O editor chefe da Revista Korea Exposé, descreveu sua experiência como cidadão coreano, mediante os resultados.

“A Coreia estava em alvoroço no fim de semana com os resultados de uma pesquisa conduzida pelo Pew Research Center na primavera, sobre o que torna a vida “significativa, gratificante ou satisfatória” em 17 economias desenvolvidas.

As descobertas  foram publicadas em 18 de novembro e as respostas da Coreia foram surpreendentes. Foi o único país onde o “bem-estar material” foi considerado a principal fonte de significado da vida. Em quatorze outros países, a primeira escolha foi a família.

Embora família, carreira, bem-estar material, amigos e saúde sejam todas as principais fontes de significado, sua importância varia de acordo com a pesquisa pública.

Escolha classificada entre 17 tópicos codificados como parte do que dá às pessoas o sentido da vida.

O que torna a vida significativa na Coreia? Parece que não muito
Foto: Korea Exposé

Como era previsto, a notícia gerou muitas discussões em todo o espectro ideológico da Coreia como prova de decadência do país, mas por razões diferentes. “A Coreia é o único país desse jeito”, escreveu o músico e crítico cultural proeminente Sohn Yisang no Facebook, dando a entender que muitos coreanos estão focados em “don 돈” (dinheiro), enquanto ele traduzia para “bem-estar material”.

O jornal conservador Chosun Ilbo culpou os legisladores do atual governo de centro-esquerda por transformarem os coreanos desta forma: “nos últimos anos, os cidadãos deste país passaram por experiências que abalaram a própria base de como a felicidade é entendida”.

O jornal obviamente quer argumentar que o preço fora de controle dos imóveis tornou “as pessoas que não conseguem comprar um apartamento, mesmo juntando tudo o que têm, infelizes, porque ouvem como as outras pessoas estão ficando muito mais ricas por meio da compra de ações, apartamentos ou criptomoedas.”

Eu realmente não vejo uma conexão clara entre o que o Chosun Ilbo está dizendo e a pesquisa Pew, mas qualquer que seja a forma como alguém interpreta o resultado desta pesquisa, há um acordo: a escolha do bem-estar material como a principal fonte de significado na vida fala sobre um problema na Coreia.

Mas que problema exatamente?

Se alguém ler o relatório inteiro, verá que o quadro é complicado.

Na Coreia, apenas 19% dos entrevistados coreanos citam o bem-estar material como a fonte do significado da vida. É o suficiente para torná-lo a razão número um de existência neste país, mas certamente não por uma ampla margem (o número dois é a saúde com 17%).

Apenas com base na porcentagem de entrevistados dizendo que o bem-estar material dá sentido às suas vidas, a Espanha é duas vezes mais materialista que a Coréia, com 42% (Holanda, Itália e Bélgica seguem com 33, 29 e 25%, respectivamente). Mas, nesses quatro países europeus, muitos fornecem mais de uma resposta à pergunta sobre o que torna a vida significativa para que o bem-estar material seja empurrado para a posição de segunda ou terceira resposta mais comum.

O que torna a vida significativa na Coreia? Parece que não muito
Curiosamente, nos países asiáticos, os entrevistados eram muito mais propensos a mencionar apenas uma fonte de significado na vida, com os coreanos mais propensos a fazer isso com 62% Foto: Pew Research Center

Curiosamente, nos países asiáticos, os entrevistados eram muito mais propensos a mencionar apenas uma fonte de significado da vida, com os coreanos mais propensos a fazer isso com 62%.)

Um dos aspectos mais fascinante da pesquisa tem a ver com as respostas coreanas sobre outras coisas que podem oferecer satisfação ou significado à vida, e aqui a realidade no país é simplesmente sombria.

Muito poucos coreanos encontram significado em amigos e membros da comunidade (três por cento), hobbies (três por cento), natureza (dois por cento), parceiros românticos (um por cento), religião (um por cento), aposentadoria (um por cento), aprendizagem (um por cento), serviço (um por cento), animais de estimação (zero por cento) e viagens e novas experiências (zero por cento).

Em todas essas categorias, a Coreia está no último lugar ou quase no fim da classificação.

Além do bem-estar material (19 por cento), as coisas com maior probabilidade de dar sentido à vida dos coreanos são saúde (17 por cento), família (16 por cento), satisfação geral (12 por cento), sociedade (8 por cento), liberdade pessoal  (8 por cento) e trabalho (6 por cento).

