O tema inclusão já poder ser considerado o assunto que definiu as primeiras décadas do século XXI. Em outras palavras, como agregar as diferenças em uma sociedade mundial que ainda carrega uma estrutura social bastante conservadora e segregada, proveniente dos séculos XX e, porque não, XIX? Conviver com a deficiência mental e física é um questionamento bastante polêmico que o sistema escolar público e privado que países como Coreia e Brasil ainda travam intenso debate. Na realidade, busca-se encontrar a forma mais eficaz que garanta aos alunos, portadores de alguma deficiência mental, educação de qualidade e integração ao contexto social. Tanto na Coreia do Sul, quanto no Brasil os pais de crianças especiais encontram-se em luta constante para garantir aos filhos melhores oportunidades de vida. No entanto, enfrentam barreiras impostas por uma sociedade que pouco deseja, ou tenta compreender as limitações alheias. Aqui vamos discorrer como esta questão vem sendo tratada na sociedade coreana.

Conforme a reportagem desenvolvida por Bak Se-hwan e publicada no The Korea Herald (KH), existe ainda um grande receio dos pais com relação ao tratamento que os filhos podem vir a ter dos colegas, dentro da sala de aula. A mãe Park Hyun-soo diz ser assombrada pelo pensamento de que a filha possa ser intimidada por colegas de classe ou ser deixada só, sem amigos. A menina de 12 anos tem Transtorno do Desenvolvimento, em que interações sociais podem ser extremamente difíceis. De acordo com Bak: “Ela não pode falar, andar muito bem e às vezes grita, aparentemente sem qualquer razão. Minha filha precisa de atenção constante durante as aulas. É difícil para ela manter o foco, especialmente em uma sala de aula de educação regular”, afirma Park.

A mãe não matriculou a filha em uma escola especial em razão da distância para chegar à instituição e a falta de vagas. Para os pais que desejam ter seus filhos frequentando escolas especializadas, o governo e a sociedade sul-coreana parecem ainda estar longe de atender tais demandas e compreendê-las. Segundo os dados do Ministério da Educação utilizados pelo jornal, existem 174 escolas especiais, públicas e privadas, que acomodam menos de 30% das 89.353 crianças em idade escolar com deficiências mentais e físicas na Coreia. Daqueles que estão nestas escolas mais de 2.300 levam uma hora, no mínimo, para chegar às aulas. De acordo com grupos defensores dos direitos de cidadãos portadores de doença mental, em uma declaração ao KH, as escolas regulares carecem de apoio básico e outras necessidades mais particulares como fisioterapia, aconselhamento ou planos de tratamento médico de que os estudantes com deficiência precisam.

 

Lee Eun-ja, vice-presidente da Rede de Pais Coreanos para Pessoas com Deficiências, também em entrevista à publicação online, enfatiza que as escolas especiais podem preparar melhor as crianças deficientes para viverem de forma mais independente. “A formação profissional individualizada é essencial para os alunos com deficiências, porque pode ajudá-los a construir uma carreira adequada“, disse Lee. Segundo o KH, o Ministro da Educação, Kim Sang-kon, anunciou um plano para construir 18 novas escolas especiais em todo o país nos próximos cinco anos. “Ainda parece haver muitos preconceitos e mal-entendidos em relação não apenas às pessoas com deficiência em nossa sociedade, mas também a outros grupos sociais minoritários, como famílias multiculturais e desertores da Coreia do Norte“, disse Kim em uma escola pública especial em Seul. Ainda segundo o Korea Herald, o deputado Yu Seong-yep que preside o comitê de educação parlamentar, quer fornecer serviços de educação adequados a todos os estudantes, o que acredita ser garantia de um direito humano básico. “Precisamos de uma lei que garanta a educação especial e serviços relacionados a dezenas de milhares de crianças e jovens com deficiências”, acrescentou Yu.

No entanto, ainda há falta de consenso com relação a manter as crianças em escolas especializadas ou seguir com a integração em colégios regulares. Como reporta o KH, para Doh Woo-gyung, residente em Busan, mãe de uma criança de 14 anos com lesões cerebrais, seu filho deve permanecer em uma escola publica não especializada. Em uma entrevista para o diário, ela afirma que gostaria de ver o filho terminar o ensino médio com colegas não deficientes, pois ele terá de sobreviver em uma sociedade em que a maioria não apresenta deficiência mental mais grave. As palavras da mãe entram em consonância com as do professor de educação especial Cho Hong-joong, da Universidade Nacional de Chonnam, em Gwangju: “O ambiente das escolas gerais é muito útil para os deficientes, uma vez que os estimula educacionalmente. Eles não apenas têm chances de adquirir conhecimento, mas também aprendem a interagir com os não deficientes”.

