Ao longo de seus 20 anos, Lee Jin-Song recebeu conselhos indesejados sobre como “melhorar” a si mesma, para poder desfrutar de um namoro.

Os conselhos vieram de amigos, tanto homens quanto mulheres, bem como de conhecidos de diferentes idades.

Alguns me disseram para deixar meu cabelo crescer por mais tempo (para que eu pudesse parecer mais feminina), alguns me disseram para não falar demais“, disse o autora de 27 anos de idade ao The Korea Herald.

Alguns até me disseram: ‘Certifique-se de que você pareça impressionada quando estiver conversando com um homem – use frases como ‘Sério?’ ‘Eu não tinha ideia!’ Seja doce quando enquanto você os escuta, e finja que não sabe sobre o que ele está falando mesmo que você saiba’.”

Seu último livro, “The Right Not to Date” (em português “O direito de não namorar”), é uma crônica de sua própria experiência como uma jovem na Coreia do Sul, onde, em sua opinião, ser solteira em uma faixa etária entre 20 e 30 anos, é considerado como algo preguiçoso, triste e até mesmo incompetente.

Autora Lee Jin-Song posa para o The Korea Herald. Foto: Claire Lee / The Korea Herald.
Autora Lee Jin-Song posa para o The Korea Herald. Foto: Claire Lee

Enquanto argumenta que ser solteira deve ser uma escolha pessoal respeitada – ao invés de algo lamentável – o livro também afirma haver uma grande pressão social para isso, e, por fim encontrar o cônjuge “certo”, está profundamente ligado à prevalente cultura nacional das aparências.

Enquanto não há nenhum estudo acadêmico ou estatísticas sobre essa questão específica, Lee Jin-Song está confiante de que quase todas as mulheres coreanas entre a faixa de 20 e 30 anos experimentaram vergonha por estarem sozinhas, pelo menos uma vez.

Isso inclui perguntas invasivas sobre o seu status de relacionamento, tais como “(Já que você não é tão atraente) é preciso diminuir seus padrões para se encontrar com alguém” ou “Você deve perder peso para se encontrar com os homens.”

Eu acho que há essa pressão para as mulheres jovens parecerem desejáveis para o sexo oposto em todos os momentos“, disse ela. “Por exemplo, me disseram uma vez para sempre colocar maquiagem, no caso de eu conhecer ‘alguém’ – um potencial futuro namorado – no transporte público. Mas nem toda mulher possui como prioridade de vida os homens, ou ser notada por potenciais parceiros românticos.

Independentemente da pressão social, mais coreanos estão adiando o casamento ou decidindo não se casar. A idade média em que as mulheres coreanas têm seu primeiro casamento subiu de 23 anos, em 1981, para 30 anos em 2016. Para os homens, a idade passou de 26,4 a 32 anos. A proporção de domicílios para uma só pessoa em Seul aumentou de 4,5% para 27% durante o mesmo período.

Lee Jin-Song disse que a Coreia está vendo agora uma nova geração de mulheres que não desejam nem o casamento, nem o namoro. A fantasia do “lar doce lar” ainda é mantida por muitas mulheres jovens na Coreia, mas a pressão social que se opõe a ser “contra a norma” – a escolha de não ser a namorada de alguém ou mãe em uma determinada idade – ainda persiste na sociedade de hoje, disse Jin-Song.

Há uma regra sobre o que você deve fazer de acordo com sua idade“, disse ela. “Quando você é uma adolescente, você deve estudar. Quando você está em seus 20 à 30 anos, você deve estar namorando e se casar. Quando você se casar, você deve ter crianças. Esse ciclo nunca termina.

Lee Jin-Song disse assumir que cerca de 60% de toda vergonha do próprio corpo e da aparência, usada contra as mulheres na Coreia, está associada com o seu status de relacionamento e valor na cena dos encontros. Existem inúmeros anúncios que apresentam roupas e produtos de beleza para mulheres, comercializados com slogans como “o batom que fará você obter a atenção dos homens” ou “a saia que lhe renderá um namorado“, ela observou.

Ao mesmo tempo, amizades femininas entre as mulheres solteiras são muitas vezes ridicularizadas e banalizadas na cultura popular. Por exemplo, as humoristas mulheres Kim Sook e Song Eun-Yi são muitas vezes ridicularizadas por serem amigas íntimas – ambas solteiras – em shows de comédia, recebendo comentários como “Vocês estão muito próximas. É por isso que nenhuma de vocês está namorando!“. Isso oprime as mulheres, independentemente de serem vistas como “atraentes” ou não, disse Jin-Song.

Quando mulheres de boa aparência optam por não namorar, elas são muitas vezes consideradas arrogantes ou ímpares. Por exemplo, as pessoas podem pensar que algo deve estar errado com elas, apesar de sua aparência. Enquanto isso, as mulheres solteiras que são pouco atraentes muitas vezes se assumem de tal forma devido à falta de interesse dos homens.

Entre muitas coisas, ‘não ser popular’ entre os homens muitas vezes se torna uma fonte de insulto para muitas mulheres jovens“, ela escreve no livro. “Por exemplo, as feministas são insultadas por serem feministas por aqueles que dizem: ‘Elas são feministas, porque nunca foram apreciadas pelos homens’. Mas a popularidade assume muitas formas diferentes. As pessoas raramente são insultadas por não ser populares entre as crianças ou entre os idosos.

