O k-pop está no centro do mundo, dessa vez, por um grande escândalo que envolve sexo, prostituição, drogas e criou uma nova onda do movimento #MeToo no país.

Conhecido atualmente como Escândalo Burning Sun, com referência à boate de Seungri, integrante do famoso grupo Big Bang,  o ocorrido na verdade começou há alguns anos, quando um grupo de homens começou a trocar evidências de suas “explorações” sexuais: fotos e vídeos feitos sem o consentimento das mulheres que aparecem neles.

OS ENVOLVIDOS

Joonyoung
Jung Joonyoung chega ao tribunal para audiência de revisão do pedido de prisão. Seul, 21 de março. Foto: Kim Hongji/Reuters

Seungri, ex-BIGBANG, é um dos principais envolvidos. O “Gatsby” coreano estava arrumando prostitutas para clientes VIPs e participava do chat onde, junto de outras celebridades, fotos e vídeos de mulheres com quem se envolveram eram compartilhados.

 

Jung Joonyoung foi descoberto ao levar o celular para o conserto. Ao descobrir as evidências, o denunciante levou o celular à polícia. Nele foram encontradas mensagens onde o Joonyoung faz pouco caso de estupros, e vídeos de garotas, provavelmente drogadas e inconscientes, que são apresentadas a ele. Nos grupos, além disso, eram discutidos atos criminosos, como a intenção de drogar e estuprar vítimas.

Além deles, também estão envolvidos Yong Junhyun, ex-HIGHLIGHT; Lee Jonghyun, do CNBlue; Choi Jonghoon, ex-F.T.Island. Novos nomes aparecem a cada minuto. O mais recente é de Roy Kim, que foi preso, no dia 04/04, acusado de compartilhar fotos obscenas.

Além disso, um policial de Seul está sendo acusado de receber propina de Seungri.

A MASCULINIDADE TÓXICA

#MeToo Coreia
Mulheres em protesto feminista #MeToo. Foto: Parsha Sass

A ideia de que o papel masculino deve envolver violência, dominância e degradação da mulher está enraizada na sociedade sul-coreana. Em uma semana, cerca de 1600 casos de spycams em motéis foram descobertos. Em 2017, foram 6.500 denúncias.

Em um protesto, Kim Yongsoon, co-presidente da Associação de Mulheres Coreanas Unidas disse: “a cultura do estupro na Coreia, que usa mulheres para fazer vídeos eróticos, já se mantém há muito tempo.

Na Coreia, a distribuição de pornografia é ilegal, e os sites pornôs estão bloqueados ou são difíceis de acessar. Porém, os aplicativos de mensagens são amplamente utilizados para a divulgação de vídeos explícitos.

Choi Mijin, presidente do Centro de Apoio Trabalhista-Legal às Mulheres diz que o problema não é de algumas celebridades, mas de como os homens coreanos veem as mulheres.

A professora Park Kwicheon, da faculdade de Direito da Universidade Ewha, diz que homens veem as mulheres apenas como objetos sexuais e, por isso, podem não ser capazes de entender o quão errado é gravar esse tipo de vídeo.

“ELES NÃO PENSAM QUE ESSE TIPO DE COMPORTAMENTO É CRIMINOSO, MAS ACREDITAM QUE SEJA APENAS UM TIPO DE JOGO”

A professora é seguida por diversos especialistas. Um deles é Michael Hurt, sociólogo da Universidade de Seul. Segundo ele, “homens coreanos transformaram câmeras em armas“.

Vídeos de sexo e pornografia de vingança são ameaças sociais críveis por aqui“, disse Hurt. “Algo similar aconteceu em um, agora infame, escândalo na Korea University, não muito tempo atrás. Alguns alunos divulgaram, num chat do Kakao, os nomes das estudantes mais novas que eles estuprariam… Isso é o padrão para alguns homens na Coreia.

Divulgar material ilícito e tratar mulher como “pedaços de carne” ou moedas de troca em um jogo sexual é comum na cultura coreana, o sociólogo diz. “Nós estamos vendo a versão k-pop disso, mas é um problema muito comum na Coreia.”

COMO O ESCÂNDALO AFETA O K-POP

Seungri Aoi Ramen
Segunri na frente de mais uma unidade do restaurante Aori Ramen. Foto: Instagram

O escândalo, sem sombra de dúvidas, balançou a indústria do k-pop – que valia US$4.7 bilhões em 2017 – e descarrilhou a carreira dos ídolos envolvidos, a maioria no fim de seus 20 anos e começo dos 30, no ponto mais alto de suas carreiras.

