Goshiwon é uma forma de habitação que existe na Coreia do Sul há mais de 40 anos. Começou em forma de acomodações baratas e temporárias para estudantes que passam anos estudando para exames difíceis, conhecidos como goshi em coreano. Os apartamentos geralmente consistem em quartos apertados com menos de cinco metros quadrados, com cozinha em ambiente comum e banheiro.

À medida que o preço das habitações aumentou em Seul, os goshiwons evoluíram para encontrar uma clientela mais ampla. Alguns são mais limpos, espaçosos e até “minimalistas” – um eufemismo para a simplicidade da sala – e reivindicaram o nome irônico de goshitel (goshiwon + hotel).

Auto-retrato do fotógrafo Sim Kyu-dong dentro de seu quarto no goshitel, Sillim-dong, Seul. Foto: Sim Kyu-dong.
Auto-retrato do fotógrafo Sim Kyu-dong dentro de seu quarto em um Goshitel, em Sillim-dong, Seul. Foto: Sim Kyu-dong.

Tais nomes se tornaram intercambiáveis, e às vezes até enganadores. Logo, não só os alunos, mas os funcionários de escritório mal pagos começaram a procurar refúgio em várias formas de goshiwon ou goshitel. De acordo com a antiga Agência Nacional de Gestão de Emergências (agora integrada ao Ministério da Segurança Pública), havia 11.457 Goshiwons registrados em toda a Coreia do Sul em 2014, sendo 6.158 apenas em Seul. Mas levando em consideração os estabelecimentos ilegais e não registrados, o número total deve ser maior, e o número de pessoas que vivem em goshiwons pode ser de dez a vinte vezes maior do que esse número.

O fotógrafo sul-coreano, Sim Kyu-dong, de 29 anos, viveu em vários goshitels em Seul por mais de três anos. Nascido e criado na cidade portuária de Gangneung, na província de Gangwon, Sim Kyu-dong veio a Seul para encontrar trabalho durante as férias da escola. Sem dinheiro para um depósito de montante fixo para um estúdio – na Coreia do Sul, é necessário um grande depósito para garantir um aluguel – o goshitel foi a sua única opção de habitação.

A resident looks into a mirror in the stairway. and practices sports dance. (Credit: Sim Kyu-dong)
Um residente olha para um espelho na escada e pratica dança esportiva. Foto: Sim Kyu-dong.

Quando ele encontrou um bom goshitel em Sillim-dong, em uma área na margem de Seul, conhecida mais recentemente por um grande número de estudantes e trabalhadores migrantes, ele percebeu como os goshiwon e goshitel se tornaram um lugar para os pobres – jovens e velhos. Seu aluguel mensal era de 220,000 won (aproximadamente R$583,54).

O que era a sua própria história pessoal se expandiu para um projeto de fotografia. Sim Kyu-dong viveu num goshitel sem nome por dez meses, documentando as vidas presentes nele –  tanto a si próprio quanto aos outros residentes. “As pessoas à minha volta perguntavam: ‘Você está se preparando para um exame?’, Mas não era isso. Eu tinha muitas perguntas quando entrei nesse primeiro goshitel em particular. Tenho vivido em goshitels durante anos, e ainda me pergunto por que os velhos ainda vivem neles.”

Este homem foi ferido durante a Primeira Batalha de Yeonpyeong em 2002 e recebe um milhão de won por mês da pensão dos veteranos. Ele está usando tubos que ajudam a remover fluidos corporais e fumar cigarro eletrônico. Foto: Sim Kyu-dong.
Este homem foi ferido durante a Primeira Batalha de Yeonpyeong em 2002, e recebe um milhão de won por mês da pensão dos veteranos. Ele está usando tubos que ajudam a remover fluidos corporais e fuma cigarro eletrônico. Foto: Sim Kyu-dong.

Sim Kyu-dong lembra de um professor de matemática da década de 50 que conheceu no goshitel. O homem era inteligente, tinha um diploma de uma escola proeminente – a Universidade Sungkyunkwan – e tinha feito um bom dinheiro. Mas, conforme foi envelhecendo, seu status e valor como um professor caiu na rigorosa e competitiva hierarquia hagwon da Coreia do Sul, e com isso sua auto-estima se dissipou lentamente.

Depois que ele acabou no goshitel, ele perdeu o interesse pelo dinheiro e não se importou mais se haviam baratas em seu quarto. As condições de vida sub-humanas no goshitel começaram a minar o que restava da autoestima de Sim Kyu-dong também.