Trata-se de um debate mundial que se encontra também em nosso país. Para o especialista brasileiro em direito e acessibilidade das crianças com deficiência no ensino regular, Dione Silva de Castro, em artigo escrito ao site JusBrasil, a escola especializada deve servir apenas de complemento à educação de crianças deficientes e não substituir a escola regular : “muitos ainda entendem que as escolas especializadas são modalidades de escolarização, interpretando que a melhor forma de educar uma criança com deficiência seria em uma escola “segregada”, ou seja, uma escola especializada em determinada deficiência. Este paradigma vem sendo derrubado, neste momento podemos afirmar que a Educação Especial vem sendo entendida como uma modalidade de ensino que se objetiva a ajudar o aluno com deficiência a quebrar barreiras que o impede de exercer sua cidadania. Assim sendo, a Educação Especial é um complemento da escolarização, não pode ser exercida para substituir a educação regular. Se assim for, é preciso batalhar para que não ocorra”.

De qualquer forma tanto na Coreia, quanto no Brasil, a maior barreira parece ser a falta de compreensão social. No caso específico sul-coreano, conforme o Korea Herald, ainda que existam esforços do governo para integrar as pessoas com deficiência e sem deficiência em sala de aula, a falta de apoio prático para alunos com deficiências nas escolas em geral está levando os deficientes a procurar alternativas. Isso ocorre mesmo com a criação do conceito de “classe inclusiva”, introduzido com a lei de promoção de educação especial em 1994 que almejava proteger os direitos educacionais dos alunos com necessidades especiais e garantir que eles aprendessem junto com os estudantes sem deficiência. A realidade é que para atingir tal meta seria preciso o apoio total aos alunos especiais, mas há falta de mão de obra e medidas necessárias para abranger os vários tipos de doença. Somado a isso, muitas escolas ainda tendem a administrar o ensino para o aluno deficiente em salas de aula separadas. Cerca de 9.900 salas de aula de educação especial estavam operando nas escolas gerais do país em 2017, um aumento de 42% em relação a 2007, segundo o Korea Herald.

Até a pré-adolescência a convivência entre alunos deficientes e não deficientes parece dar-se de forma mais harmônica. Porém, nas séries mais avançadas do ensino fundamental e depois no ensino médio, as dificuldades parecem cada vez mais incluir barreiras intransponíveis que levam aos pais de crianças especiais a procurarem instituições de ensino especializadas. Contudo, mesmo aceitar a construção de novas escolas destinadas a este público parece ser um problema ainda entre os sul-coreanos. Ano passado, os pais e defensores dos direitos dos deficientes entraram em conflito com os moradores de Gangseo-gu. Estes últimos exigiam o cancelamento do plano que visava a construção de uma escola especial na região, e reivindicavam em seu lugar, erguer um centro médico estatal.

Em uma sociedade onde o número de deficientes chegou a 2.4 milhões, uma conscientização é mais do que necessária e parece ser o caminho mais correto a integração, mesmo que se dê a longuíssimo prazo. “Muitos estudantes sem deficiência e seus pais acham que estão dando espaço e tempo para os alunos com deficiência. Mas isso não é verdade. Eles ignoram que os deficientes também têm direitos educacionais”, disse Doh, a mãe do filho com lesões cerebrais ao jornal Korea Herald. Para muitos pais, o entendimento é mais útil do que qualquer outra coisa para a verdadeira integração. Em entrevista a mesma publicação online Choi Seong-bun, mãe de uma menina de 13 anos com autismo salienta: “Quando um aluno com um distúrbio do desenvolvimento grita de repente na sala de aula ou sai da sala de aula, há uma necessidade de um certo nível de conscientização em relação aos alunos sem deficiência para que possam entender e aceitar o comportamento. A ideia de classe inclusiva não é apenas para estudantes menores de idade, mas para toda a comunidade. O que muitos pais esperam é a verdadeira integração de seus filhos deficientes na sociedade após a graduação”.


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