Enquanto vivia sob supervisão constante em seu país de origem, Park Yu-Sung  teve vislumbres sobre a vida na Coreia do Sul por meio de novelas, antes de decidir fugir do regime repressor da Coreia do Norte a cerca de uma década.

Yu-Sung e sua mãe foram colocados sob vigilância por um ano após seu pai fugir para o Sul. Um dia, ele foi pego pela vigilância enquanto assistia a CDs de novelas traficados da Coreia do Sul. O que configura um ato passivo de punição no país.

Mas algo inusitado aconteceu quando tal homem resolveu assistir aos programas sul coreanos junto com Yu-Sung e sua família. Após contar com o “apoio” de uma vigilância fraca, ele e sua mãe fugiram para a Coreia do Sul em 2008 e se reuniram ao seu pai.

Eu pintava paisagens rosadas da vida na Coriea do Sul enquanto assistia as novelas”, disse o estudante universitário de 25 anos de idade.

Doze norte coreanos desertores posam para uma foto em grupo após falar sobre suas histórias de relocação na Coreia do Sul em um concurso feito em 27 de outubro de 2016. O evento foi organizado pela Korea Hana Foundation. (Yonhap)
Doze norte coreanos desertores posam para uma foto em grupo após falar sobre suas histórias de relocação na Coreia do Sul em um concurso feito em 27 de outubro de 2016. O evento foi organizado pela Korea Hana Foundation. (Yonhap)

Yu-Sung é um dos 12 desertores da Coreia do Norte que falaram abertamente de suas experiências de quando chegaram ao país no evento anual do dia 27 de outubro, oferecido pela Korea Hana Foundation, uma agência governamental responsável por oferecer suporte aos desertores.

O concurso literário, intitulado “Nossas Verdadeiras Histórias” foi realizado ao mesmo tempo que se espera que um número recorde de desertores, que deve ultrapassar a marca dos 30.000 mil este mês, chegue ao país.

De acordo com o Ministério da Unificação em Seul, o número de norte coreanos que fogem para o sul todos os anos chegou ao pico de 2,914 em 2009. O ritmo diminuiu desde 2011, quando o líder Kim Jong-Un implementou um controle de fronteiras mais rígido.

Mas este ano, o ritmo acelerou quando até elites norte coreanas, incluindo diplomatas, abandonaram o regime socialista tirânico.

O evento, o terceiro de seu tipo, correu com a presença de 150 desertores, que estão passando por um programa de relocação de três meses em uma instituição Hanawon.

Kwang-Joo Sohn, presidente da Korea Hana Foundation, faz o discurso de abertura sobre o concurso de histórias no dia 27 de outubro de 2016, no qual 12 desertores norte coreanos falaram sobre suas histórias de relocação. Foto disponibilizada pela fundação. (Yonhap)
Kwang-Joo Sohn, presidente da Korea Hana Foundation, faz o discurso de abertura sobre o concurso de histórias no dia 27 de outubro de 2016, no qual 12 desertores norte coreanos falaram sobre suas histórias de relocação. Foto disponibilizada pela fundação. (Yonhap)

Eu espero que o evento possa ajudar os recém-chegados a demonstrarem seu desejo de morar na Coreia do Sul,” disse Sohn Kwang-Joo , presidente da fundação.

Os doze desertores falaram abertamente sobre as dificuldades emocionais e econômicas que passaram e seus esforços para se manterem de pé.

Kim Joo-Young , que agora cultiva uvas em sua própria terra, disse que se sentia frustrada por enfrentar dificuldades em encontrar empregos devido a sua deficiência física.

Ela veio para a Coreia do Sul em 2011, com duas crianças, na esperança que pudessem viver sem se preocupar com a fome. Mas suas esperanças foram destruídas quando seus quatro dedos restantes foram cortados em um acidente enquanto trabalhava em uma fábrica.

