Há alguns anos, uma casa não era considerada um lar sem uma família. Ter o próprio lar significava formar uma família, com esposa e dois filhos para preencher o apartamento de três quartos. Porém, agora os coreanos desafiam os conceitos convencionais de lar e família a fim de formar novos tipos de unidades familiares com menos pessoas.

O índice de casamento no país cai a cada ano e mais pessoas optam por não ter filhos, enquanto ao mesmo tempo a expectativa de vida crescente aponta para uma sociedade mais idosa. A Coreia do Sul enfrenta um problema inédito, e ainda assim o governo e as instituições públicas parecem ter dificuldades em pensar “fora da caixa” da família tradicional.

De acordo com o Statistics Korea, no período de 20 anos entre 1997 e 2016, o número de casais oficialmente casados por ano caiu 28%, de 389.000 para 282.000. E ainda neste mesmo período, o índice de fertilidade caiu de 1,52 para 1,17.

Especialistas se preocupam que neste ritmo a Coreia pode perder sua população em menos de um século, mas o governo falha em aceitar mudanças fundamentais e continua preso às estruturas familiares tradicionais.

O coreanos casam-se cada vez mais tarde hoje em dia. Foto: Jose Villa
O coreanos casam-se cada vez mais tarde hoje em dia. Foto: Jose Villa

Repensando o Casamento

Houve uma época na qual o casamento era uma parte natural do processo de amadurecimento dos adultos na Coreia. Em 1995, 77% dos homens e mulheres adultos eram casados, e a maioria possuía pelo menos um filho. O matrimônio não era uma opção ou objetivo, mas sim um processo padrão, parte das atitudes de um adulto normal como arrumar um emprego e comprar uma casa. Na atualidade, no entanto, o casamento passou a ser considerado opcional pelos jovens, assim como a ideia de ter filhos.

O governo já gastou cerca de 100 trilhões de won (US$ 88,5 bilhões) nos últimos 10 anos para aumentar o índice de natalidade, mas os resultados foram contrários ao esperado pelos objetivos iniciais do governo. Existem várias razões, porém a considerada principal é a dificuldade do governo em quebrar a norma social que iguala nascimentos a casamentos.

O governo vem encorajando as pessoas a terem filhos, mas apenas aqueles casados. Conceber um filho fora da instituição do casamento é considerado um último recurso para mulheres solteiras, e uma gravidez não planejada geralmente resulta em casamentos apressados. Para a maioria dos coreanos, a paternidade é sinônimo de casamento, e a existência de um sem o outro é considerado um absurdo.

Não é de se surpreender que apenas 1,9 por cento dos nascimentos na Coreia ocorram fora do casamento, de acordo com relatório do Bank of Korea lançado em julho de 2017. No Banco de Dados da Família da OCDE, a média é de 41,2 por cento nos demais países da OCDE.

É possível ver, por exemplo, um grande contraste entre a Coreia e a França, o país com maior índice de natalidade na Europa. A França enfrentou uma situação semelhante em 1994 quando seu índice caiu para 1,66 por cento. Contudo, 20 anos depois, em 2014, o número subiu para 2,08 e se manteve acima de 2 por cento nos anos seguintes. Entre os recém-nascidos em 2014, 56,7 por cento nasceram fora do casamento, significando que a criança havia sido gerada por mãe solteira ou por casais não oficialmente casados.

O índice de natalidade está caindo drasticamente e é complicado para ao governo lidar com tal tendência,” disse Lee Soo-hyung, professor de economia da Sogang University, em entrevista ao JoongAng Sunday, um afiliado do Korea JoongAng Daily.

Ao invés de ir além das políticas governamentais para aumentar os índices, é importante reconhecer os desafios socioeconômicos que podem ocorrer conforme os índices caem, e se preparar para lidar com tais problemas ainda cedo.”

No caso da França, o que aconteceu durante 20 anos, conforme a natalidade crescia gradualmente, foi que o governo eliminou a ideia do matrimônio institucional tradicional dos livros. Em 1999, o Pacte Civil de Solidarite (PACS) foi implementado pela primeira vez. O sistema oferece os mesmo privilégios dos casais formados pelo casamento aos casais de relacionamento estável. Em 2006, os políticos franceses removeram um artigo da Lei da Família que diferenciava crianças nascidas de pais casados e de não casados.

O governo coreano tem focado no objetivo de superar o baixo índice de natalidade desde 2005,” disse o professor Lee. “Mas já é hora de quebrar a fantasia de que podemos reverter o baixo índice, e lidar com outros problemas sociais e econômicos sem ser por meio de uma mudança de pensamento.

