De relance, parece um café qualquer próximo à uma estação de metrô. Mas um olhar mais atento revela que um lado de suas paredes está cheio de livros sobre feminismo e a maioria das convidadas na cafeteria são mulheres na faixa de 20 a 30 anos.

Em uma tarde recente de quinta-feira, três mulheres na faixa dos 20 sentaram-se a mesas e discutiram sobre a discriminação sexual sutil nas obras literárias. Uma delas, a qual quis ser identificada apenas pelo sobrenome Lee, veio de Chuncheon, a 85 quilômetros a leste de Seul, numa viagem de um dia para visitar este lugar único, inaugurado no mês passado.

De uma cafeteria feminista a uma editora especializada em questões femininas, as fronteiras do feminismo na Coreia do Sul estão se expandindo, com mais pessoas se declarando feministas.

O café, que abriu no mês passado, tem aproximadamente 650 livros relacionados ao feminismo e realiza regularmente vários eventos, incluindo seminários, sobre questões feministas. Foto: Yonhap
O café, que abriu no mês passado, tem aproximadamente 650 livros relacionados ao feminismo e realiza regularmente vários eventos, incluindo seminários, sobre questões feministas. Foto: Yonhap

De estudantes do ensino médio às mulheres que trabalham, muitas pessoas vêm aqui e dizem que querem aprender mais sobre o feminismo“, disse Kim Ryeo-il, dona do Cafe Doing. “A maioria delas diz que se tornaram feministas nos últimos um ou dois anos, especialmente depois do caso de homicídio no Gangnam“.

Em maio de 2016, uma mulher de 22 anos foi esfaqueada até a morte por um completo estranho perto de uma das estações de metrô mais movimentadas do país em Seul. Dezenas de milhares de mulheres saíram às ruas depois que uma investigação policial revelou que o homem de 34 anos, identificado apenas pelo sobrenome Kim, esperara cerca de 50 minutos para uma mulher aparecer em um banheiro onde o assassinato ocorreu.

Os promotores estatais se recusaram a definir o caso como um crime de ódio contra as mulheres, dizendo que não há definição fixa para tal coisa. Isso foi, no entanto, uma experiência chocante para as mulheres sul-coreanas, levando muitas delas a dar atenção às questões das mulheres e identificar-se como feministas.

Este incidente infeliz foi um catalisador para uma explosão de raiva e ansiedade latentes entre as mulheres sul-coreanas“, disse Baek Mi-sun, chefe da Associação de Mulheres da Coreia do Sul.

A explosão – pessoas que tomaram as ruas colocando dezenas de milhares de mensagens “Post-it” de pêsames na parede de uma saída de metrô – deu às pessoas um sentimento de simpatia e um sentimento de solidariedade“, disse ela.

Esta foto fornecida por Cafe Doing mostra as visitantes em sua cerimônia de abertura em Seul em 4 de fevereiro de 2017. Foto: Yonhap.

A estudante de pós-graduação Lee Min-kyeong é outra que foi motivada a tomar medidas pelo trágico incidente. Ela escreveu um livro e abriu uma editora especializada em questões e problemas das mulheres no ano passado.

Seu livro “Retome a língua: Como lidar com um sexista” publicado em julho foi escolhido como o melhor livro do ano por muitos editores e jornais.

O livro, lançado dois meses após o incidente de Gangnam, foi saudado pelos leitores. Cerca de 25.000 cópias foram vendidas até o final de fevereiro, um registro raro para um livro impresso por uma empresa editorial composta de quatro pessoas.

O feminismo foi algo empurrado para as margens“, disse Lee à Agência de Notícias de Yonhap em uma entrevista recente. “Mas hoje em dia, recebo mensagens de alunas do ensino fundamental e médio que se apresentam como feministas, e sinto que o feminismo está entrando no centro de nossa sociedade“.

Esta foto feita dia 2 de março de 2017, mostra o livro dos visitantes no Café Doing em Seul preenchido com mensagens, expressando, em sua maior parte, a gratidão pela abertura do café. Foto: Yonhap

A redes sociais estão no centro da popularização do feminismo, dizem os especialistas. “Nossa sociedade ainda permanece hierarquicamente offline“, disse a professora Yun Ji-yeong no Instituto de Cultura Corporal da Universidade Konkuk em Seul.

As pessoas não podem apenas expressar suas ideias mais livremente on-line, mas plataformas on-line são muitas vezes muito mais epidêmicas e influentes“, disse ela. “Agora vemos discussões não apenas on-line ou offline, mas interagindo além de seus limites“.

Ainda assim, a sensibilidade do governo quanto ao gênero está aquém da discussão em curso entre o público. No final do ano passado, o Ministério do Interior foi acusado de lançar um site para o que chamou de “mapa de nascimento”, indicando o número de mulheres em idade fértil, ou entre 15 e 49 anos, por região.

O site foi encerrado no dia seguinte, após uma intensa crítica do público por tentar culpar as mulheres pela baixa taxa de natalidade do país. “O incidente foi um exemplo direto que refletiu como os órgãos governamentais, as autoridades notam as mulheres“, disse professora Yun. “Ainda assim, um aspecto otimista poderia ser que ele mostrou que as pessoas não estão mais dispostas a se conformar ou ficarem quietas.”

Demonstrações de solidariedade na estação de metrô de Gangnam, onde ocorreu o homicídio. Foto: Yonhap

No dia internacional da mulher, o governo metropolitano de Seul desenvolveu medidas para proteger melhor as mulheres contra a violência e corrigir ideias fixas sobre os papéis de gênero no dia anterior.

As medidas incluem a prestação gratuita de serviços médicos e jurídicos para as vítimas de violência sexual e distribuição gratuita de emojis (um pictograma ou ideograma, ou seja, uma imagem que transmite a ideia de uma palavra ou frase completa) de homens fazendo tarefas domésticas e meninas brincando com carros de brinquedo para quebrar estereótipos.

Isso mostra que o governo da cidade de Seul está aberto a questões de gênero, mas vemos que essas soluções permanecem em um nível muito suave, que não proporcionam segurança real para as mulheres“, disse professora Yun. “O que realmente precisamos agora é de uma abordagem mais ampla que afetem diretamente as políticas que impactam a nossa vida“.

Especialistas dizem que 2016 foi um ano monumental para o feminismo na Coreia do Sul, que chamou muita atenção sobre a questão das mulheres e acrescentou muito para discussões.

A atenção das feministas sul-coreanas agora está sobre quem será eleito para liderar o país durante as eleições presidenciais deste ano e levar a cabo políticas de combate às questões de gênero. A eleição, será realizada em maio, já que o Tribunal Constitucional votou pela destituição da presidente Park Geun-hye.

Esta eleição presidencial é um momento decisivo para o feminismo sul-coreano“, disse Baek, líder da organização.

É muito importante para um presidente estar aberto à questão das mulheres para poder realmente trazer mudanças ao ser eleito ou eleita“, disse professora Yun.

Protesto feminista feito em Gangnam.
Protesto feminista feito em Gangnam. Foto: Yonhap

 


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