A cantora Chung-ha, num perfeito exemplo da nova tendência para a pele - a glass skin. Foto: Allure

K-beauty se tornou uma palavra popular nos últimos anos, já que produtos de beleza e tendências de maquiagem sul-coreanos começaram a aparecer nas mídias sociais e também na mídia tradicional. Da máscara facial de zumbi e da tendência da glass skin às milhares de selfies com máscaras faciais hidratantes de bichinhos no Instagram, o marketing desses produtos focam na impressão de que mulheres coreanas têm a pele perfeita.

Essa imagem romantizada é tida como verdadeira, tanto pelos fãs quando pelos blogueiros que promovem o k-beauty; principalmente, essa é uma imagem vendida por uma indústria que está entre as 10 maiores indústrias da beleza do mundo.

Em 2017, a empresa de pesquisa de mercado Mintel previu que a venda de produtos faciais sul-coreanos chegaria a um total de U$7.2 bilhões neste ano. Com propagadas estampando estrelas do k-pop de pele perfeita, espalhadas em sites e lojas pela Coreia do Sul toda, o k-beauty parece ser um fenômeno cultural duradouro.

Usar todo tipo de produto disponível – os especialistas em k-beauty sugerem uma rotina de 10 passos que envolve produtos para limpar, tonificar e hidratar a pele, séruns, máscaras e vários outros – é menos um hábito do que uma necessidade para muitas mulheres que vivem em uma sociedade culturalmente monolítica e extremamente patriarcal.

As mulheres coreanas são bombardeadas com propagandas de produtos de beleza e são julgadas por sua aparência.

“EXISTE ESSA IDEIA – POR QUE MULHERES COREANAS SÃO TÃO BONITAS? É PORQUE OS PRODUTO DE PELE COREANOS SÃO MUITO INCRÍVEIS”

Diz Michael Hurtsociologista e professor na Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, em Seul. “Não é porque os coreanos tem uma filosofia de beleza antiga, é porque seu corpo é seu maior bem nesse mundo, mas não é assim com os homens.”

Para os homens, a expectativa é: não seja gordo, tenha um bom corte de cabelo, se vista bem“, ele continua. “Se tudo o que você, como mulher, precisasse fazer fosse se vestir bem, não ser gorda, ter uma aparência ok, você teria bem menos problemas. E, em uma cultura onde a beleza feminina é tão regimentada, é claro que você vai ter todos esses produtos.

Os produtos de beleza disponíveis oferecem todos os tipos de soluções criativas, como máscaras que prometem criar o v-line perfeito, diminuindo bochechas ou rosto mais angular; marcadores criador para esconder linhas do cabelo mais altas ou o bico de viúva; tints corporais para deixar joelhos, cotovelos e mamilos mais avermelhados; e facelifts caseiros que vem em pequenas embalagens de sérum, com micro agulhas.

Naomi Wolf escreveu sobre isso no livro O Mito da Beleza:

“A BELEZA É UM SISTEMA MONETÁRIO, COMO O PADRÃO OURO. ASSIM COMO EM QUALQUER ECONOMIA, [ESSE PADRÃO] É DETERMINADO PELA POLÍTICA… AO DAR UM VALOR ÀS MULHERES, EM UMA HIERARQUIA VERTICAL, DE ACORDO COM UM PADRÃO FÍSICO CULTURALMENTE IMPOSTO, EXPRESSA-SE AS RELAÇÕES DE PODER NAS QUAIS AS MULHERES DEVEM, NÃO NATURALMENTE, COMPETIR POR RECURSOS DOS QUAIS OS HOMENS SE APROPRIARAM”

Na Coreia do Sul, assim como no resto do mundo, o mito da beleza ainda é uma realidade para as mulheres. A procura pela beleza é, muitas vezes, esperada, especialmente por aquelas que procuram sucesso profissional e social.

Se eu não usar maquiagem, meus colegas vão dizer algo como ‘por que sua cara parece tão cansada e ‘derretida’?” diz uma consultora financeira, com 20 e poucos anos, que preferiu ficar anônima.

Maria Lee, que estudou no Reino Unido antes de retornar a Seul, diz que as mulheres sul-coreanas tem poucas escolhas. “A maior diferença é que as pessoas aqui não podem sair sem maquiagem. Todas as mulheres tem que usar.

“VOCÊ PODE SER BONITA DE DIVERSAS FORMAS, MAS VOCÊ AINDA TEM QUE SE PREOCUPAR COM A SUA BELEZA, VOCÊ TEM QUE MOSTRAR QUE SE PREOCUPA COM SUA APARÊNCIA”

Quando eu vou em reunião com clientes, meus colegas me forçam a usar mais maquiagem porque esses homens mais velhos, nossos clientes, se sentem mais a vontade de falar com uma ‘carinha bonita‘”, continua.

Uma das diversas propagandas relacionada à beleza e voltada às mulheres que estão espalhadas por Seul. Foto: Crystal Tai

Em sites como o April Skin, uma das maiores marcas sul-coreanas, produtos como o Perfect Magic Face Starter tem slogans como: “Hoje você terá uma maquiagem perfeita! Sem mais poros densos e aparentes com esse produto!

Sua pele está ficando fraca e flácida, você precisa de uma solução original para o seu problema“, diz uma propaganda da Skin1004, um produto facial cujo público alvo são estudantes na casa dos 20 anos.

Como em todo lugar na Ásia, a pele pálida continua sendo o ideal na Coreia do Sul, mas a ênfase agora é na pele saudável. Chok chok-han pibu, ou pele hidratada, jovem, brilhosa, mais especificamente.

Você escuta muito sobre o gwang, o estilo de maquiagem brilhoso e refrescante“, diz Lee. “Você tem que parecer que acabou de tomar um banho e não passou muita maquiagem. Não importa se você é mais escura ou mais clara, sua pele deve parecer fresca.

Apesar da indústria da beleza sul-coreana ter se diversificado na última década, com uma maior paleta de cores, novas técnicas e experimentações – como com os batons nudes ou sombras cor de ferrugem – Lee diz que o ponto ainda é parecer “bem”.

Em 2017, a Coreia do Sul ficou na 118ª posição – de 144 – na pesquisa do Fórum Global de Igualdade de Gênero, que considera fatores como igualdade salarial e licença maternidade. O país ficou perto do Japão, 114º, e abaixo de países vizinhos como China, Malásia, Singapura e Cambodja.

No mesmo ano, o governo de Seul decidiu que, gradativamente, retiraria as propagandas de cirurgia plástica das estações de metrô, eliminando-as até 2022. Um passo que ajudaria a acalmar o peso da imagem sobre as mulheres sul-coreanas. A mídia, na época, citou que houve mais de mil pedidos e reclamações dessas propagandas.

Propagandas de beleza dentro de uma estação de metrô, em Seul. Em 2017, o governo prometeu diminuir propagandas de cirurgia plástica até retirá-las totalmente, em 2022. Foto: Crystal Tai

Eu acho que o governo finalmente percebeu que isso é um problema“, diz Hurt, o professor. “As pessoas são encorajadas, quase forçadas, a investir no seu corpo, em detrimento a outras coisas. Se você está tão preocupado com seu futuro e seu rosto, você não fará outras coisas com seu dinheiro. Todos os tipos de efeitos negativos surgem disso.”

Ele diz que o governo também reconhece que há um problema com relação a ênfase no corpo feminino. “Por exemplo, o presidente Moon Jae-in está tentando acabar com a exigência de fotos nos currículos; o que devia ter acontecido há décadas. Isso é, provavelmente, um dos maiores incentivadores das cirurgias plásticas e da baixa auto-estima das mulheres.

A era onde mulheres eram mandadas para casa, do trabalho, por não usarem maquiagem o suficiente passou, diz Hurt. “As mulheres agora têm mais poder, social e de compra; As mulheres conquistaram mais espaço, principalmente com a independência financeira”, ele diz.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome.