.314 em 2003 para 104.262 este ano, de acordo com dados do Ministério da Educação. O Visit Korea, um site do governo, denomina o país como destino ideal, dizendo “A Coreia continua atraindo estudantes estrangeiros inspirados pela beleza e tradições do país ou que desejam conhecer ainda mais a Coreia.

Mas o caso de Bernadette demonstra uma situação na qual as universidades sul coreanas procuram com persistência estudantes estrangeiros, porém, nem sempre oferecem infraestrutura para que estes possam se ajustar a uma sociedade tradicionalmente homogênea, onde a proficiência em línguas estrangeiras não é difundida de modo amplo, e até mesmo instituições grandes como universidades não possuem histórico positivo de integração de minorias.

Rennie Moon, professora Associada da Faculdade Internacional Underwood na Yonsei University e co-autora de “Internationalizing Higher Education in Korea”, descreve como os esforços do governo para atrair estudantes de outros países como sendo “prático e instrumental” ao invés de genuinamente motivado.

Para universidades com dificuldades financeiras, estudantes internacionais preenchem as quotas em queda de estudantes coreanos. Para todas as universidades na Coreia, eles ajudam a atingir padrões quantitativos de internacionalização (com o número de estudantes estrangeiros) para alavancar tanto ranking nacionais quanto internacionais,” disse Moon ao Korea Exposé.

Uma Mistura

É um erro generalizar as experiências de estudantes estrangeiros em universidades sul coreanas. Pessoas de diversos países vem para estudar, com diferentes objetivos, e ter uma amplitude de experiências. Alguns vem por apenas um semestre ou dois para estudar a língua coreana, e outros, como Bernadette, aceitam bolsas governamentais para cursar programas de 4 anos. Alguns ainda vem para programas de doutorado ou mestrado.

Na Coreia do Sul existe uma grande diversidade de universidades, desde instituições competitivas e de alta escalão como a Seoul National University e KAIST, até universidades pequenas que quase não conseguem manter as portas abertas devido a falta de admissões. As experiências de estudantes estrangeiros variam de modo significativo de acordo com seus objetivos de estudo no país e em que tipo de universidades ingressam.

Cassandra Schachenmeyer, formanda da Universidade de Nebraska em Kearney, estudou em Seul duas vezes. Uma na Hankuk University of Foreign Studies e outra na Chung-Ang University, duas universidades com sistemas de auxilio muito diferentes. Cassandra disse ao Korea Exposé que durante sua estada na HUFS, ela conseguiu se ajustar facilmente devido ao programa de estudantes voluntários que até a ajudaram a conseguir um cartão de celular pré-pago.

Porém na Chung-Ang, ela disse que um estudante coreano foi designado para ajudar 12 estudantes estrangeiros. Os alunos tiveram que resolver questões de visto, seguro de saúde, abrir contas em bancos e decifrar o sistema de aulas e notas sozinhos.

Henri Eloranta, que foi para a Keimyung University em Daegu na primavera de 2016, descreve sua estadia no país como a melhor época de sua vida, e afirma que se ajustar não foi problema. “O escritório de assuntos internacionais cuidou de todos. Um dos funcionários até convidou todos os alunos para um jantar em comemoração ao nascimento de sua filha,” Eloranta disse ao Korea Exposé.

Joanna Christine Chua, uma estudante de graduação da Ewha Womans Univeristy do curso filme e televisão, disse que um fator importante é ir ao país como estudante de intercâmbio. “Eles ajudam muito estudantes de intercâmbio, mas como estudantes regulares, temos que fazer mais coisas sozinhos,” afirmou Chua.

Nellie Sung foi para Yonsei University em Seul para estudar entre 2000 e 2001, e disse que quanto a ajuda para adaptação, “Não havia ninguém além dos amigos que fiz no dormitório internacional… A [Yonsei] tinha um programa de Host Family que gostei muito. Eles distribuíam estudantes estrangeiros para famílias coreanas locais, para ajuda-los.