Para a última edição de sua revista trimestral Holo Quarterly – “holo” significa estar sozinho em coreano – Lee Jin-Song entrevistou uma jovem que ficou solteira por anos por escolha própria. Na entrevista, a mulher compartilhou suas experiências vergonhosas por estar solteira na Coreia, onde ela foi muitas vezes chamada de “peculiar” por escolher não namorar, “apesar de ser linda“.

Quando eu recusei um convite para um encontro às cegas, a pessoa me perguntou: ‘Por que você desperdiça seu rosto bonito assim?’“, a entrevistada contou para Jin-Song. “Então isso significa que a minha aparência é apenas exclusivamente para namoro? Se não estou em um relacionamento romântico, então estou me ‘desperdiçando’? Eu pessoalmente gosto de me vestir bem para me satisfazer, mas parece que todos os meus esforços para uma boa aparência são vistos como os esforços para parecer desejável para os homens.

Uma vez, quando ela recusou um homem que chamou-a para sair, ele ficou irritado e disse a ela: “Você é muito arrogante. (Você é bonita mas) não é bonita o suficiente (para me rejeitar)’. “Então eu acho que para rejeitá-lo, uma mulher tem que ser muito bonita, em um outro nível“, continuou a jovem na entrevista.

Ela também disse que houve vezes em que ela se deparou com experiências desagradáveis ​​com homens estranhos, que a seguiram na rua ou pediram o seu número. Ela realmente achou tais experiências desconfortáveis ​​e até mesmo perigosas, mas a maioria de seus amigos a acusaram de “contar vantagem” sempre que ela falava sobre isso.

As pessoas diziam: “Coisas como essa só acontecem com gente bonita“, ou “Você só quer contar vantagem, não é?“. Mesmo quando ela estava envolvida numa relação abusiva com um de seus ex-namorados, um conhecido lhe disse: “Eu não sei por que você está suportando tal tratamento de seu namorado quando você é uma mulher bonita“. Ela continuou: “Ser atraente e ser vítima de abuso no namoro são duas coisas diferentes. Então, o que isso significa? Se uma mulher não é bonita, está tudo bem para ela ser abusada por seu parceiro?

Na experiência da autora Lee Jin-Song, até mesmo a sua pós-graduação foi considerada como algo indesejável para a cena do namoro. Atualmente, aluna Ph.D. em Literatura Coreana, ela costumava ouvir, inclusive de taxistas, que “Mulheres inteligentes não são populares entre os homens“. Lee Jin-Song também ouviu comentários como “Por que você estuda tanto? Isso vai tornar mais difícil para você se casar” e “É por isso que os homens te acham intimidante.”

Mas eu não nasci para ser ‘popular’ entre os homens. Isso não é o único propósito da minha vida“, disse ela. “Portanto, se seus objetivos de vida e escolhas são impopulares entre as pessoas do sexo oposto, você tem que desistir deles?

Lee Jin-Song disse que para acabar com a vergonha de se estar sozinho, precisa se começar com a aceitação da diversidade das relações humanas, desejos, gostos e escolhas. A autora disse que a cena atual dos relacionamentos na Coreia é estritamente de orientação heterossexual, e é esperado que as mulheres que são consideradas desejáveis em grande parte pareçam e se comportem de determinadas maneiras – juvenis, populares, atraentes, inteligentesmas não “muito” inteligentes – e não-agressivas. No entanto, nem todo mundo quer namorar e se casar, e nem todo mundo acha apenas um certo tipo de pessoa atraente, disse ela. “Há muitas maneiras de viver sua vida. Muitas vezes, as pessoas solteiras são consideradas preguiçosas ou como não tendo vontade de encontrar alguém. Mas na vida é tudo sobre como fazer suas escolhas. Essa pessoa pode ter optado por investir o seu tempo e esforços em outra coisa. Isso não significa que ele ou ela é uma pessoa insatisfeita“, acrescenta.

Eu acho que aqueles que são solteiros podem ser tão felizes – ou infelizes – como aqueles que estão em relacionamentos. Só porque você é casado ou está em um relacionamento, não faz de você uma pessoa superior a alguém que é solteiro. Um status de relacionamento não é um símbolo de sucesso ou fracasso. É apenas uma das muitas escolhas que você faz em sua vida.

 


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



3 COMENTÁRIOS

  1. Adorei o texto e ao mesmo tempo me assustei com essa pressão de se ter um relacionamento…

    Sei lá, soa tão antiquado, mas se eu parar pra pensar, várias vezes meus vizinhos que não me viam a tempos me perguntavam se eu já tinha casado… Assim, ficava engraçado porque quando dizia que não a maioria absoluta falava que eu estava certa que homem só dá trabalho… Daí fico nessa, me assusto em ver um país tão moderno ter ideias “antiquadas” mas sei que isso também ocorre no meu dia-a-dia.

    É bom pra refletir, não pensar de imediato que “nossa, que absurdo e não sei o que” sem olhar o próprio umbigo ^^

    parabéns pelo post
    bj e até

  2. Lee Jin-Song tem meu respeito por manifestar tão bem esse fato. Por mais que na Coreia do Sul seja mais forte essa cobrança por conta da cultura, vale lembrar que em outros paises há essa “obrigação”.

    Já ouvi muitos comentarios maldosos acerca minha escolha de investir em outra área sem ser a dos relacionamentos. Vou comprar esse livro e sair distribuindo pelas ruas hahaha será que assim as pessoas mudam esse pensamento arcaico?!

  3. Eu li que existe essa pressão na China também. Que se a mulher não encontrar um parceiro até os 27 anos é porque ela “ficou pra titia”. Está causando muito desconforto por lá, muitas mulheres cometendo suicídio por não encontrar um marido. Credo!!

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome.