No dia 7 de março de 2017, o site Korea Exposé publicou um artigo um tanto polêmico sobre o escândalo que envolveu o artista Kang Dong-won e seus antepassados. Existem várias visões divergentes sobre o assunto de “vergonha familiar” e “culpabilização de descendentes” na Coreia do Sul. Esta é apenas uma delas. Vale ressaltar que o KoreaPost se prontifica em expor diversas características e discussões sobre o país em questão e que essa problemática não deve ser considerada única da Coreia do Sul, já que é recorrente em outros países.

Depois de mais de 70 anos desde a independência da Coreia do Sul do Japão, ter um traidor como ancestral ainda é sinal de grande vergonha – se tornado público. Muitos sul coreanos rejeitam falar sobre estas partes da história da família. O famoso ator Kang Dong-won não é um deles, para prejuízo próprio.

Kang Dong-won se tornou centro de uma controvérsia que começou no dia 1 de março – uma dia que marca o levante popular contra a ocupação japonesa de 1919. O portal de notícias de filmes Max Movie iniciou o escândalo ao compilar perfis de atores e atrizes cujos antepassados eram colaboradores pró-Japão ou militantes pela independência. Emplacando o topo da lista de antepassados pró-Japão estava Kang Dong-won, cujo bisavô materno supostamente financiou esforços de guerra japoneses e enriqueceu com licenças de mineração concedidas pelo governo colonial.

O Ator Kang Dong-Won. Foto: Wikipedia
O ator kang dong-won. Foto: wikipedia

Pior do que colaborar, de acordo com muitos sul coreanos, é recusar-se a reconhecer ou ser ignorante quanto aos pecados da família na era colonial. Uma consciência histórica “deturpada” ou “errada” é uma etiqueta frequentemente atribuída às visões do passado que diferem ou negam a ‘verdadeira’ história da nação. Glorificar ancestrais colaboradores, conscientemente ou não, recai nessa categoria. A única coisa que resta fazer para acalmar os nervos do público é confessar o crime e desaparecer de modo silencioso.

É uma realidade bizarra da Coreia do Sul: que os feitos  de um ancestral de décadas atrás possam afetar de modo positivo ou negativo a carreira de uma pessoa. Outra celebridade, Song Il-gook, conhecido por estrelar no popular reality show infantil Superman Returns, exalta a glória de ter militantes notáveis pela independência como seus bisavô e avô maternos. (Ele também confirma sua credencial como patriota ao nomear seus filhos trigêmeos de Daehan, Minguk e Manse – os seis caracteres que formam a expressão “Vida Longa à República da Coreia”).

Song Il-Gook E Seus Trigêmeos. Foto: Soompi
Song il-gook e seus trigêmeos. Foto: soompi

E também há o caso da atriz Moon Geun-young, cujo avô materno passou três décadas atrás das grades por participar em atividades pró Coreia do Norte. Devido a esse fato, ela tem sido apelidada de “commie” (comunista) há anos. Quando foi revelado em 2008 que ela enviava grandes quantias para caridade, o erudito de direita Ji Man-won acusou-a de tentar “elevar” o status esquerdistas da família com suas boas ações e rosto bonito. Em resumo, suas ações não poderiam ser aceitas como sinceras devido a quem foi seu avô.

A Atriz Moon Geun-Young. Foto: All Kpop
A atriz moon geun-young. Foto: all kpop

Após o inicio da polêmica, Kang Dong-won e sua agência, YG Entertainment, fizeram uma tentativa falha de controlar os danos ao requisitar que as afirmações contra seu bisavô, que são vistas como difamação, fossem removidas de vários sites e portais de pesquisa. O movimento apenas provocou reações raivosas online – as pessoas passaram a pensar que Kang Dong-won estivesse tentando esconder um passado vergonhoso. Ele foi escalado para estrelar em um filme sobre o movimento de democratização de 1987, mas o projeto agora está ameaçado. Desde o começo do problema, detratores de Kang Dong-won agora afirmam que ele não serve para fazer o papel de um icônico estudante ativista, como planejado.

Alguns sentimentos são distribuídos igualmente na política da Coreia do Sul. Há muito o que criticar sobre a ex-presidente Park Geun-hye e o ex-líder do partido Saenuri Kim Moo-sung sem adentrar suas raízes. Ainda assim, a fofoca favorita da esquerda, pelo menos até surgir a polêmica com Choi Soon-sil, eram histórias sobre as ações dos pais de Park e Kim como colaboradores antes de 1945. Alguns acreditam que as ações dos antepassados são irrelevantes para descrever a carreira de Park. De qualquer maneira, a lógica é a mesma. Ame-a ou a odeie não pelo que ela fez, mas por quem a fez.

A controvérsia ao redor de Kang Dong-won expõe dois impulsos na sociedade sul coreana. Um é o uso do passado para julgar os descendentes que não foram responsáveis pelo passado. Esse tipo de julgamento é vestígio de uma política feudal. Em Joseon, a dinastia coreana que reinou até 1910, sangue e relações matrimoniais com pessoas traidoras poderiam levar a punição mesmo se a pessoa em questão não fosse desleal à coroa. O sistema sobrevive em uma escala bem menor na Coreia do Sul contemporânea. Não apenas descendentes de colaboradores pró-Japão e simpatizantes comunistas sofrem bullying; filhos de criminosos também são, por vezes, excluídos da sociedade como produtos de “sementes ruins”.

Outro impulso é condenar rapidamente um passado que pode ser muito complexo para ser compreendido com alguns atos, em especial no que se trata da era colonial. De todos os portais de mídia da Coreia do Sul, é surpreendente que o liberal Hankyoreh tenha agido em defesa de Kang Dong-won ao reimprimir uma coluna do ano passado: o artigo expõe que apesar do bisavô de Kang, Lee Jong-man, tenha oferecido dinheiro ao Japão, ele também doou 800 vezes aquela quantia (cerca de 70 milhões dólares atualmente) para a educação de trabalhadores e fazendeiros coreanos. Isso complica a narrativa envolvendo o homem, mas não será suficiente para reverter o impacto ao ator.

Podemos não ter a chance de saber a verdade completa sobre o bisavô de Kang Dong-won, já intitulado colaborador no tribunal da internet. Kang Dong-won já pediu desculpas por “não perceber do modo correto as ações [de meu bisavô materno]”. No mesmo pedido de desculpas, ele mencionou sua avó materna, uma “descendente de militantes pró-independência”, na tentativa de salvar sua reputação e a de sua família. Talvez seja a única coisa que possa ser feita agora. Na história como definida pela maioria dos sul coreanos, existe apenas certo e errado, branco e preto. E a colaboração é o pior dos pecados, passado de geração a geração até o fim dos tempos.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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