Crescendo na Coreia do norte, Park Yeonmi não sabia o que era amor e amizade.

Todo mundo era apenas “colega” e sentimentos de adoração eram reservados ao líder do regime autoritário. Seus pais nunca disseram que a amavam.

Ver pessoas morrendo de fome nas ruas e sem eletricidade, era parte do dia a dia de Park, vivendo escondida na escuridão e frio congelante.

Park é só uma das centenas de desertores da Coreia do Norte que escaparam para os Estados Unidos. Ela e sua mãe fugiram em 2007, quando ela tinha apenas 13 anos de idade.

Agora com 26 anos, Yeonmi Park vive em Chicago e é uma ativista dos direitos humanos. Em uma entrevista para o The Post, ela descreveu o inferno que é crescer em uma das ditaturas mais brutais do mundo, chamada de holocausto moderno.

Yeonmi Park, Desertora da Coreia do Norte, fala da vida difícil no regime de ditadura [Semana Especial Coreia do Norte]
Yeonmi Park agora com 26 anos, vive em Chicago e é ativista em direitos humanos. Fonte: BBC

O que você precisa saber sobre a Coreia do Norte é que não é como outros países, como Irã ou Cuba“, disse ela. “Nesses países, a população tem algum tipo de entendimento de que eles não vivem normalmente, e que eles estão isolados e não estão seguros“.

Mas a Coreia do Norte foi completamente isolada do resto do mundo, é literalmente um reino eremita. Quando eu estava crescendo lá, eu não sabia que eu estava isolada, eu não sabia que eu estava rezando para um ditador”.

Quando criança, Park e sua irmã foram ensinadas que o então falecido líder, Kim Jong-il, e seu filho, Kim Jong-un, eram os Deuses. “Somos ensinados que eles tem o poder de ler os pensamentos das pessoas. Isso faz com que os cidadãos comuns fiquem com medo de falar ou pensar mal dos tiranos brutais“.

Yeonmi Park, Desertora da Coreia do Norte, fala da vida difícil no regime de ditadura [Semana Especial Coreia do Norte]
O falecido Kim Jong-il (esq) e seu filho e atual ditador, Kim Jong-un (dir). Fonte: Trivela

Na escola, as crianças eram ensinadas a contar usando métricas como, “bastardos americanos”. Além disso, as crianças eram forçadas a fazer “sessões de crítica”, onde eles atacavam e achavam falhas em seus colegas de classe, trazendo desconfiança e divisão.

Não temos amigos na Coreia do Norte. Temos apenas colegas. Não há o conceito de amigo“, disse Park.

Embora o mundo esteja familiarizado com o programa mortal de testes nucleares de Kim Jong-un, Park é uma das poucas desertoras que conseguiu sair viva e conseguiu denunciar as condições terríveis dentro do regime comunista.

Yeonmi Park, Desertora da Coreia do Norte, fala da vida difícil no regime de ditadura [Semana Especial Coreia do Norte]
Armamento nuclear. Fonte: EurekAlert

Aproximadamente 40% da população do país, ou seja, mais de 10 milhões de pessoas, estão passando fome e enfrentam grave escassez de alimentos, de acordo com as Nações Unidas.

Park cresceu comendo insetos para sobreviver e põe a culpa a família de Kim Jong-un, por deixar seu povo morrer de fome. Tanto seu tio quanto sua avó morreram de desnutrição.

Você vê muitas pessoas morrendo. É normal ver corpos nas ruas. Era uma coisa normal para mim. Eu nunca pensei que era uma coisa incomum“, disse Park.

Eu visitei favelas em Mumbai e também em outros países, mas nada se compara a Coreia do Norte porque a fome lá, é uma fome sistemática de um país que escolheu nos matar de fome“, continuou Park.

Yeonmi Park, Desertora da Coreia do Norte, fala da vida difícil no regime de ditadura [Semana Especial Coreia do Norte]
Crianças norte coreanas desnutridas. Fonte: Soapboxie

A Coreia do Norte gasta bilhões de dólares para esse sistema de teste nuclear. Se eles destinassem 20% do que eles gastam fazendo armamento nuclear, para alimentar a população, ninguém teria que morrer de fome na Coreia do norte, mas o regime escolheu matar a gente de fome“.

Depois de fugir e cruzar a China sob o congelante Rio Yalu, a mãe de Park foi estuprada por  traficantes de pessoas. As duas foram vendidas para chineses, sendo que eles pagaram menos de $300 por elas.

As duas procuraram desesperadamente pela irmã mais velha de Park, que tinha fugido antes. Elas conseguiram trazer o pai de Park para o outro lado da fronteira, mas ele morreu mais tarde de câncer de cólon.

Com a ajuda de missionários cristãos, Park e sua mãe fugiram para a Mongólia, cruzando o Deserto de Gobi e acharam refúgio na Coreia do Sul, onde elas conseguiram encontrar a irmã mais velha.

Park continuou a estudar em Seul antes de se mudar para Nova York, em 2014, onde ela começou a palestrar contra o regime de Kim Jong-un, arriscando sua própria segurança. Muitos de seus familiares desapareceram.

Eu não sei se eles foram executados ou foram para campos prisionais, então eu não estou livre. Mesmo depois que ter passado por tudo isso, eu não estou livre do ditador. E isso é uma coisa muito pesada para mim“, disse Park.

Numa entrevista para o The Post, Park pediu para a comunidade internacional condenar o apoio da China ao regime, e disse que suas fontes em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, confirmaram que Kim está vivo e bem, apesar dos relatos que ele estaria em coma.

Yeonmi Park, Desertora da Coreia do Norte, fala da vida difícil no regime de ditadura [Semana Especial Coreia do Norte]
A Coreia do Norte é patrocinada pela China. Na foto, o ditador Kim Jong-un com Xi Jinping. Fonte: Uol

Os ativistas dos direitos humanos se estabeleceram em Chicago, onde ela vive com seu marido e seu filho pequeno.

Apesar de sua história angustiante, ela é grata por ter nascido na Coreia do Norte.

Se eu não tivesse nascido naquela opressão e completa escuridão, eu acho que eu não conseguiria ver uma luz aqui. Eu acho que as pessoas aqui, as vezes não enxergam a luz e só conseguem ver a escuridão, porém e eu consigo ver muita luz“, ela completa.

Eu me sinto tão grata que vejo um país como se fosse um planeta diferente“, finaliza Park.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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