Por exemplo, Seungri se desligou do BIGBANG, que faturou US$ 44 milhões em 2016. Ele, que, de acordo com as notícias, valia US$ 3.2 milhões em 2016, também foi demitido do seu posto de CEO do Aori Ramen, uma cadeia de restaurantes fundada por ele. A rede sofreu um impacto negativo com o escândalo.

A YG Entertainment, que lançou a carreira de Seungri e do BIGBANG há mais de uma década e que já cortou seus laços com o artista, viu suas ações caírem mais de 25% desde a última semana. A agência também está sendo processada por grupos civis e por investidores por “falta de ética e moral”, de acordo com a mídia local.

Por mais que o escândalo tenha balançado a indústria e chocado os fãs – em sua grande maioria de mulheres – Hurt não acredita que eles abandonarão seus ídolos, ou que a indústria realmente vai mudar. Ele diz:

Esse escândalo não vai mudar a indústria do k-pop, de forma alguma. Ele vai fazer com que as pessoas estejam mais atentas ou cuidadosas, dependendo de qual lado, entre o criminoso e a vítima, você está.”

Ele continua dizendo que o escândalo só está recebendo atenção porque afeta a imagem internacional da Coreia. “Como todas as coisas na Coreia, o escândalo trouxe vergonha aos coreanos e isso não pode ser varrido para debaixo do tapete, como seria se estivéssemos nos anos 70 ou 90.

“SE ELE PUDESSE SER IGNORADO, OU ENXOTADO PARA ALGUM CANTO DA COREIA, SERIA; MAS, AGORA, O MUNDO TODO ESTÁ VENDO E É POR ISSO QUE CABEÇAS ESTÃO ROLANDO MAIS RAPIDAMENTE.”

Em outros casos de abuso na indústria, artistas nulheres foram culpabilizadas, enquanto os homens, geralmente, eram esquecidos, diz Jenna Gibson, uma fã de k-pop e estudante de doutorado em Relações Internacionais na Universidade de Chicago.

Kim Hyunjoon, ex-integrante do SS501, enfrentou diversos escândalos nos últimos anos, incluindo acusações de violência doméstica, uma disputa de paternidade e dirigir alcoolizado“, ela diz.

E, mesmo assim, ele continua trabalhando na indústria. Por trás dos problemas óbvios com esses comportamentos, esse é um dos maiores problemas – os homens continuam escapando dessas coisas e, por isso, eles sequer pensam nas consequências.”

Mano Lee, uma colunista de Seul e fã de k-pop, acredita que os artistas não serão perdoados tão facilmente a partir de agora.

Os que seguem o k-pop há muito tempo dizem que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde“, ela disse, completando que alguns observadores dizem saber que os artistas tinham problemas de comportamento, mas não dessa forma.

Os fãs de k-pop, atualmente, estão interessados em vários problemas que se conectam aos movimentos sociais que fervilham na Coreia do Sul agora, incluindo direitos humanos, feminismo, igualdade de gênero, entre outros, diz Lee. Ela completa dizendo que isso dá um pouco de esperança.

“COMO FÃ DE K-POP, CRÍTICA E FEMINISTA, EU ESPERO QUE ESSES ÍDOLOS PAGUEM PELO O QUE FIZERAM. EU TAMBÉM ESPERO QUE A INDÚSTRIA MELHORE. É O MOMENTO CERTO PARA UMA GRANDE MUDANÇA.”

Este é também o desejo do Koreapost. Que possa existir igualdade e respeito entre os gêneros seja na Coreia ou no Brasil.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



3 COMENTÁRIOS

  1. Se já muraram o nome do escândalo já se pode perceber que o integrante do Big Bang não vai ser punido, muito menos a YG que para mim já é uma organização criminosa.

    • Prezada Sanara,
      A sua opinião é de extrema importância para o nosso blog e ela será levada em consideração nas próximas postagens, já que o Koreapost é um espaço aberto a sugestões e críticas.
      Compreendemos que a misoginia é um fator central na questão dos escândalos sexuais que envolveram vários idols da indústria do K-pop, assunto o qual essa matéria aborda. Entendemos que a “masculinidade tóxica” é diferente de “misoginia”, porém também compõe aspecto importante a ser considerado na análise conjuntural deste problema.
      A desigualdade entre homens e mulheres é algo presente não apenas na realidade coreana, mas em todos os lugares. Contudo, por meio dessa análise, também gostaríamos de trazer à luz dos fatos os aspectos perigosos e prejudiciais que historicamente se apresentam nas relações sociais entre homens, e que acabam por resultar em uma desigualdade ainda maior entre homens e mulheres.
      Nós esperamos que possa compreender que o intuito dessa matéria é expandir a análise para além do aspecto misógino, que de fato é central na questão, e agradecemos pelo comentário. Buscaremos continuar o trabalho árduo de pesquisa e análise para melhor informar todos os nossos leitores!

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