Já falamos aqui no Koreapost, sobre a pressão da sociedade sul-coreana para que as pessoas sejam magras.

Falamos sobre o padrão de peso k-pop, dos grupos que protestam pela aceitação de corpos diferentes e sobre o “body-shaming” que ocorre por lá.

Mas, por que estamos falando sobre isso de novo? Porque o assunto é importante demais para não falarmos a respeito, também, porque isso continua acontecendo. Todos os anos. Todos os dias.

Exagero? Não.

CL chegando ao aeroporto de Incheon. Foto: Ilgan Sports

Primeiramente, temos CL, que ainda este ano foi alvo de comentários “preocupados” com sua saúde devido a um ganho de peso “súbito”.

Uma reportagem do Korea Times mostra a rapper chegando no aeroporto de Icheon.
Os comentários são de como ela deixou sua “figura magra” e “estilo chique de aeroporto” para trás (apesar da roupa não estar tão diferente do que ela usava na época do 2NE1).

Também temos Dana, ex-integrante do The Grace, que ganhou peso após acontecimentos que afetaram seu psicológico. Ela apareceu em um reality show buscando motivação para emagrecer (ok, ela não estava feliz assim).

Porém, o problema é a forma como trataram o ganho de peso e o atual corpo da cantora.

E temos Ailee que apareceu na TV chorando e comentando como ficou chateada por ter que emagrecer para continuar sua carreira e que sentiu que seu talento importava menos do que sua aparência.

CULTURAL?

É cultural, alguns podem dizer. É cultura mas mundial, provavelmente. Porém, cultura pode ser tóxica, nunca se esqueçam disso.

Na Coreia as pessoas sabem que serão julgadas por sua aparência. Não importa sua capacidade, se seu concorrente for mais magro, bem… a vaga de emprego é dele. A vaga no grupo é dele.

Um relatório do site Eating Disorder Review aponta que a insatisfação com o corpo e a internalização do ideal magro é mais difundido no país do que em países ocidentais.

O relatório aponta um estudo feito com 3 gerações de mulheres coreanas que aponta que no país os transtornos alimentares são, inadvertidamente, promovidos através da cultura que “enfatiza a aparência ao invés de habilidade e talento como um fator crucial para o sucesso de uma mulher no casamento e carreira“.

AFETANDO ADOLESCENTES E JOVENS ADULTOS

JinE interrompeu a carreira graças à anorexia. Foto: WM Entertainment

Em 2015, um relatório da Organização de Cooperação e Desenvolvimento (OECD, sigla em inglês) determinou que, na Coreia do Sul, é mais provável que meninos se tornem obesos.

No mesmo ano, o Chosun Ilbo citou um estudo conduzido pelo Centro Coreano de Controle e Prevenção de Doenças que descobriu que:

  • 45,1% das adolescentes estava de dieta;
  • 23,1% dos adolescentes estava de dieta;
  • 18,8% das adolescentes admitiu ter comprado pílulas ilegais para emagrecimento ou laxativos (também de forma ilegal), e ter utilizado meios extremos como vomitar e passar fome para se manterem magras.

Garotas jovens precisam de muita nutrição para crescer e podem acabar estragando sua saúde, permanentemente, com dietas extremas“, diz Dr. Oh Sangwoo, do Hospital Ilsan, da Universidade de Dongguk.

Como consequência dessas dietas, diz um estudo da Administração Coreana de Comidas e Remédios feito em 2010, de 50.000 adolescentes, 15% das meninas e 10% dos meninos sofriam de distúrbios alimentares.

O Professor Kang Jaehun, do Hospital Seoul Paik, da Universidade Inje, culpa a pressão social e o fenômeno do k-pop.

Na Coreia, se um menino é gordo, as pessoas dizem que ele parece alguém em boa posição. Entretanto, se uma menina é gorda, as pessoas se perguntam se ela conseguirá encontrar um marido“, e continua:

Existem muitos idols e celebridades que parecer ser muito magros, e as crianças tentam ser como eles. É um fenômeno global, mas parece que os coreanos são muito mais ligado a isso

 

BODY-SHAMING

Kyla sofreu constante body-shaming por não ser tão magra quanto suas colegas de grupo. Foto: Dispatch

Um estudo da Universidade Soon Chun, que monitorou as redes públicas de televisão do país por seis meses, revelou que o “body-shaming” de mulheres plus-size é prevalente.