Em setembro de 2013, o diretor cinematográfico Kim Jho Kwang-soo organizou o casamento com seu parceiro, Kim Seung-hwan, se tornando o primeiro casal de celebridades homossexuais a se unirem publicamente. No mesmo ano, eles entraram com o pedido para reconhecer de modo legal o casamento na Secretaria do Distrito de Seodaemun em Seul. Os documentos foram rejeitados, porque “esposa’ e ‘marido’ não podem ter o mesmo gênero, de acordo com o sistema legal do país. O casal recorreu da decisão no tribunal, mas seu caso foi rejeitado pelo Tribunal Distrital Oeste de Seul em dezembro de 2016.

Kim Jho Kwang-soo e Kim Seung-hwan. Foto: Pinterest
Kim Jho Kwang-soo e Kim Seung-hwan. Foto: Pinterest

Kwang-soo e seu parceiro Seung-hwan podem não ser considerados casados aos olhos do governo, mas seus esforços demonstram enorme significado. “Meu casamento causou uma rachadura na instituição de matrimônio fundada pelos heterossexuais,” disse Kwang-soo. “Eu fiz as pessoas refletirem sobre o que não pode ocorrer dentro da ideia convencional de matrimônio. Espero que possam pensar sobre as mudanças que isso pode trazer no futuro.

Vivendo Sozinhos, Juntos

Em um relatório demográfico do Statistics Korea lançado em abril, foi revelado que pela primeira vez na Coreia unidades familiares de uma pessoa compõe a maior porção no país.

De acordo com o relatório, 27,2%, ou 5,18 milhões de pessoas, moravam sozinhas no início de 2017, um número que deve aumentar cerca de 36,5% até 2045. Considerando que a porcentagem de unidades familiares de duas pessoas somou 26,1% do atual, cerca de metade da população, ou 53,3% para ser exato, está morando em uma casa com uma ou duas pessoas. O governo prevê que esse número supere os 70% até 2045.

O crescente número de lares com uma pessoa apenas é um resultado da queda do índice de natalidade,” explicou Kwon Young-in, professor e pesquisador da Yonsei University na área de Estudos da Família. “A população jovem evita se casar e deseja ser independente de suas famílias, o que resulta em mais lares desse tipo.

A indústria foi rápida em se adaptar a essa moda, criando produtos e serviços que atendem as necessidades dessas pessoas que moram sozinhas. O varejo produz pequenas embalagem de refeições prontas e vegetais frescos, restaurantes agora oferecem mesas para um, e as Start-ups de TI desenvolvem apps para pessoas solitárias se encontrarem e compartilharem seus hobbies.

Aos poucos, as mudanças ocorrem pelo país, que não apenas tornam a vida solteira mais confortável, mas menos solitária também.

As leis e ideias convencionais podem não mudar tão rápido quanto as pessoas, mas existem movimentos na sociedade que contribuem para a mudança de paradigma social. Por um lado, as pessoas estão ou rejeitando ou mudando o significado tradicional de casamento, enquanto por outro lado, as pessoas procuram formar novos tipos de comunidades que não sejam baseadas no laço sanguíneo da família tradicional.

Entre aqueles que optam em se manter solteiros mas ainda desejam o calor comunitário, novos estilos de lares são formados para atender a suas necessidades, como casas compartilhadas e co-housing.

Pessoas solteiras morando juntas em uma residência compartilhada no Distrito de Gwanak, sul de Seul. Ocupada em grande parte por solteiros entre 20 e 30 anos, existem inúmeras casa compartilhadas surgindo pela cidade. [WOOJU]
Pessoas solteiras morando juntas em uma residência compartilhada no Distrito de Gwanak, sul de Seul. Ocupada em grande parte por solteiros entre 20 e 30 anos, existem inúmeras casa compartilhadas surgindo pela cidade. Foto: WOOJU
Em sua maioria ocupadas por solteiros entre os 20 e 30 anos, existem inúmeras casas compartilhadas pela cidade. A ideia é que, enquanto os residentes possuem seus quartos privados, dividem a sala, cozinha e gastos mensais. Co-housing é um pouco diferente, onde cada moradia é uma casa individual, mas os residentes dividem áreas comuns como garagem, lavanderias e depósitos. A Co-housing surgiu em 1970 nos países Escandinavos e agora se espalha por todo mundo. Uma dessas casas pode ser encontrada no Distrito de Mapo ao oeste de Seul.

O prédio é ocupado por nove famílias, cada qual possui uma casa separada do terceiro ao sexto andar do prédio, mas dividem o primeiro e segundo andar com os demais.

Infográfico traduzido. Original disponível pelo Korea JoongAng Daily.
Infográfico traduzido. Original disponível pelo Korea JoongAng Daily.

Em 2006, um filme dirigido por Kim Tae-yong, intitulado “Family Ties”, considerado também o primeiro filme na Coreia a mostrar a ideia de família não baseada na relação sanguínea, foi lançado e gerou uma discussão nacional sobre o significado de família.