Mas Sung também questionou a necessidade de uma infraestrutura robusta para ajudar alunos estrangeiros. “Não é esse o ponto de ser um estudante internacional? Aprender a se ajustar a uma nova cultura, ambiente, e etc faz parte da experiência de educação internacional.

Raiva e Confusão

Depois de receber a mensagem de Bernadette, seu namorado foi até seu apartamento onde, depois de perceber que ela não atendia a porta, ele arrombou a porta e forçou a entrada. A enorme dose de Escitalopram havia resultado em uma convulsão. Ele insistiu que ela vomitasse para retirar as pílulas de seu organismo, mas ela recusou e afirmou estar bem, apenas uma pouco desidratada e cansada.

Na manhã seguinte, sua condição piorou. “Eu estava drogada. Não parava de tremer dos pés à cabeça”, ela disse em uma entrevista em uma cafeteria em Seul.

Bona Mae Sinba, colega de Bernadette desse 2014 e estudante de Estudos Internacionais na Ewha Womans University em Seul, recebeu um telefonema de Bernadette pedindo ajuda. Com outro colega, Sinba buscou Bernadette de táxi. “Estávamos assustados porque ela disse que estava tremendo, com frio e calor ao mesmo tempo,” disse Sinba.

Eles a levaram para o Yonsei Severance Hospital. Lá, Bernadette se recorda de ver suas unhas ficarem azuis devido a falta de oxigênio. Ela passou por ressuscitação com fluídos e recebeu alta no dia seguinte. “Quando estava mais estável, meus pais me ligaram e todos estavam chorando do outro lado da linha.

Dongguk

O campus espaçoso e arborizado da Dongguk University ocupa uma área nobre do centro de Seul, à sombra da Montanha Namsan. A universidade foi fundada por Budistas e possui um templo grande e ornamentado no campus. Em uma manhã de outubro, monges Budistas com cabeças raspadas, vestidos com roupas religiosas, andavam entre os estudantes apressados para as aulas. Um grupo de jovens chineses fumavam ao lado de fora da Secretaria de Assuntos Internacionais.

Dentro, alguns jovens funcionários estavam sentados atrás do balcão. De acordo com o site, a secretaria “vai se esforçar para fornecer um serviço completo para os estudantes internacionais.

Um funcionário confirmou que Bernadette havia visitado o escritório e disse que o funcionário que a atendeu havia marcado um encontro de aconselhamento, ao qual ela não havia comparecido. E disse que Bernadette não compareceu por não se sentir à vontade com o professor designado. A secretaria ainda não respondeu oficialmente as perguntas do Korea Exposé.

Moon, co-autor de “Internationalizing Higher Ed”, disse que as universidades sul coreanas não estão de modo geral equipadas para fornecer aos estudantes como Bernadette a assistência necessária. “Quando os estudantes expõem seus problemas, todos são simplesmente enviados a um escritório de assuntos internacionais geral, onde serviços profissionais como aconselhamento para saúde mental não estão disponíveis,” disse Moon.

“Nada contra minha escola”

Bernadette está afastada da universidade até março, quando o novo semestre começa na Dongguk. Ela tem mais três semestres para se formar.

Depois da entrevista de manhã, ela enviou uma mensagem elaborada sobre como se sente atualmente em relação a sua experiência de buscar ajuda na Dongguk e sobre seus estudos no país de modo geral. “Eu não tenho absolutamente nada contra minha escola e contra aqueles que me ofereceram a bolsa…eles tentaram me ajudar de algum modo no final.” Ela disse estar grata à Dongguk por permitir que ela se afastasse sem prejudicar sua bolsa de estudos. “Apesar de querer que estivessem mais presentes naquela hora quando eu mais precisava e quando busquei ajuda,” ela escreveu.

Nota do Koreapost: Como temos visto em outros posts, inclusive de brasileiros que já estudam na Coreia, viver em outro país não é sempre um mar de rosas. Porém, quanto mais o estudante se familiarizar com a cultura coreana antes de decidir estudar lá, melhor irá ajustar-se e por isso, o Koreapost pretende prestar sempre toda e qualquer informação sobre o tema.

Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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