Em um episódio de Hello, um talk show do canal KBS2, uma mulher diminuía sua irmã mais nova, chamando-a de “gorda e pequena”, apesar da irmã dizer ser segura do próprio corpo.

A irmã mais nova disse: “minha irmã diz que eu pareço ‘repugnante’ quando uso short.”

O estudo também apontou que muitos produtores não viam uma conexão entre a obsessão por aparência e a disparidade de gênero.

Os pesquisadores pediram que seis produtores avaliassem a importância de combater essa obsessão (chamada de lookism, em inglês) e o body-shaming na televisão, utilizando uma escala de 0 a 5. A média foi de 1.5.

“Se o lookism se aplica a homens e mulheres, na TV, eu não acho que ele seja parte do problema de desigualdade de gênero”, disse um dos produtores.

DIETAS EXTREMAS

Exemplificando as dietas insanas que as famosas fazem para manter o padrão de peso k-pop, o Korea Daily fez uma compilação mostrando o que famosas já fizeram, ou ainda fazer, para manter o peso.

Foto: Korea Daily

IU, comia apenas uma maçã, duas batatas doce e um shake de proteína durante o dia todo! Apesar de absurdo, é possível ver vários vídeos onde as pessoas tentam a “dieta IU”.

Foto: Korea Daily

A atriz Park Shin Hye comia um pouco mais do que IU, aparentemente, mas a dieta ainda não supria a quantidade necessárias de vitaminas, proteínas e tudo  oque o corpo precisa. Dois pepinos, um pouco de arroz integral, um copo de leite desnatado e repolhos.

Suzy, ex-integrante do miss A, e atual atriz de sucesso, também recorreu a uma dieta pouco saudável para emagrecer. Peito de frango, batatas doces, leite desnatado, arroz integral e salada de vegetais.

Existem diversas outras dietas, como a do copo (toda a comida deve caber em um copo pequeno de plástico) ou a dieta feita por Changmin, do 2PM, que consistia em comer dois blocos de tofu e correr por 6 horas!

MUDANÇAS, LENTAS MUDANÇAS

A Coreia, assim como o mundo, parece caminhar para a aceitação do corpo diferente.

A comediante Lee Youngja na capa da edição de dezembro da revista Cosmopolitan. Foto: Cosmopolitan Magazine

A comediante Lee Youngja conseguiu a capa de dezembro da revista Cosmopolitan. Ainda que não pareça muita coisa, a capa de dezembro é a mais importante do ano!

Várias modelos plus-size começaram a aparecer no país: Yeom Yoonhye e Bye Kyohyun, que modelam para a JStyle, uma marca plus-size.

Yeom Yoonhye e Bye Kyohyun. Foto: JStyle

Kim “Vivian” Geeyang, que tem sua própria revista, 66100 e uma linha de roupas voltadas às pessoas plus-size.

 

Kim “Vivian” Geeyang, na capa de sua própria revista. Foto: 66100

Jun Gayoung, uma outra modelo diz: “a indústria da moda plus-size cresceu muito nos últimos anos. Lojas online estão criando roupas maiores e mais mulheres plus-size estão tentando ser modelos através do Instagram.

Jun Gayoung, 27 anos, posa em Hongdae, Seul. Foto: Kelly Kasulis/Mic

Taylor Tak, também modelo, comenta: “As vezes, eu sinto que estou gritando sozinha nesta sociedade.”

Taylor Tak, 26 anos, posa no distrito de Gangnam, em Seul. Foto: Kelly Kasulis/Mic

Tudo o que queremos é que as mulheres plus-size da Coreia se levantem e ousem dizer que “nós” nos aceitamos (a equipe do Koreapost é composta de várias mulheres plus size e nós apoiamos o body-positivity)


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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