Mural do Artista Brasileiro Eduardo Kobra, intitulado "“Coexistência – Memorial da Fé por todas as vítimas do Covid-19”, na Zona Oeste de São Paulo. Foto: SEGS

Acompanhem a crônica do colunista do Korea Herald, David A.Tizzard, sobre os acontecimentos envolvendo o governo coreano e os estrangeiros, na época do Halloween.

“Cerca de 10 dias atrás, eu comecei a ver telejornais locais alertando seus telespectadores que o número de infecções da COVID-19 poderia aumentar durante esse Halloween, insinuando que os estrangeiros estariam em Itaewon festejando e não respeitando as regras de distanciamento social do país. A narrativa que estava sendo construída era ambígua e equivocada. Além de partir de estereótipos e crenças prontas. Essa situação era facilmente divulgada e aceita sem muita dissonância cognitiva ou pensamento. Além disso, era inteiramente comunicada em coreano e obviamente não era muito observada pela população não-coreana do país.

Estrangeiros, Halloween e Xenofobia na Coreia
O Halloween em Itaewon este ano, teve muitas referências à Squid Game. Foto: Korea Times

Nos últimos dias, vimos a população de residentes estrangeiros se tornarem mais conscientes destes relatos. Tem havido protestos contra o que é visto como atitudes pouco hospitaleiras para com os de nacionalidade estrangeira que vivem e trabalham aqui. Outros apontam para a hipocrisia das orientações de relaxamento das medidas durante o feriado  tradicional de Chuseok, só para restringí-las depois num feriado ocidental, e começar um sistema de “vivendo com o COVID-19” logo depois.

Ao contrário do que os meios de comunicação oferecem, me abstive de falar sobre os regulamentos da COVID-19 porque não tenho formação no terreno e não possuo quaisquer qualificações epidemiológicas. Contudo, esta situação atual parece apontar para um par de questões claras na sociedade coreana. A primeira é o termo levianamente abrangente de “estrangeiro” (“oegukin”, em coreano). Já explorei este conceito antes, tentando permanecer sensível aos desenvolvimentos históricos e culturais coreanos, mas sugerindo também que, embora a Coreia exija que o Ocidente aceite mais os seus próprios produtos culturais, talvez também possa retribuir de alguma forma.

Segundo ponto, é a ideia de que “só os estrangeiros” celebram a festa de Halloween e “só os estrangeiros” estariam em Itaewon. Se voce estiver aqui há tanto tempo como eu, saberá que estas declarações costumavam ter alguma verdade para eles. Mas não mais, e não por muito tempo. A Coreia mudou. As percepções dos jovens coreanos sobre o Halloween mudaram, e Itaewon mudou definitivamente. A ideia de “só os estrangeiros” festejarem o Halloween em Itaewon é uma visão realmente ultrapassada da realidade construída, penso eu, sobre a ignorância e não sobre a malevolência.

Apesar dos meus melhores esforços, este artigo não vai ajudar, e as notícias televisivas coreanas não vão ajudar. O problema que parece ter é que vários lados desta conversa não se estão ouvindo uns aos outros. Não é uma polarização política ou cultural da mesma forma que a sua tia se tornou uma conservadora e o seu sobrinho um defensor do MST. Em vez disso, o que temos é uma polarização linguística. É o povo coreano falando com outros coreanos sobre estrangeiros e depois, simultaneamente, os estrangeiros falando com outros estrangeiros sobre o povo coreano.

Estas conversas obviamente dão voz às pessoas e as ajudam transmitir os seus medos e queixas, mas não promovem a comunicação entre os dois grupos. É essa falta de interação que então produz ignorância do outro, uma dependência de estereótipos, e uma situação como a que vimos na semana do Halloween.

O diretor Bong Joon-ho observou que as pessoas precisam ultrapassar a barreira das legendas de 3 centímetros. Aqui, de modo semelhante, precisamos ultrapassar as nossas próprias barreiras linguísticas e começar a trabalhar para uma maior comunicação com outras pessoas à nossa volta na sociedade. Não há uma solução fácil para o problema, nem uma forma fácil de fazer com que as pessoas comecem subitamente a falar através da divisão linguística.

É claro que é muito fácil exigir que outras pessoas façam mudanças e que façam mais para nos ouvirem. Mas a mudança duradoura começa dentro de si. Deve começar com os esforços dos residentes de nacionalidade estrangeira em se comunicar com os coreanos na Coreia no idioma deles, ou seja, em coreano, se ainda não o fizeram. Talvez se o fizermos, o próximo Halloween possa ser um pouco mais acolhedor.”

Estrangeiros, Halloween e Xenofobia na Coreia

O Dr. David A. Tizzard ([email protected]) tem um doutorado em Estudos Coreanos. É um comentarista social/cultural e músico que vive na Coreia há quase duas décadas. É também o anfitrião do podcast Korea Deconstructed, que pode ser encontrado online. Os pontos de vista expressos no artigo são do próprio autor e não refletem a direção editorial do The Korea Times ou do Koreapost.

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As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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