Dr. Kim Seokkwan é um nome que poucos podem conhecer, mas ele é uma figura revolucionária para alguns integrantes da sociedade sul-coreana.

O médico é pioneiro da cirurgia de redesignação sexual no país, tradicionalmente conservador, tendo começado em 1986, quando a Coreia do Sul ainda estava sob o regime totalitário do presidente Chun Dohwan.

Depois de repetidos pedidos para que fizesse a operação, Dr. Kim deixou a Coreia e foi para Davis, nos Estados Unidos, estudar a operação de redesignação sexual e os procedimentos relacionados, na Universidade da Califórnia. Sua esposa, uma ministra presbiteriana, e seus colegas de profissão foram contra essa decisão.

Quando retornou ao país, motivado por um desejo de confortar e curar os que sofrem com disforia de gênero, o Dr. Kim começou a operar a preços relativamente baixos, visando manter a operação disponível para os que necessitavam.

Talvez, sua paciente mais famosa tenha sido Harisu, a primeira idol transgênera da Coreia do Sul. Ela assinou contrato com a TTM Entertainment, participou de um comercial para TV, em 2001, da DoDo Cosmetics Liar, uma de suas músicas, chegou a 23ª posição nas paradas musicais.

Primeira idol trans da Coreia do Sul, Harisu

Em 2002, o tribunal do distrito de Incheon, finalmente, reconheceu Harisu como mulher. Ao fazer isso, o juiz presidindo a corte afirmou que a constituição coreana garante aos indivíduos “o direito de procurar felicidade e dignidade”.

Quando a decisão foi mantida por 8 dos 10 juízes da Suprema Corte sul-coreana, foi decidido que seria necessário cumprir 5 critérios para ser, legalmente, reconhecido como transgênero, entre eles sentir a necessidade de redesignação durante a fase adulta, viver socialmente como alguém do sexo oposto, ter passado por aconselhamento e cirurgia e ser reconhecido como alguém desse sexo por sua família e amigos.

Em termos de responsabilidades legais, a Suprema Corte decidiu que a pessoa obterá todos os direitos e obrigações de seu “novo” gênero – incluindo obrigação de alistamento para os homens transgêneros. Entretanto, qualquer obrigação adquirida anteriormente à redesignação ainda seria mantida.

Essa é uma história que deve ser lembrada para entendermos como a situação se encontra hoje.

Ipsos Atitudes Globais para Pessoas Transgêneras, de 2017, foi o primeiro estudo que levantou a opinião dos sul-coreanos sobre as pessoas transgêneras e seus direitos no país. Descobriu-se que – apesar da Coreia do Sul ser um país considerado homofóbico – a maioria das pessoas apoiava alguns tópicos.

59% das pessoas acreditavam que as pessoas deveriam ter o direito a fazer a cirurgia para que seu corpo e sua identidade fossem semelhantes. 57% disseram que as pessoas transgêneras deveriam ser protegidas de discriminação.

Tais ideias são apoiadas, por exemplo, por Eun Kim, da BBC, que diz que o aumento no número de pessoas que comparecem às paradas LGBT são evidência de que o país está, de fato, mudando – apesar de não tão rápido quantos muitos gostariam.

Duas histórias recentes trouxeram os transgêneros de volta à consciência do público: Byun Huisu, mulher trans que passou por uma cirurgia na Tailândia e foi liberada do serviço militar, apesar de ter expressado a vontade de continuar servindo; e uma outra mulher trans, que também fez sua cirurgia na Tailândia, foi aceita no departamento de direito da Sookmyung Women’s University, poucos antes de decidir retirar sua aplicação.

A primeira soldade trans da Coreia do Sul, Byun Huisu.

A segunda história provocou reações incendiárias em estudantes das universidades femininas do país. Algumas receberam bem a chegada, mas outras foram bem menos hospitaleiras.

Umas das rações para reações antagônicas é que as que foram contra não veem mulheres trans como mulheres “biológicas”. Não só isso, também consideram um retrocesso nos direitos das mulheres, que lutaram tanto nos últimos anos.

O movimento feminista sul-coreano cresceu grandemente após o assassinato de uma mulher num banheiro da estação de Gangnam, em 2016. Com isso, o direito das mulheres e como conquistá-los se tornou material para uma discussão nacional – na internet, na Assembleia Nacional, nas músicas e até mesmo em filmes e livros.

O movimento procura a razão do porquê esses direitos essenciais ainda não foram garantidos, vê os erros que foram cometidos no passado e mira em objetivos para o futuro. A frase que o marca é “Mulheres podem fazer tudo”.