Mas mesmo assim esses níveis mais elevados de interesse estão muito abaixo da mediana, exceto na categoria de satisfação geral, onde a Coreia tem a segunda maior porção de entrevistados (12 por cento) dizendo que estão satisfeitos com a vida, depois da Alemanha com 17 por cento (no outro extremo do espectro, apenas 2% dos americanos dizem que estão satisfeitos com a vida e 1% na Grécia).

O que torna a vida significativa na Coreia? Parece que não muito
Japão, Cingapura, Coréia e Taiwan – também são os menos propensos a extrair significado existencial da família e dos filhos. Foto: Pew Research Center

E na categoria de família, a Coreia vem em penúltimo lugar, apesar de pontuar 16 por cento.

Desafiando o estereótipo de asiáticos orientados para a família, os quatro países asiáticos nesta pesquisa – Japão, Cingapura, Coreia e Taiwan – também são os menos propensos a extrair significado existencial da família e dos filhos.

A atitude em relação à família na Coreia deve se tornar mais negativa com o tempo: entre os entrevistados coreanos na faixa etária de 18 a 29, apenas três por cento (e seis por cento na faixa acima de 65 anos) dizem que vêem a família como  uma fonte de significado.  Isso reflete o rápido aumento da proporção de famílias com uma única pessoa (agora em 40,1%) na Coreia.

O que torna a vida significativa na Coreia? Parece que não muito
O que torna a vida significatica? Visão de 17 economicas desenvolvidas. Foto: Pew Research Center

No geral, os resultados indicam que os coreanos não estão tão insatisfeitos com a vida em um esquema global de economias desenvolvidas (apenas porque tantos outros estão menos satisfeitos). No entanto, quando se trata de levar uma vida significativa, muitos coreanos ficam à deriva, com apenas bem-estar material ou saúde para fazê-los ver qualquer razão de ser.  E mesmo a saúde, como preocupação com o corpo físico, não é menos uma preocupação material privada do que o dinheiro.

Como os coreanos passaram a ver tão pouco sentido na vida além de suas condições materiais?  A explicação do Chosun Ilbo e de seus aliados de direita é rebuscada: o alto preço da habitação nos últimos anos é uma preocupação séria, mas é um fenômeno muito recente para ter gerado repentinamente uma grande mudança cultural.

Uma interpretação mais plausível vem da presidente Hong Yunhui da Organização de direitos das pessoas com deficiência Muui “O orçamento de bem-estar social da Coreia é igual a 12% do PIB nacional, muito abaixo da média entre vinte países membros da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que é de 20%”, opinou ela em 23 de novembro.

“Numa sociedade que faz com que as famílias assumam a responsabilidade pelos infortúnios e dificuldades que fogem ao controle dos indivíduos, é natural que o que dá maior sentido à vida não seja a família, mas o material”, comenta Hong Yunhui.

Eu conheço Hong pessoalmente e sei que ela teve que se mudar para uma parte diferente de Seul recentemente porque a escola de seu antigo bairro não instalou um elevador (sua filha, que logo se formou no ensino médio, usa uma cadeira de rodas).

Dessa perspectiva, faz sentido que o bem-estar material seja uma pré-condição para um mínimo de felicidade.  Hong não poderia ter se mudado daquele jeito por causa de sua filha, se ela não tivesse condições de pagar a mudança.

Da mesma forma, muitos idosos coreanos – meus pais inclusive – financiam a aposentadoria com poupança pessoal em um país conhecido por sua maior taxa de pobreza de idosos pela OCDE, 43,4%. Dada a situação, é compreensível que tantos coreanos valorizem o bem-estar material, uma vez que não se pode confiar no governo quando o dinheiro está curto.

Ainda assim, a pergunta que a Pew fez não foi “o que é uma pré-condição para a felicidade”, mas “o que torna a vida significativa”, e as respostas da Coreia são desanimadoras.  Em comparação com as populações dos outros 16 países, os coreanos têm menos probabilidade de encontrar o sentido da vida em qualquer coisa.  Não há entusiasmo para muita coisa e, quando pode ser visto, é sobre dinheiro e bem-estar pessoal.

O que a pesquisa da Pew mostra é que os coreanos são muito mais materialistas do que as suas contrapartes em outras economias desenvolvidas.  Mostra que a Coreia sofre de uma ausência de propósito existencial.

Muitos de seus habitantes dizem que não têm por que viver, e esse é o maior problema do  país”.

O que torna a vida significativa na Coreia? Parece que não muito

Se-Woong Koo obteve seu Ph.D. da Stanford University e lecionou estudos coreanos na Stanford, Yale e na Ewha Women’s University. Ele é editor chefe da Revista Korea Exposé, de onde este artigo foi traduzido e escreve para o The New York Times, Foreign Policy e Al Jazeera.

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As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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