Um jovem de 30 anos. Ele trabalha como gerente junior no goshitel e faz tarefas domésticas em troca de desconto no aluguel mensal. Ele também é um destinatário do subsídio de vida básica. Foto: Sim Kyu-dong.
Um jovem de 30 anos. Ele trabalha como gerente junior no goshitel e faz tarefas domésticas em troca de desconto no aluguel mensal. Ele também é um destinatário do subsídio de vida básica. Foto: Sim Kyu-dong.

No começo, eu tinha uma noção clara de que eu vim aqui para tirar fotos e que eu era diferente de todos os outros residentes. Mas, vivendo lá e fazendo amizade com os moradores, senti que estava me tornando um deles. Uma noite, uma briga estourou entre os moradores e policiais vieram. Fiquei chocado quando um oficial da minha idade me olhou. Em seus olhos, eu não era em nada diferente dos outros a minha volta.”

As fotografias de Sim Kyu-dong, dos goshitels testemunham as circunstâncias que levaram alguns sul-coreanos a chamar seu país “Hell Joseon“. Aqueles que acabam em goshitels devido a dificuldades financeiras são separados do resto da sociedade, física e psicologicamente. Em 2015, uma mulher de 20 anos foi encontrada morta em seu apartamento após duas semanas depois de sua morte. Ela trabalhou com crianças como fisioterapeuta. Foi relatado que ela sofreu dificuldades econômicas e que a desnutrição pode ter causado sua morte.

Hoje em dia não é mais tão incomum ouvir sobre tais mortes solitárias em goshiwons. Em 2016, um ensaio intitulado “Goshiwon Managers Know the Smell of a Rotting Corpse” no OhMyNews agitou um grande debate. Com pequenos salários e longas horas de trabalho, essas pessoas que estão no fundo da hierarquia social mal podem se dar ao luxo de chegar ao seu fim, e muito menos fazer amigos ou conexões significativas.

Auto-retrato de Sim Kyu-dong no banho comum. O espaço é tão pequeno que os residentes não podem colocar os braços para cima livremente. Foto: Sim Kyu-dong.
Auto-retrato de Sim Kyu-dong no banheiro comum. O espaço é tão pequeno que os residentes não podem colocar os braços para cima livremente. Foto: Sim Kyu-dong.

Pessoas ‘normais’ – pessoas comuns, de classe média, também – na verdade não entendem que você acabou em um goshitel porque você não conseguiu evitar, porque você não tem outras opções. Eu pensei que devia contar essa história“, disse Sim Kyu-dong.

Enquanto vivia no goshitel, Kyu-dong sofria de depressão e, em um ponto, parou de se preocupar com sua limpeza. Agora, de volta a sua cidade natal, Gangneung, na costa leste da Coreia do Sul, Sim Kyu-dong está fazendo esforços conscientes para se comportar melhor e cuidar de si mesmo e até assistindo shows de comédia e comendo melhor.

Quando perguntado sobre o que poderia ser feito sobre os goshitels e seus residentes, a resposta de Sim Kyu-dong foi simples, mas clara. “Bem-estar e rede de segurança social. Antes, eu era bastante conservador e não simpatizava muito com os desabrigados ou as pessoas pobres. Mas viver no goshitel mudou minha percepção e pensamento completamente. Há pessoas que não tem outra opção. Suas histórias são muito complicadas de se livrar“.

O teto de uma sala apertada dentro do goshitel está decorado com um papel de parede semelhante a um céu e ornamentos em forma de estrela. Foto: Sim Kyu-dong.
O corredor do goshitel. O calor do verão é insuportável e os residentes mantêm suas portas abertas um pouco. O corredor é tão estreito que, se duas portas estiverem totalmente abertas ao mesmo tempo, elas se baterão. Foto: Sim Kyu-dong.

O livro de fotos de Sim Kyu-dong no goshitel estava programado para sair no final de abril pela editora de livros fotográficos Noonbit da Coreia do Sul. Ele está executando uma campanha de crowdfunding (onde os participantes ajudam com a quantia de dinheiro que desejarem) para exibir as fotos na Assembléia Nacional Sul-coreana. Siga-o no Facebook e Instagram e veja abaixo todas as fotos disponibilizadas por Sim Kyu-dong ao Korea Esposé.


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