Enquanto o filme lida com várias questões sem muita emoção, como matrimônio, divórcio, adultério e amor, foi capaz de propor à plateia reflexões sobre o que realmente constitui uma família, se não é algo estabelecido pelos laços convencionais de sangue.

Um filme mais recente, “Familyhood” (2016), dirigido por Kim Tae-gon, traz uma questão semelhante, mas com uma abordagem mais radical. Desafiando a norma da sociedade coreana que ainda aponta dedos para mães solteiras, o filme gira em torno da relação da celebridade Go Joo-yeon (atriz Kim Hye-soo) que finge uma gravidez e recebe fama por sua “coragem”, e uma estudante do colegial grávida, Kim Dan-ji (Kim Hyun-soo) que precisa se esconder de todos até o nascimento do filho.

“Familyhood” (2016), dirigido por Kim Tae-gon e estrelando Kim Hye-soo, desafia a norma tradicional coreana de família. [SHOWBOX]
“Familyhood” (2016), dirigido por Kim Tae-gon e estrelando Kim Hye-soo, desafia a norma tradicional coreana de família. [SHOWBOX]
O filme pode ser considerado uma comédia, mas o final no qual os protagonistas acabam morando juntos não é nada engraçado. Apesar do autor tratar da questão sobre mães solteiras de modo leve, o final, no qual os personagens moram juntos apesar das críticas, e não respaldados pela lei, ilustra uma sociedade na qual famílias não são apenas as ligadas por laços de sangue, mas sim uma comunidade ligada por amor e não por lei.

Rápido Envelhecimento

Todo ano em 2 de outubro, Dia Nacional dos Idosos, o Statistic Korea publica seu relatório sobre a velhice. Esse ano, o relatório apontou que, desde de 2016, a população de pessoas acima de 65 anos foi de 3,87 milhões, somando 13,8 por cento da população total. Enquanto a escala se aproxima de 14 por cento, a Coreia não é mais uma sociedade em envelhecimento, mas sim uma sociedade idosa de acordo com os padrões das Nações Unidas. Espera-se que a porcentagem de idosos cresça até 24% até 2030, e para 41 por cento em 2060.

Outro relatório do Statistic Korea revelou em 8 de outubro que 33,5 por cento dos idosos moram sozinhos, mas a lei ainda aponta o apoio familiar como principal solução para o bem-estar dos idosos. A Lei de Bem-Estar dos Idosos define que “uma ‘pessoa no dever de apoiar’ significa um cônjuge (incluindo pessoas casadas ou em relacionamento de fato), descendentes diretos, e seus cônjuges (incluindo no casamento ou em relacionamento de fato).” O terceiro artigo dessa lei declara ainda que “O Estado e os cidadãos devem se esforçar para desenvolver e manter um sistema familiar saudável baseado nos costumes tradicionais de respeito e amor ao idoso e parentes.

A Coreia está envelhecendo cada vez mais rápido, com menos bebês nascendo a cada ano, mas nada parece ajudar as principais mudanças – há uma expectativa de vida crescente, mas não há políticas efetivas de aposentadoria; Há mais idosos vivendo sozinhos, mas as políticas governamentais ainda assumem que a família deve ser a principal cuidadora. Cerca de 41,6 % dos idosos tem sua própria renda, mas o restante depende de seus filhos e parentes, poupanças de aposentadoria ou pensão nacional.

A atual estrutura social não pode ser mantida, a de continuar propagando o método convencional de colocar a responsabilidade principal de cuidar dos idosos, doentes e deficientes sobre as famílias,” disse professor Lee da Sogang University.

O governo cuida de um segmento das necessidades, como o sistema de pensão nacional ou auxílio para famílias com cuidadores ou assistentes pessoais – mas todos ainda são fatores adicionais que não funcionam sem a ajuda dos familiares. Por exemplo, a lei requer que um membro da família cuide daqueles que vivem de auxílios básicos, e é um dever legal da família cuidar dos membros deficientes e doentes.

Lee continua dizendo que para lidar de modo efetivo com a situação, há a necessidade de mudanças que gerem alterações no ponto de vista destas populações, de modo que, caso a população diminua, os indivíduos possam viver com bem-estar e a sociedade receba uma quantidade apropriada de capital humano.

Precisamos desenvolver um novo ponto de vista para lidar com aqueles que tem uma participação menor na economia, como os deficientes,” disse Lee. “Se pudermos vê-los sem suas deficiências e como capital humano em potencial que possa trabalhar em níveis globais, o governo precisa oferecer veículos, equipamentos de suporte tecnológicos e de TI para que possam ter independência. Por outro lado, as empresas não podem continuar forçando extensas jornadas de trabalho e ignorando os inúmeros acidentes de trabalho que ameaçam a saúde e vida dos indivíduos.


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