A Coreia do Sul tem uma das fronteiras mais fortificadas do mundo e todo homem sul-coreano – inclusive celebridades – de até 35 anos deve cumprir o serviço militar por dois anos. Desde de 2000, o país já prendeu  mais de 10.000 objetores conscientes e não há alternativas civis para os que não querem servir.

No dia 28/06, a Corte Constitucional Sul-Coreana decidiu, pela terceira vez, que fugir do alistamento é ilegal e que o direito constitucional da consciência não deve ser maior que a defesa nacional. Porém, essa é a primeira vez que julga inconstitucional não fornecer alternativas civis.

Em 2007, o governo sul-coreano já havia anunciado planos para introduzir o serviço civil para os objetores, mas no ano seguinte o conservador Lee Myungbak assumiu a presidência e as alternativas não saíram do papel.

 

Lee Myungbak
Presidente Lee Myungbak. Foto: Australian Associated Press

Porém, manter um exército dessa forma está se tornando um desafio. Gerações pós-guerra consideram o alistamento uma interrupção irritante de suas carreiras. Eles também estão desencorajados com a constante corrupção, abuso e problemas disciplinares do exército.

Sul-coreanos não querem servir ao exército se tiverem chance, então eles ficam bravos quando outros não o fazem“, diz Park Yuho, que se negou a servir em protesto às notícias de espancamentos e tiroteios feitos por soldados abusados.

Atualmente, objetores são julgados pela corte civil e, geralmente, recebem uma pena de 18 meses de prisão. Esse ano, porém, eles começaram a receber apoio de cortes menores, onde seis deles foram julgados inocentes.

O vídeo, transcrito abaixo, foi preparado por um cidadão comum, para a Revista Eletrônica Korea Exposé. Kim Min, um objetor consciente, explica suas razões para ser um objetor consciente.

“Se eu for preso, eu poderei ler? O que eu comeria? O que eu faria lá? Com que tipo de pessoas eu estaria preso? Eu continuava me fazendo essas perguntas porque eu sabia que seria preso. Há uma semana, eu anunciei que me recusava a servir o exército. Como fotógrafo, eu testemunhei muita tristeza e dor que o governo inflige. Em solidariedade a esses que sofreram, eu decidi me tornar um objetor. Eu tiro fotos de momentos de conflito social. Grandes protestos contra as autoridades, inquilinos sendo expulsos, retratos de minorias.

Ao me recusar a servir eu, como as pessoas das minhas fotos, me tornei parte de um movimento de resistência e ativismo.

Sul-coreanos nos seus 20 anos devem servir de um a dois anos. As pessoas geralmente brincam, ‘se você pode evitar, não vá ao exército’, mas a percepção dos objetores ainda é negativa. Do nada, as pessoas falam de obrigação, segurança nacional, perguntam ‘quem protegerá a nação?’, ‘se você é um objetor consciente, então eu não tenho consciência por ter servido?’. Homens que serviram são vistos como normais, então, os que não servem não considerados cidadãos de segunda classe.

As condições no exército são muito ruins. Os direitos fundamentais são reduzidos. Você não pode usar seu telefone. Você não tem feriados e nem pode sair quando quiser. Os recrutas recebem pouco apesar do seu trabalho ser explorado.

Integrantes do Comando Especial dando uma demonstração de suas habilidades em Taekwondo durante a celebração do 69º Dia das Forças Armadas, em Pyeongtaek. Foto: Kim HongJi / Reuters
Integrantes do Comando Especial dando uma demonstração de suas habilidades em Taekwondo durante a celebração do 69º Dia das Forças Armadas, em Pyeongtaek. Foto: Kim HongJi / Reuters

Geralmente, vemos notícias do tipo “Alguém morreu no exército” ou “alguém cometeu assassinato no exército”. As condições são tão ruins que você não vai acreditar que isso existe em 2018.

Os objetores geralmente cumprem sentença de 1,5 ano de prisão. Eu serei marcado como um criminoso. Empregadores preferem homens que tenham servido ou, ao menos, que tenham sido dispensados legalmente. Claro, não há nada bom em ser objetor. Se a Coreia do Sul oferecesse alternativas civis, os objetores poderiam servir a sociedade de outras formas.

A decisão da Corte Constitucional terá um grande impacto para mim. Mesmo que o serviço militar seja um dever segundo a lei, se for pacifista ou tiver uma religião que me proíbe de pegar em armas e de me tornar um soldado, a constituição ainda deveria me proteger, de acordo com as suas cláusulas que garantem liberdade de consciência e pensamento.

Objetores

Nas redes sociais, eu publiquei minha objeção ao serviço militar. Houve muita repercussão negativa, mas também muito apoio, o que me ajudou bastante. Alguém me disse: “eu me alistei, mas apoio a sua decisão”. Meu coração se aqueceu. Eu ainda estava com medo, mas isso me deu mais coragem.

Todo homem coreano pensa, ao menos uma vez: “Eu não quero ir ao exército”. Esses pensamentos e questionamentos que eu faço a mim mesmo são pequenos passos para transformar o mundo em algo um pouquinho melhor”.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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