Eu tentei trabalhar sozinha, mas não havia ninguém que quisesse me contratar,” disse Joo-Young. “Eu sofria com a depressão até que conheci um conselheiro que me encorajou a começar minha própria fazenda.

Desde que as Coreias foram divididas em 1945, a troca entre as populações se tornaram raras, o que dificultou a comunicação entre os coreanos. As duas Coreias estão tecnicamente em guerra já que a Guerra das Coreias de 1950 – 53 cessou com um acordo de trégua, e não um tratado de paz.

Sonhando com uma vida melhor, mais norte coreanos escolheram fugir para o vizinho capitalista, mas muitos encaram uma realidade difícil devido a dificuldade em encontrar um emprego decente em meio a tamanha competição e um preconceito acentuado contra eles.

Uma pesquisa de 2015 conduzida pela Korea Hana Foundation mostrou que cerca de dois terços dos 2.444 desertores disseram estar satisfeitos com a vida na Coreia do Sul, e citam principalmente a liberdade de escolha como principal fator de satisfação.

Mas entre os 94 desertores descontentes, cerca de 61% citou as dificuldades econômicas como a principal razão de reclamação, seguido de 42,2% que citam a dificuldade em se adaptar a cultura sul coreana e outros 30,9% que citam o preconceito para com norte coreanos.

Han Sun-Hee  disse que os olhares frios dos sul coreanos aos desertores foram a maior estorvo para começar a viver no Sul.

Eu trabalhei em dois restaurantes por 16 horas por dia para sobreviver, mas era difícil esquecer a solidão e o senso de culpa por ter espado do norte e deixado meus familiares para trás,” disse a desertora de 33 anos de idade.

Sun-Hee disse que para enfrentar o preconceito e acirrada competição ela adotou o mantra de “nunca desistir”. Após algumas tentativas e erros, ela agora vende comida norte coreana em um mercado noturno em Busan, a cidade portuária do sudoeste do país.

O número total de desertores norte coreanos que foram morar na Coreia do Sul chegou a 29.948 no fim de outubro, somando cerca de 0,06% da população de 50 milhões de sul coreanos.

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Desde 2000, os motivos para a deserção mudaram conforme o número crescente de norte coreanos que fugia do norte. Motivos não econômicos como desejo de liberdade e desgosto com Pyongyang e sua vigilância implacável, de acordo com o Ministério da Unificação.

A porção de desertores disparou para 87,8% entre 2014 e 2016 se comparada com os 33,3% dos anos anteriores a 2001.

O crescimento do ‘estilo de imigração’ dos desertores parece ser influenciado mais por norte coreanos entrando em contato com a cultura e informações sobre a Coreia do Sul”, disse um representante do Ministério.

Em linha com a mudança nas razões das fugas, o governo planeja expor medidas para promover a integração social dos desertores   no Sul, em meados de novembro.

Os desertores que participaram do evento enfatizaram a importância de ser perseverante para conseguir uma relocação de sucesso.

Kim Hwi-Jae, desertor de 31 anos, disse que ele se iludiu ao pensar que sabia tudo sobre a sociedade sul coreana já que teve acesso à informações de fora por rádio na Coreia do Norte.“Não demorou muito para eu acordar para a realidade da grande divisão entre as duas Coreias,” disse Hwi-Jae, que fugiu em 2006.

Após anos à deriva, Hwi-Jae estudou muito para não perder oportunidades na Coreia do sul e se tornou um técnico em odontologia. “Treinamento e educação são importantes. Mas o que mais importa é a atitude positiva,” ele disse.

Pak, outro desertor, disse que tem esperanças de se tornar um diretor de cinema para poder passar a mensagem de unificação e comunicação entre as pessoas do sul e do norte. Ele estuda cinematografia na universidade. “Enquanto assistia as novelas sul coreanas no Norte, eu sonhava com o dia em que as duas Coreias se tornassem uma,” ele disse. “Eu gostaria de ajudar os sul coreanos a entenderem melhor os norte coreanos por meio dos filmes.


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