Uma das maiores tarefas foi desafiar e confrontar as normas sociais bem estabelecidas do que é feminino e masculino. Uma tarefa bastante difícil para uma sociedade com tradição confucionista onde o bu-bu-yu-byul, ou a separação do trabalho do marido e da esposa, é norma.

Ao mesmo tempo, o Fuja do Corpete cresceu, particularmente online, encorajando mulheres sul-coreanas a pararem de usar maquiagem, roupas femininas e de deixar os cabelos longos para cumprirem expectativas sociais, que são vistas como injustas.

E é daí que surgem um dos argumentos mais interessantes das que se opõe à entrada da estudante trans na universidade: As pessoas transgêneras são uma ameaça, já que solidificam as normas sociais do que é considerado feminino e masculino ou se submeterem a cirurgia?

Elas argumentam que se um homem quiser deixar seu cabelo crescer e usar maquiagem, por que não fazer isso enquanto homem? Por que essas coisas devem ser associadas à feminilidade?

Isso faz com que as estudantes dessas universidades para mulheres sejam consideradas TERFs (Trans excludent radical feminists, ou Feministas radicais trans-excludentes). Tais rótulos e termos ajudam na discussão ou, simplesmente, encorajam uma polarização e discriminação maior?

Considerando que muitas dessas estudantes têm poucos lugares onde se sentem seguras na sociedade sul-coreana, exacerbadas pelos persistentes e traumatizantes crimes envolvendo as chamadas spy cams, que invadem até mesmo lugares mais privados, nós não deveríamos ser mais compreensivos com seus posicionamentos ao invés de, simplesmente, nos referirmos a elas com termos depreciativos?

Manifestação contra câmeras escondidas, em 2019. Fonte: Independent

Infelizmente, para a maior parte das pessoas, pessoas transgêneros são conhecidas apenas através da televisão, o que, muito provavelmente, distorce a visão sobre essa comunidade como um todo – particularmente sobre suas intenções, personalidades e desejos individuais.

Isso é relevante no caso da estudante trans que se manteve anônima, por escolha própria. O anonimato leva à desindividualização, o que diminui a própria repressão e a vontade das pessoas de seguir uma mentalidade de bando quando tiverem que escolher lados e tomar decisões.

Pessoas trans não são inerentemente boas ou más. Elas são pessoas e, assim como qualquer outro grupo, podem ser boas, ou não. Por isso, é importante que as vejamos como indivíduos e tomemos nossas decisões baseado nisso.

Excluir as pessoas trans das atuais normas de sexualidade é como dizer que eles não são “homens normais” ou “mulheres normais”. Mas, ao falarmos de normalidade, de onde surgem as definições e justificativas do que é ser normal?

Quando a frase “garotas podem ser qualquer coisa” é usado para refutar as normas convencionais de gênero, ela é aplicada apenas às “mulheres biológicas”? Se sim, então as pessoas trans não podem ser aceitas nem como homens, nem como mulheres.

E, se mulheres continuarem a utilizar o critério biológico para encontrar homogeneidade e similaridades entre elas mesmas, o papel que ocupam na sociedade – criado um sistema patriarcal – se tornará ainda mais solidificado. Obviamente esse não é o caso.

Excluir as pessoas trans apenas causará mais confusão entre as pessoas no domínio não-masculino quando, para muitos na Coreia do Sul, o problema real é, certamente, as normas sociais dominadas por homens que foram estabelecidas desde as reformas neo-confucianas, na segunda metade da Dinastia Joseon.

Se os problemas têm como raiz as visões tradicionais que decreta como homens e mulheres devem ser, a Coreia não deveria apoiar visões ou ações que replicam o sistema atual. Ao invés disso, seria melhor começar a pensar sobre quais mudanças são necessárias para um futuro melhor.

Ao fazer isso, é necessário lembrar que as escolhas individuais devem ser permitidas e respeitadas. Escolher sua própria identidade e decidir que tipo de pessoa queremos ser nesse mundo é um processo extremamente pessoal e não deve sofrer interferências, já que não estamos atrapalhando a liberdade dos outros.

A sociedade, demonstradamente, evolui quando discutimos o direito das minorias. Demos longos passos com o Movimento dos Direito Civis e quando apoiamos as mulheres que se expunham no movimento Me Too.

Para as pessoas trans na sociedade sul-coreana, no momento parecem haver poucos lugares em que elas possam existir confortavelmente e os incidentes citados acima as deixam com ainda mais medo de se assumir. Enquanto a real igualdade de gênero para as mulheres ainda parece distante, sempre existe algo que possamos fazer nesse meio tempo.

A sociedade sul-coreana está aprendendo a abraçar o individualismo. E isso deveria se estender a todos os indivíduos.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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